"A ofensiva imperial na Bolívia"

27/02/2016

No marco de uma investida imperial contra os países que têm cometido a "ousadia" de desafiar a dependência e a submissão neocolonial na América Latina, com um processo de integração emancipatória nunca vivido antes em nossa região, Estados Unidos redobrou sua guerra contrainsurgente contra o presidente Evo Morales e sua equipe de governo, intensificando o terrorismo midiático e desenvolvendo ações violentas que deixaram várias vítimas nas últimas horas.

 

Desde que Morales era dirigente sindical esteve na mira da CIA e da DEA estadunidense, como se comprovou quando lhe impediram de ocupar seu lugar no Congresso, como deputado eleito em 1997 com mais de 70% dos votos.

Antes de chegar à presidência também tentaram assassiná-lo em vários momentos e depois como presidente, e tudo está documentado, inclusive no Wikileaks.

No último dia 11 de janeiro, Evo Morales denunciou que "o sonho da Pátria Grande, integração e complementariedade comercial que impulsionavam os governos progressistas, tem sido alvo de agressões políticas, econômicas e inclusive militares por potências hegemônicas neoliberais".

Mas também advertiu sobre a construção política que tornou possível a unidade regional apesar da diversidade, o que tornará difícil o caminho dos depredadores imperiais, que se lançaram a "reconquistar" seu "quintal" como lobos famintos.

A nova situação criada pelo ataque simultâneo dos Estados Unidos contra vários governos latino-americanos, valendo-se de sua poderosa rede de Fundações e Organizações Não Governamentais (ONG), vai encontrando respostas diferentes.

Em todos os casos se adverte que durante estes últimos anos os povos têm acumulado experiências - sem esquecer que foram os artífices das mudanças produzidas, mediante a rebelião antineoliberal que tomou as ruas e avenidas da América Latina, no final dos anos 90 e princípios deste século XXI.

Mas também a mobilização popular em defesa de cada direito recuperado foi a tônica que marcou a fogo nestes anos e se fez evidente na quantidade de golpes - como na Venezuela em 2002 e outros - que os EUA não pôde concretizar.

O que poderia ser um giro "normal" no processo eleitoral, como a vitória do direitista Mauricio Macri na Argentina, que terminou com 12 anos de governo, iniciado em 2003 pelo (já falecido) presidente Néstor Kirchner e continuado por sua esposa, Cristina Fernández de Kirchner em 2007, reeleita com um percentual de mais de 54% em 2011, não o é quando a ingerência da potência hegemônica do mundo incide sobre a vontade popular em combinação perfeita com os grandes meios de desinformação.

Na Venezuela, no dia 6 de dezembro de 2015, a oposição coesa, sustentada e financiada pelos Estados Unidos ganhou as eleições legislativas após perder em 16 consultas eleitorais (em 17 anos) nas mãos do falecido presidente Hugo Chávez Frias (1999-2013) e de seus seguidores e continuadores.

Desde o fracasso do golpe contra Chávez em 2002, Estados Unidos tentou uma série de ações golpistas recrudescidas em violência e guerra suja, com desabastecimento incluído, atentados, sabotagens, assassinatos pelas mãos de paramilitares colombianos, nos três últimos anos.

No marco dessa guerra que afetou parte das grandes conquistas alcançadas pela Venezuela e reconhecidas no mundo é que se deu esta derrota legislativa, que tenta mirar um golpe "congressional" ao presidente Nicolás Maduro.

O fato é que precisamos distinguir entre uma luta eleitoral contra uma direita local, como ocorrida em outros tempos, e a que ocorre hoje: um confronto direto entre os projetos de Washington e nossos governos. Em cada eleição na América Latina o opositor real é os Estados Unidos e seu projeto de recolonização.

Isto não pode ser ignorado, não é nem sequer contra a "oligarquia local" de outros tempos que se está lutando hoje.

O que se enfrenta é a direita mais medíocre, atrasada, grosseira, e imoral que existe, já que todo seu arcabouço está criado a partir do exterior, as coalizões são preparadas pelos EUA e financiadas e manipuladas até extremos inconcebíveis.

