Connolly: "A Bandeira Irlandesa"

30/04/2016

 

O conselho do Exército Cidadão Irlandês acordou, por meio de uma greve que seria deliberação erguer a bandeira verde da Irlanda no Liberty Hall, como Fortaleza ocupada pela Irlanda pelas armas dos irlandeses.


Esta é uma decisão transcendental na maior crise vivida pela Irlanda nos nossos dias. Estamos certos de que fará o coração de todos os homens e  mulheres verdadeiramente irlandeses se arrepiaram e que chegará ao sangue vermelho correndo ardorosamente pelas veias de todos os amantes do povo.


Significa que em meio a e apesar das traições e abandonos de líderes e guias, em meio a e apesar de toda debilidade, corrupção e covardia moral de uma parte do povo, em meio e apesar de tudo isso, ainda persiste na Irlanda um lugar onde autênticos homens e mulheres estão dispostos a se juntar e içar e defender a bandeira que é sagrada graças a todos os sofrimentos de tantos mártires do passado.


Desde o começo dessa terrível guerra vimos como se profanava cada símbolo da liberdade irlandesa para uso do inimigo, assistimos à prostituição de cada sagrada tradição irlandesa. Para que os jovens da Irlanda fossem seduzidos a servir a nação que nega todos os direitos nacionais ao seu povo, vimos chamamentos feitos a nosso amor à liberdade, aos nossos instintos religiosos, à nossa simpatia pelos oprimidos, à nossa afinidade com os que sofrem.


O poder que durante 700 anos tem levado uma amarga e implacável guerra contra a Liberdade da Irlanda, e que ainda declara que os direitos da Irlanda devem permanecer subordinados para Sempre aos interesses do império britânico, apelou hipocritamente a nossos jovens para que se alistassem sob sua bandeira e jorrassem seu sangue em "em nome da liberdade".


O poder que converteu seu domínio na Irlanda em um longo carnaval de corrupção e libertinagem das virtudes cívicas, e que se orgulhou da degeneração e degradação de tudo que os homens e mulheres irlandeses consideram sagrado, apelou a nós em nome da religião para lutar por eles como guardiões da cristandade.


O poder que mantém assolada aquela parte da população mundial maior que qualquer outra do globo, e que os mantém como assolados como escravos sem garantia nenhuma de liberdade ou autogoverno, este poder que coloca os católicos contra os protestantes, os hindus contra os maometanos, o homem amarelo contra o mouro, e que os mantém lutando uns contra os outros enquanto rouba e assassina todos eles, este poder apela à Irlanda para que mande seus filhos lutar sob a bandeira da Inglaterra pela causa dos oprimidos. O poder que por meio de seu domínio da Irlanda converteu a Irlanda em um deserto e que fez com que a história de nosso povo se lesse como o registro em um matadouro, e planejando a aniquilação de outro povo apela à nossa virilidade para lutar por eles com base na nossa solidariedade com os que sofrem e nossa raiva que sentimos da opressão.


Durante gerações o trevo foi proibido como emblema nacional da Irlanda, mas faz um tempo que a Inglaterra vem usando o trevo como meio de inculcar aos irlandeses mais ingênuos lealdade para a Inglaterra. Durante séculos a bandeira verde da Irlanda era uma coisa maldita e odiada pelas guarnições inglesas na Irlanda, e ainda é no fundo de seus corações. Mas na Índia, no Egito, nos Flandres, em Galipoli, a bandeira verde é usada pelos nossos dominadores para dar ânimos aos soldados irlandeses da Inglaterra para que entreguem suas vidas pela causa do poder que nega a seu país o direito de ser uma nação. As bandeiras verdes tremulam por cima das oficinas de recrutamento na Irlanda e Inglaterra como uma isca para jogar os pobres tolos à mortes desonrosas com o uniforme da Inglaterra.


A imprensa nacional da Irlanda, a autêntica imprensa nacional, nem corrupta e nem amedrontada, logrou rejeitar com grande êxito a maré da desmoralização e abrir as mentes do público Irlandês para que se desse conta  da verdade sobre a posição de seu país na guerra. A imprensa nacional irlandesa é uma autêntica bandeira de liberdade que trêmula pela Irlanda apesar do inimigo, mas também é bom que tremule em Dublin a bandeira verde deste país como um ponto de encontro de nossas forças e de encarnação de todas as nossas esperanças. E em nenhum lugar poderia tremular melhor essa bandeira que na invicta cidade da classe operária irlandesa, Liberty Hall, a fortaleza da classe operária militante da Irlanda.


Queremos uma Irlanda para os irlandeses. Mas quem são os irlandeses? Não são o latifundiário usureiro e proprietário de imóveis, nem o capitalista negreiro devorador de benefícios, nem o advogado meloso e cheio de graça, nem o jornalista prostituto, mentiroso que se alugou para o inimigo. Não são estes os irlandeses dos quais dependem o futuro. Não são estes senão a classe operária irlandesa, o único alicerce seguro sobre a qual pode se erguer uma nação livre.


A causa dos trabalhadores é a causa da Irlanda, a causa da Irlanda é a causa dos trabalhadores. Não se podem ser separadas. A Irlanda busca a liberdade. Os trabalhadores procuram que uma Irlanda livre seja a única dona de seu próprio destino, a suprema Senhora de todas as coisas materiais dentro e sobre sua terra. Os trabalhadores buscam fazer da livre nação irlandesa a guardiã dos interesses do povo irlandês, e para assegurar esse objetivo irão conferir a essa livre nação invés todos os direitos de propriedade contra as pretensões individuais, cuja intenção de que o indivíduo possa se enriquecer pela nação e não através da espoliação de seus compatriotas.

 

Tendo em perspectiva esta tarefa tão alta e sagrada para ser realizada pela nação, não é aceitável e correto que nós, a classe operária, lutemos para ceifar a nação do domínio estrangeiro como primeiro requisito para o livre desenvolvimento dos poderes nacionais que a nossa classe precisa? É aceitável. Em breve, no domingo de 16 de Abril de 1916, a bandeira verde da Irlanda será solenemente erguida sobre Liberty Hall como símbolo de nossa fé na liberdade e sinalizando para o mundo todo que a classe operária de Dublin apoia a causa da Irlanda, e esta causa é a causa de uma nacionalidade em separado e distintiva.

 

Nestes dias de dúvida, desespero e esperança renovada, lancemos a nossa bandeira ao vento, a bandeira de nossos pais, o símbolo de nossa redenção nacional, com os raios de sol brilhando sobre uma Irlanda renascida.

 

James Connolly, publicado um mês antes de ser fuzilado, no Worker’s Republic, 8 de Abril de 1916

 

Tradução de Gabriel Duccini

 

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