"A Emenda Platt e a deslealdade de Estrada Palma completam 113 anos"

12/03/2016

A chamada Emenda Platt, assinada pelo presidente estadunidense William McKinley, em 29 de março do ano 1903, foi a expressão legislativa dos perenes propósitos de ingerência dos Estados Unidos respeito a Cuba. Tomás Estrada Palma, primeiro presidente daquela República, assinou pela Ilha o Tratado de Relações Permanentes que, por exigência dos EUA, permitiu à lei entrar em vigor em maio do ano 1903.

Estrada Palma, delegado nos Estados Unidos do Partido Revolucionário Cubano, fundado por José Martí, já tinha solicitado a ingerência norte-americana, nos inícios de nossa primeira Guerra pela Independência, em 1869 e em 1878. No ano1884, a convicção favorável à anexação de Estrada Palma teve sua reafirmação quando se aprontava o plano Gómez-Maceo de São Pedro de Sula, que entranhava lançar-se novamente à guerra.

Essencialmente, o governo cubano devia consentir que o dos EUA pudesse intervir em Cuba, quando achasse preciso, e cedia aos Estados Unidos fatias do território para instalar bases navais.

O senador Morgan tinha-se oposto à proposta do senador Orville H. Platt nas sessões do Congresso, em 25 e 26 de fevereiro do ano 1901, juntamente com outros dez legisladores. Qualificou a Emenda Platt de “ultimato ofensivo” para homens convencidos do seu direito de governar a Pátria pela qual se tinham sacrificado. Mas a Emenda foi aprovada por 43 votos favoráveis e 20 contra.

Em Havana foi exposta como condição sine quanum a obrigação de aceitá-la, pelo qual “a Convenção Constituinte de Cuba, convicta da inutilidade de se resistir” (1) foi obrigada a aprovar, pela exígua maioria de um voto, a imposição dos EUA.

Em 1896, o general Antonio Maceo completou a invasão da Ilha, desde Oriente até a província de Pinar del Río e voltou para Havana. Estava já em Santiago de las Vegas, às portas de Punta Brava e da capital, estudando o plano de um ataque a Marianao, marcado para essa mesma noite do dia 7 de dezembro, mas uma tropa espanhola chegou até o seu acampamento militar e ele saiu ao combate, como era seu costume. Projéteis colonialistas o alvejaram no rosto e no peito durante a escaramuça e deram cabo de sua prezada vida.

Antonio Maceo, conhecido como o Titã de Bronze tinha reafirmado sua posição a Estrada Palma, em 14 de abril do ano 1896: “o único de que se precisava desse país (EUA) era no sentido do apoio para conseguir armas... o segredo de nosso definitivo triunfo, que só trará com ele a felicidade do país, caso seja atingido sem aquela intervenção... “(2)

A situação estava relacionada com a carta de Maceo a Máximo Gómez, pouco tempo depois, em meados desse ano 1896, já realizada a invasão, somente poucos meses antes de sua morte que, após a de José Martí, foi a segunda grande tragédia da Revolução: “Até agora não tenho recebido nenhum recurso, absolutamente nenhum; estou fazendo a invasão com o que tirei ao inimigo. Os que Zayas trouxe ele me diz que já os empregou. Os que trouxe Collazo, eu dispus que fossem distribuídos entre Havana e Matanzas.” (3)

O quadro se completa, caso relacionarmos uma carta do general Mayía Rodríguez comunicando a Maceo que continuava em Camaquey quando este pensava que Mayía estava perto de Havana, com um segundo contingente invasor. Segundo José Luciano Franco no terceiro volume de sua Biografia de Antonio Maceo, Mayía tinha sido interceptado durante seu avanço por um mensageiro do governo cubano em armas, com ordens de “retornar por razões de alta política”.

Em 1958, os comandantes Camilo Cienfuegos e Ernesto Che Guevara reviveram aquela invasão, desta vez orientada por Fidel com intenção estratégica, retomando a rota bélica dessa epopeia até Santa Clara: Não precisaram chegar até Pinar del Río, pois ali receberam a ordem de continuar até Havana, para completar a grande façanha que animou Maceo.

