Benayon: "Antecedentes da enganação"

19/04/2016

Dando continuidade ao golpe permanente, Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprovou, por 38 votos contra 27, a abertura do processo de afastamento da presidente.


2. Denotando inominável falta de vergonha, votação dirigida pelo presidente da Câmara, o qual, de há muito, deveria ter sido destituído.


3. O golpe permanente foi retomado, porque entre o de 1954 e o anterior, de 20.10.1945, o da primeira derrubada de Getúlio Vargas, fora interrompido em 1950, com a escolha deste em eleição direta.


4. O sistema mundial de poder da oligarquia monárquico-banqueira angloamericana, de há muito, mascara sua dominação, por meio de exterioridades “democráticas”, como pluralidade de partidos e equilíbrio entre os “poderes do Estado”.


5. A tirania imperial sempre manteve agentes em numerosos países, inclusive na França, por séculos, centro cultural mundial. Montesquieu fez propaganda do sistema britânico, como se a família real não monopolizasse o poder. Inventou a teoria dos controles e contrapesos e fomentou a ficção de o governo pertencer ao Parlamento, eleito pelo “povo”.


6. No Reino Unido, os partidos conservador e trabalhista revezam-se no poder formal. Nos EUA, o republicano e o democrata. Qualquer deles ocupando oficialmente o governo, o essencial das políticas não se altera: são determinadas pelo complexo militar/serviços secretos e pela oligarquia financeira.


7. No Brasil, o simulacro cabe a alianças partidárias rotuladas de “direita, centro e esquerda”.


8. De 1946 ao golpe de 1964, houve: 1) a UDN, que combinava “moralismo”, fidelidade aos EUA e oposição ferrenha a Vargas; 2) o PSD, de base rural e conservadora; 3) o PTB, trabalhista, partido de Vargas; 4) agremiações de todas as ideologias e sem nenhuma.


9. No regime criado em 1988, ficaram: o PSDB e aliados (DEM, PPS, PP, PL etc.) alinhados, incondicional e assumidamente, ao sistema imperial, contando, no governo, com o apoio do PMDB e outros; o PT.


10. Este, embora não mais se fingindo de esquerda, ocupou o espaço desta. No governo, teve o apoio do PMDB e de mais políticos adictos ao fisiologismo.


11. Claro, pois, que o presente regime depende do dinheiro e da grande mídia e não oferece alternativa alguma digna de crédito.


12. Podem-se ver no antigo PSD o antecedente dos partidos de falso centro, como o PMDB. Ele se aliou ao PTB nas presidências de Vargas, JK e Goulart, auferindo as benesses governamentais, mas tendia a trair as políticas trabalhista e nacionalista.


13. Isso se comprovou, nos momentos de dificuldade de Vargas e Goulart e no quinquênio entreguista de JK, consumando-se no apoio à conspiração político-militar pré-1964 e à eleição de Castelo Branco, o presidente mais pró-EUA que já chefiou o Executivo.


14. JK, traindo os votos getulistas que o elegeram, executou e ampliou políticas instituídas pelo golpe de 1954 – que derrubou Vargas para assegurar a ocupação da indústria por empresas transnacionais, desencadeando a desnacionalização da economia.


15. O desenvolvimentismo de JK tinha pés de barro, pois a expansão do PIB estava associada à deterioração estrutural da produção e ao desequilíbrio financeiro. Impulsionou, como nunca antes, a taxa de inflação, causou déficits crônicos nas transações exteriores e fez cair o crescimento nos anos seguintes.


16. Tudo isso foi encoberto por demagogias, como o “rompimento” com o FMI, disfarçando de nacionalismo o que não passava de irresponsabilidade financeira.


17. JK promoveu Castelo Branco, que sabia ser conspirador, a pretexto de ser oficial competente, aumentando as possibilidades do golpe, a que aderiu antes de consumado, e apoiou no Senado a eleição de Castelo. A cassação de JK pelo regime militar lembra o lugar-tenente do heroi luso, Viriato, que o entregou ao império romano e foi repelido ao cobrar a recompensa.


18. Desmitifiquem-se mais ícones “democráticos”, como Tancredo Neves. Ele foi ao Uruguai, em 1961, com Ernesto Geisel, da casa militar de Jânio Quadros, convencer Goulart a concordar com a redução de poderes, via emenda parlamentarista, e se tornou primeiro-ministro.


19. A investidura de Goulart na presidência foi possível graças a Brizola, que conseguiu mobilizar e armar o povo do Rio Grande do Sul, e obter apoio do 3º Exército, liderado pelo general Oromar Osório. A marcha do Sul chegou a São Paulo e teria seguido para Brasília, não fora a timidez de Goulart.


20. Quando diplomata em Washington, de 1978 a 1982, inteirei-me de que Tancredo era considerado boa opção civil em círculos norte-americanos que trabalhavam para descartar o regime militar, desde medidas tomadas por Geisel, como o programa nuclear (embora Geisel não seja, pelo conjunto da obra, merecedor de admiração).


21. Por que, na eleição indireta de 1984, Tancredo derrotou Maluf (agora retirado da lista da INTERPOL, após aderir ao golpe contra Dilma) A Arena, que apoiava Maluf, era majoritária no Congresso. Deixou de sê-lo, para dar a vitória a Tancredo, através da dissidência que criou o PFL, articulada por Marco Maciel, político vinculado às oligarquias local e mundial, com ACM, Olavo Setúbal e Sarney.


22. A real significação de Tancredo não é dedutível de declarações como “Não pagarei a dívida com a fome do povo”, que, de resto, não envolve questionar as irregularidades e fraudes contidas nas dívidas.


23. Ela é inteligível: pela cartada comandada por Maciel; pelos ministros que nomeou (até Francisco Dornelles na Fazenda!); por extensas matérias da notória revista VEJA, com dados manipulados e elogios desmedidos ao discutível governo de Tancredo em Minas Gerais.

 

Nota: Em 17.04.2016, a Câmara aprovou encaminhar ao Senado o processo de impedimento, com 25 votos além dos requeridos 2/3. O que mais impressionou, afora a ignorância de tantos representantes da prostituição política reinante, foi o cinismo: enrolados na bandeira nacional, gritando “Viva o Brasil!”, enquanto aceleram a demolição do pouco que falta para completar a alienação da soberania nacional, operada de 1954 até hoje... O império angloamericano vale-se de irrecuperável regime político, formado e controlado por ele, e colhe mais frutos dos investimentos em ignorância e corrupção que realiza, há mais de 70 anos, no País.

 


por Adriano Benayon é doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Alemanha;

autor de Globalização versus Desenvolvimento.

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