"Os dalit, os rostos sem nome da Índia"

22/02/2016

 

O suicídio do estudante Rohith Vemula mostrou a invisível, porém onipresente discriminação social que perdura na Índia moderna, pese aos esforços de sucessivos governos para acabar com o opressivo sistema de castas indiano e o passado colonial.


Já não estarei perto quando leiam esta carta, assim começa a mensagem que Vemula escreveu pouco antes de tirar sua vida em 17 de janeiro depois do calvário vivido após sua expulsão no ano passado da Universidade de Hyderabad (UoH), que lhe impediu continuar com seu doutorado.

Seu delito: era um dos mais de 200 milhões de dalits que vivem na Índia, marginalizados em uma sociedade majoritariamente indiana, ainda que as leis e a Constituição o proíbem expressamente.

Os "intocáveis" integram a base da pirâmide do rígido sistema de castas indianos e, portanto, são empregados nos trabalhos mais difíceis, perigosos e mal remunerados.

Essa religião divide a sociedade em quatro varnas ou castas em ordem descendente: Os brâmanes (sacerdotes), chátrias (políticos, guerreiros), vaishias (comerciantes, agricultores) e sudras (servos).

Vexados, explorados e marginalizados ainda no ventre de suas mães (pois se herda a casta), os dalits nem sequer são considerados merecedores a fazer parte dessa escala.

O jovem de 26 anos integrou um grupo de cinco estudantes dalits expulsos da UoH depois de serem acusados de agredir um dirigente do Akhil Bharatiya Vidyarthi Parishad, ala estudantil do movimento ultranacionalista indiano de direita Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS).

Ainda que uma investigação interna não conseguiu provar de maneira conclusiva que nenhum deles tinha participado na briga, a medida não foi revogada.

Aliás, o ministro de Trabalho e Emprego, Bandaru Dattatreya, escreveu para a titular de Desenvolvimento de Recursos Humanos, Smriti Irani, pedindo uma ação drástica contra os elementos "extremistas" e "antinacionais" da universidade.

Depois dessa carta ter sido divulgada, a oposição, liderada pelo partido do Congresso, abriu fogo e exigiu a renúncia de ambos, mas o governamental Bharatiya Janata Party, uma formação nacionalista indiana de direita e vinculada à RSS, negou qualquer envolvimento no caso.

Os protestos, que começaram na cidade de Hyderabad, estenderam-se para Nova Deli, Mumbai, Pune e Chennai, entre outras, lideradas por diversas organizações juvenis.

No lugar de igualitarismo, a direita indiana acredita na exclusão, baseada na casta, religião e gênero, escreveu no jornal The Hindu, Ananya Vajpeyi, autora do livro Righteous Republic: The Political Foundations of Modern India.

"Não foi um suicídio, foi um assassinato. Um assassinato à democracia, à justiça social e à equidade", afirmou no Twitter, por sua vez, o chefe do governo desta capital, Arvind Kejriwal, um férreo crítico do primeiro-ministro Narendra Modi.

Em uma tentativa de acalmar a onda de condenação, a universidade revogou a expulsão dos quatro colegas de Vemula e prometeu uma indenização à família do jovem, já recusada pela sua mãe.

Precisamente, junto a ambos os ministros, a direção desse centro de educação é apontada por diversos setores sociais e políticos indianos devido a medida contra os cinco estudantes, que levou Vemula a tomar essa drástica decisão.

Em outra carta anterior dirigida ao Reitor da Universidade de Hyderabad, Vemula escreveu: "Faça um favor, sirva 10 mg de ácido de sódio a todos os estudantes dalit durante o processo de admissão. Proporcionar-lhes uma boa corda em seus quartos (...) Solicito a sua alteza realizar os preparativos para facilitar a eutanásia para estudantes como eu".

Os suicídios na educação superior são comuns em Hyderabad. Cinco "intocáveis" tiraram suas vida entre 2005 e 2015 na UoH. Outras duas mulheres fizeram o mesmo na Universidade de Osmania, em 2007 e 2011, e dois anos depois dois jovens muçulmanos na Universidade de Inglês e Línguas Estrangeiras (EFLU) se enforcaram.

Em menos de uma década, ao menos 23 estudantes dalits se suicidaram nas instituições de educação de primeiro nível nacional como a AIIMS e o IIT.

Tenho tido que lutar contra o sistema ao longo da minha carreira. Nos colégios e universidades, no momento de sermos admitidos somos identificados com base na nossa casta. Desde o primeiro dia estamos marcados e nossa identidade é filtrada em todos os níveis, disse Babu Rao, agora chefe do Departamento de Medicina de Osmania.

Antes a discriminação era mais evidente, hoje não tanto, comentou Rao ao jornal The Indian Express, ao destacar que agora os alunos dalits normalmente recebem notas mais baixas que o resto quando seus professores são de castas superiores.

Após lutar através do sistema, se por alguma casualidade você consegue sobreviver e chega a um cargo mais alto, como aconteceu comigo, ninguém te escuta, explicou.

Há 10 ou 12 anos a discriminação era muito aberta, agora é invisível mas onipresente. Por exemplo, na EFLU os mestres e professores dalits enfrentam uma ameaça não escrita de serem transferidos se saem da linha, concordou o professor K. Satyanarayana.

Qualquer um que questione a discriminação é boicotado pelo professorado, os estudantes não recebem a atenção adequada do orientador ou supervisor. Às vezes lhes dão notas baixa nas provas, comenta.

Para o advogado e pesquisador Rakesh Kumar Sinha, a causa fundamental da alienação de um estudante dessa comunidade está motivada pelo pressuposto, sempre repetido, de que sua presença nas universidades é uma concessão outorgada pelas castas superiores.

Depreciados e marginalizados, os dalits ainda lutam para enterrar a exploração a qual se viram submetidos desde tempos imemoráveis em nome da religião.



por Roberto Castellanos, correspondente chefe da Prensa Latina na Índia

 

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