"Coreia do Norte: O Iraque de Obama"

16/02/2016

 

O governo norte-americano não parece estar medindo esforços para combater a terrível ameaça da vez na península coreana: o teste de um satélite de observação da terra que, de acordo com a Casa Branca, encobria um míssil balístico de longa distância.

O teste, conclamado na imprensa norte-coreana como um “grande feito científico” (nunca mencionado como uma proeza militar) motivou o envio de um submarino nuclear norte-americano à Coreia do Sul, a aprovação de sanções no Congresso dos EUA contra a Coreia do Norte e levou à suspensão, por parte do governo sul-coreano, da produção na parte norte do complexo industrial de Kaesong – onde empresas sul-coreanas empregavam cerca de 50 mil norte-coreanos.

Como se não bastasse, os EUA instalaram um sistema antimíssil na península e tem realizado, em conjunto com as forças da Coreia do Sul, exercícios navais.

A imprensa, de mão dadas com governos de todo mundo, engole tudo sem pestanejar. Afinal, Washington é lar de um governo sério, respeitado, que nunca mentiria em relação a algo tão preocupante. Pyongyang, por sua vez, é lar de um governo mentecapto, doentio e cruel, que com certeza disfarçou o lançamento de seu míssil, apesar de, há poucas semanas, ter assumido abertamente o teste de uma bomba nuclear.

Foi mais ou menos com essa posição que em 2003 o governo americano invadiu o Iraque, sob a falsa acusação de que Saddam possuía armas de destruição em massa (ironicamente, passando por cima da decisão do Conselho de Segurança da ONU), sem que a mídia ousasse pôr uma pedra no caminho de Bush.

Mas não é necessário voltar a 2003, nem olhar para o Oriente Médio, para fazer valer o exemplo. No ano passado, sanções foram impostas contra a Coreia do Norte porque o governo americano e o FBI chegaram à conclusão de que o país havia hackeado a produtora Sony Pictures, para impedir o lançamento do filme “A Entrevista.”

Diversos especialistas, como Dan Tentler, consultor de segurança e diretor da AtensLab, Marc Rogers, organizador da maior conferência hacker do mundo (DEFCON) e pesquisador da CloudFlare, e Jack Goldsmith, professor de Direito em Harvard e especialista em Segurança, rejeitaram as provas apresentadas pelo FBI. É evidente que isso não foi posto nas manchetes dos grandes jornais.

A empreitada quixotesca do governo americano foi revestida de fina ironia quando, alguns meses depois, os e-mails da Sony foram expostos no Wikileaks. Dentre eles estava uma mensagem de Richard Stengel, oficial do Departamento de Estado, no qual pede a ajuda do CEO da Sony, Michael Lynton, para criar peças de contra-propaganda em relação à Rússia e o Estado Islâmico:

“Como você pode ver, nós temos muitos desafios no que se refere a contrariar as narrativas do EI no Oriente Médio e as narrativas russas na Europa central e oriental […] E não é algo que o Departamento de Estado possa fazer por si só, de maneira nenhuma.

Seguindo com a nossa conversa, eu adoraria reunir um grupo de executivos da mídia que possam nos ajudar a pensar em melhores formas de responder a ambos os imensos desafios. Trata-se de uma conversa sobre ideias, sobre conteúdo e produção, sobre possibilidades comerciais. Eu lhe prometo que será interessante, divertido, e recompensador”, escreveu o oficial Stengel ao CEO da empresa em 15 de Outubro de 2014.

É claro, essa informação também não foi disponibilizada ao público – aliás, seria inacessível, não fosse o site de Assange, em exílio até hoje na Embaixada do Equador em Londres por expor fatos sórdidos.

Assim, distraídos pela imprensa, aceitamos a versão oficial como verdade incontestável. Como com o Iraque, quando a verdade for revelada, os efeitos colaterais já serão passado.


por Pedro Marin, foi editor da revista independente Opera

 

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