A imprensa dos Estados Unidos, e particularmente o noviço jornal The New York Journal, de William Randolph Hearst e o já estabelecido New York World,de Joseph Pulitzer, lideraram uma campanha que levou ambos a publicar um milhão de exemplares e que foi como seu batismo de fogo, incitando à guerra contra a Espanha. Aproveitavam como causa a brutalidade da repressão colonial na Ilha. “Você me manda os desenhos que eu porei a guerra!”, exclamou Hearst para rebater desse provocativo modo o telegrama emitido por seu enviado especial em Havana, quando este se lamentava acerca da tranquilidade que existia em Cuba, e que o autorizasse a retornar.

A luta do povo cubano por conseguir sua independência durou realmente mais de dois séculos. Primeiramente contra a Espanha, que não foi capaz de escutar as vozes de Pi e Margal, quando diziam que o único modo de terminar a guerra era aceitar a independência de Cuba, e depois com os Estados Unidos.

Desde 1805, o terceiro presidente, Thomas Jefferson, advertia ao ministro inglês em Washington que, caso houver uma guerra contra a Espanha, os Estados Unidos se apoderariam de Cuba por propósitos estratégicos: “Adicionaríamos Cuba à nossa federação”. (3)

Dessa forma foi desenhada a estratégia de esperar o momento propício para que caísse a “fruta madura”, que o presidente McKinley se encarregou de iniciar, em 1898, para impedir o iminente triunfo das armas cubanas perante o extenuado exército espanhol. Já era tão iminente esse acontecimento, depois de uma guerra em duas etapas, durante 30 anos, que o governo de McKinley enviou um ultimato à Espanha no qual dava um prazo para conceder a autonomia a Cuba: A ideia era poder comprar a Ilha, como expressava Monroe.

Autonomismo: solução desesperada espanhola
A Coroa decidiu nomear o general Ramón Blanco para substituir Valeriano Weyler como governador e se informou aos Estados Unidos acerca da decisão solicitada de conceder a autonomia a Cuba, sob um protetorado. A rainha assinou o decreto, em 24 de novembro do ano 1897, com a esperança de evitar o mal maior, como seria para a Espanha que os cubanos atingissem a independência. Devia ter efeito a partir do 1º de janeiro do ano 1898. Mas ambos sabiam que nem um nem o outro concederiam realmente a autonomia a Cuba, e ainda menos ainda a independência, tal como exigiam os cubanos.

Os sucessores dos próceres da União foram consequentes com as ideias da anexação, mas não se impuseram totalmente. A anexação que defendiam McKinley e seu partido republicano foi refreada pela oposição democrata e dos independentes, os que conseguiram manter a frase “o povo cubano é e de direito deve ser livre e independente”, que serviu para defender o espírito da valiosa Resolução Conjunta do Congresso, embora não a letra da mal chamada Emenda Platt, a qual não foi obra de Platt senão de McKinley e do seu secretário da Defesa e respondeu à sua vontade de ingerência e ocupação; justificou a guerra contra a Espanha à que fez referência Jefferson.

A explosão do encouraçado Maine e a interpretação escandalosa que deu a imprensa dos Estados Unidos facilitaram a intervenção dos EUA. O governo do liberal Sagasta, tanto como o do conservador Cánovas, se negou a reconhecer que a Espanha realmente tinha perdido a guerra nos 30 anos de guerra quase ininterrompida contra o exercito libertador independentista.

O governo espanhol achava que contemporizar com o poderoso inimigo norte-americano era o que mais convinha aos seus interesses. Em vez de escutar as vozes que na própria metrópole exortavam o governo a admitir que a guerra tinha fracassado e reconhecer a independência pela qual lutavam os cubanos, facilitaram os planos do governo dos Estados Unidos ao render-se e menosprezando Cuba e Porto Rico, e como produto extra os EUA foram ao Pacífico para incrementar a riqueza com as Filipinas, Guam e várias ilhas pequenas.

Um subproduto da intervenção tinha sido a anexação do Havaí, onde cinco anos antes os fuzileiros derrocaram a rainha Liliuokalani, para começar a “transição”.

Certamente Cuba não atingiu a independência pela qual perderam a vida um estimado de 300 mil cubanos, deles 10.635 soldados e oficiais do exército libertador. Mais de um século depois ainda está sentindo os efeitos das pretensões dominantes que facilitaram aquele desenlace.

 

NOTAS
(1) Ramiro Guerra. La expansión territorial de los Estados Unidos. Editora Ciencias Sociales 2008, p.313
(2) Herminio Portell Vilá. Historia de Cuba. Volume I, Jesús Montero, Havana, p. 226.
(3) Cuba: Las Máscaras y las Sombras, p. 21


 

por Gabriel Molina Franchossi, no Granma

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