Isto é evidente observando o governo de Mauricio Macri na Argentina, que tem colocado em cada ministério funcionários que pertencem a Fundações norte-americanas e logicamente a empresas e bancos do poder.

Nestas condições, os "presidentes" aparecem como uma carranca de proa, com a missão de cumprir os mandatos externos, como é evidente na Argentina. O próprio Macri é da Fundação Pensar, ligada com seus similares nos ninhos da direita internacional. Sua dependência de Fundações como a National Endowment Foundation (NED), a USAID, (Agência Internacional para o Desenvolvimento), os Institutos Republicano e Democrata internacionais, Heritage e outras é aberta e definida.

Os milhões de dólares investidos pelos Estados Unido nestes últimos tempos para interferir nos processos eleitorais atuam com efeito "dissuasivo" sobre uma população, que por sua vez está sendo bombardeada diariamente por entretenimentos vulgares, mas temivelmente efetivos em um processo de desconscientização coletiva, de "recolonização cultural" que permite avançar nas ações ingerencistas e devastadoras, que nos aplicam.

Nossas eleições atuais são decididas em uma mesa nos escritórios do Pentágono e da CIA. Não precisam de candidatos presidenciais inteligentes, com ideias próprias, mas presidentes de "palha", gerentes coloniais.

Não nos equivoquemos de adversário no eleitoral. As eleições atuais já estão no mapa da "Guerra de Baixa Intensidade". Há dois séculos sob o controle de Washington sucedem-se governos sob sua órbita em uma suposta fórmula de "acabada" democracia.

Quando algum presidente desafiou, inclusive minimamente, esse poder foi arrancado do meio, mediante os conhecidos golpes ou intervenções militares. Assim foi escrita a história da dependência. Mas neste século conseguiu-se avançar no maior projeto de unidade continental, incluindo Cuba, o farol da América.

O império, por sua vez, para não "ter tantas surpresas" planejou e executou a invasão das famosas Fundações, que lhes permitiu se introduzir em cada lar latino-americano, em um plano pré-determinado, que o ministro de Adolf Hitler, o indescritível Joseph Goebbels, nem sequer imaginou no esplendor do nazismo nos anos 40.

Essa é nossa realidade. Washington não pode permitir que este projeto emancipatório do século XXI se consolide, porque é o maior desafio que lhe tem se apresentado.

Durante os últimos 200 anos nos confinaram às "democracias" fictícias e falsas, democracias da dependência nas quais se sucediam presidentes, no marco de um "bipartidarismo" necessário para seus objetivos. Agora governos e povos desafiantes tentam resgatar o abusado termo "democracia" para transformá-lo em realidade, o que significa uma enorme transformação política, social, econômica e cultural, libertadora. Diante disto, Washington decidiu tomar em suas mãos a revanche, para demolir as resistências possíveis.

Disso se trata. De aplicar a fundo os esquemas de contrainsurgência que vão acumulando experiências desde os anos 60. Dialeticamente vão modificando e modernizando, se é que pode ser modernizado o terrorismo que nos é aplicado em diversas formas.

SOMBRAS SOBRE A BOLÍVIA
Estamos vendo agora na Bolívia, e não se trata de um fim de ciclo, como se apressam a registrar certos intelectuais. Estamos diante de outro plano de dominação neocolonial e até colonial mesmo.

Não é uma restauração conservadora nem neoliberal. É duramente colonial. Isto é, nós somos os que devem surpreender o inimigo, nos antecipando ou pelo menos tentando não dar respostas tardias.

Estamos vendo mais do mesmo, mas com outros formatos e no marco de uma ação simultânea que impede a solidariedade do resto de nossos países sob ataque sustentado e demolidor.

O fato do presidente Evo Morales ter chegado ao governo em 2005 foi uma revolução na América Latina. O primeiro presidente indígena, o homem surgido de um mundo soterrado, ocultado durante 500 anos e mais. Até esse momento na Bolívia existiu um apartheid que ninguém queria ver.

Por isto que o fato de um representante direto desse povo ter chegado ao governo foi revolucionário, uma sublevação cultural que rompeu esquemas. Morales chegou em marés de braços daqueles homens e mulheres que surgiram das cinzas dos fogos coloniais, após protagonizar e ganhar duas memoráveis guerras populares deste século: pela água e pelo gás. Na verdade, pela vida.

Os avanços magistrais obtidos por esse governo desde 2005 até agora são uns dos mais acabados modelos do 'SI SE PUEDE', mas - e sabe muito bem o inimigo - tudo isto deve ser consolidado, e necessita-se de tempo.

Os que governaram estes países durante tantos anos sabem que esta consolidação é na realidade a única possibilidade de libertação definitiva de nossos povos.

Se estamos renascendo de mais de 700 anos de dominação e controle, isso sim, sempre com resistências que em todos os casos têm sido heroicas, precisamos de mais tempo para recuperar o destruído em séculos.

Sabem que o tempo gasto nestes criativos e imaginativos processos, que como todo o novo e desconhecido está submetido a altos e baixos, a erros na marcha, joga na contramão de seus projetos de expansão e recolonização.

É por isso que agora se desmascaram ou põem rostos de marionetes políticas que estão destinadas a se converter em desbotados gerentes coloniais. Precisam deter estes processos, e para cada país, de acordo com suas características e seus relatórios da "inteligência" traçam um plano específico.

Neste caso, entre outros, o "Plano Estratégico para a Bolívia" com seus 23 artigos, em cuja frente estão os "conhecidos de sempre", os eternos contrarrevolucionários de origem cubana Carlos Alberto Montaner e Alberto Valladares, entre outros. Bolívia já sabe destas presenças. A cara boliviana do plano atual é a de Carlos Sánchez Berzaín, acusado de assassinato quando estava no governo do presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, que provocou um massacre em outubro de 2003. Pouco tempo depois sairia fugido da casa governamental ante a fúria de um povo que tinha dito basta, com uma vanguarda indígena desta vez.

O documento revelado pela agência Prensa Latina sustenta que de acordo com os argumentos deste plano "a democracia em nossa América Latina (assim dizem) está em perigo (...) sequestrada por governos populistas, antissistema e caudilhos que proíbem, violam e chocam o pensamento liberal".

O primeiro ato a ser desenvolvido pelos velhos golpistas recrutados novamente, como Samuel Doria, Rubén Costas, Manfred Reyes, Fernando Tuto Quiroga, que aparece sempre nas reuniões da nata da direita internacional: é intervir com a contribuição de milhões de dólares, dividindo a população, comprando líderes populares, infiltrando-se em diversos espaços e no processo eleitoral do referendo convocado pelo presidente Evo Morales neste domingo, 21 de fevereiro.

Ocorreram ações violentas mas o trabalho maior foi a impiedosa guerra de mentiras contra o chefe de Estado boliviano, o vice-presidente Alvaro García Linera e outros funcionários.

Denúncias similares às que fazem em todos os países da América Latina, em um esquema de terrorismo midiático, repetido até a exaustão, já que controlam 95% da informação que circula pelo mundo.

O referendo boliviano é uma consulta que Morales faz ao povo, quando avançam novas medidas que colocarão a Bolívia em um caminho irreversível. Uma consulta não é um "fim de ciclo", é uma forma democrática verdadeira de participação popular, realizada por um presidente que no último processo eleitoral foi reeleito com mais de 60% dos votos.

A ingerência externa é uma fraude contra a vontade popular e uma forma solapada de guerra contrainsurgente que ameaça se estender em sua tentativa de voltar a controlar o velho quintal. O que ocorre é que os que o habitam começaram o irreversível caminho da independência, da democracia, que em sua verdadeira dimensão não existe sem a libertação definitiva.

 

 

por Stella Calloni, jornalista argentina colaboradora da Prensa Latina

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