Sobre os recentes atentados na França

18/11/2015

É importante e deve se prestar condolências ao povo francês após o atentado ocorrido na madrugada de 13 de novembro, assim como condenar o ataque, que parte de grupos que não são uma expressão real do nacionalismo árabe e inclusive usam da mesma medida terrorista para combater estas expressões, como se viu no atentado anti-Hezbollah e anti-xiita em Beirut, no dia anterior. No entanto, é importante tanto compreender as condições que geram esta situação, bem como suas reverberações políticas.


Nos dias que se seguiram o atentado em Paris, todo um cenário reacionário (nacional e mundial) já fora desenhado para o aumento do militarismo, repressão interna e do chauvinismo anti-imigrante. Um dia anterior ao atentado, fora publicado no jornal conservador francês Le Figaro, pesquisa que relatava que 40% dos franceses apoiariam um governo autoritário não-eleito, e 67% apoiaria um governo de tecnocratas não eleitos. O atentado acaba por potencializar o aumento da extrema-direita e o fortalecimento da National Front, dando uma possível vitória eleitoral à Marine Le Pen, tendo em vista uma das características do fascismo ser a de usar de um discurso imediatista para atingir a população. Daí uma das possíveis tendências para o futuro francês é o aumento do racismo anti-imigrante, tendo este já se manifestado com a decisão do governo de Hollande de fechar mesquitas que ele considera “radicais”. Esta tendência deve vir também a se espalhar pela Europa como um todo, tendo seus primeiros passos já dados, com declarações de ministros do governo polonês e húngaro.


A extrema-direita usa do atentado, de forma oportunista, para reproduzir seu discurso xenófobo, alegando que todo imigrante é um potencial terrorista. Esse discurso já cai por terra quando se evidencia que a maior parte dos suspeitos do atentado foram confirmados serem de nacionalidade europeia, principalmente belga e francesa.


O interessante é que logo após os atentados, François Hollande anunciou o estado de sítio na França e planejou a mobilização de 10 mil militares para garantir a segurança do país, fechando fronteiras, entre outras medidas de emergência. No mesmo dia solicitou a prorrogação do estado de sítio por três meses. As eleições regionais também foram adiadas.


Quando em dezembro de 2003, após a crise dos reféns em uma escola de Beslan, que resultou na morte de 330 pessoas, e em meio ao cenário da luta contra os extremistas chechenos, Putin aproveitou a situação para ampliar suas reformas centralizadoras, a “ONG” ligada ao governo americana, Freedom House, rebaixou a Rússia de país “parcialmente-livre” a país “não-livre”. Desde então tem sido comum as referências da grande imprensa ao autoritarismo do governo e Estado russo, mesmo as insinuações de que se trata de uma ditadura a situação vigente no país. Naquele momento os russos nem sequer pensaram em ir tão longe quanto as propostas apresentadas pelo mandatário francês. Apesar disso, a instauração do estado de sítio, não tem motivado qualquer comentário crítico por parte dos jornais e canais de televisão contra o governo da França, nenhuma insinuação de que o que se está a empreender é a instauração de uma ditadura. Nem se questionam os jornalistas da imprensa-empresa se o combate ao terrorismo via estado de exceção e mobilização militar maciça em solo francês não poderia gerar uma nova edição do horror americano que foi a perseguição de suspeitos, durante a guerra ao terror do governo Bush, quando cidadãos americanos de origem árabe e fé muçulmana foram trancafiados em Guantánamo sem um devido processo judicial contra eles.


Deve se enfatizar que esses grupos sectários terroristas wahabitas, são produto de anos de terrorismo colonial e neocolonial do Ocidente contra o mundo árabe, e armando grupos fundamentalistas a fim de derrubar governos para garantir seus interesses no Oriente Médio, junto com a aliança com os regimes da Arábia Saudita e Qatar, financiando a exportação do wahabismo. A França, particularmente tomou papel importante nesta empreitada imperialista. Interviu unilateralmente no Mali e possui mais de 3000 tropas na África Central e tomou parte na coalizão que conduziu quase 6000 ataques aéreos contra a Líbia, e foi a França o primeiro país a conduzir um ataque aéreo contra o exército de Gaddafi. Desde o começo da guerra da Síria, quando os franceses ainda estavam sob o jugo da administração Sarkozy, os serviços de inteligência daquele país têm armado e treinado terroristas. Os jornais Le Canard Enchaine e Miliyet relevaram já em fins de 2011, que agentes do Service Action de la Direction Générale de la Spéciales Extérieure (DGSE) e do Commandement des Opérations Spéciales (COS), treinavam dissidentes do exército sírio em técnicas de guerrilha urbana, em campos situados em Trípoli, sendo assim os responsáveis pela formação do Exército Sírio Livre. “Força de oposição” atuante ao lado de jihadistas na guerra contra o governo sírio. Sob a administração de Hollande a situação não se inverteu. Os franceses atuaram junto à coalizão americana que violou a soberania síria, bombardeando seu território sem autorização, ao mesmo tempo em que, já em fins de 2014, as vésperas dos atentados do Charlie Hebdo, o próprio presidente francês fazia declarações negando que Bashar al-Assad fosse um aliado seguro na luta contra o terrorismo. Logo após os atentados da última sexta-feira a força aérea francesa lança novos bombardeios sobre Raqqa, “capital” do Estado Islâmico no território da Síria, e realiza gestos demagógicos, acenando para um concerto internacional entre França, Rússia e EUA contra o Daesh (EI). Na verdade, porém, nenhuma de suas manobras pode apagar que ele e a camarilha governante de Paris estão entre os responsáveis pelo atual sofrimento do povo gaulês. A grosso modo, a França, ao armar aqueles que futuramente assassinariam seus próprios civis, possui culpa indireta no atentado.


Também é importante lembrar que estes grupos em suas práticas mais desumanas, importam práticas de guerra típicas do colonialismo das nações supostamente “civilizadas”, como a da decapitação. Esta, bastante usada pela própria França, com os soldados franceses usando das cabeças de revoltosos que lutavam pela libertação nacional nas colônias francesas, como “troféus”. Neste sentido, em relação aos métodos do Imperialismo e do DAESH, não há contradição, mas coerência.


Existe uma distinção entre os interesses do povo francês e do Estado francês. Esse último tem se utilizado da tragédia do povo como forma de impor novas medidas de caráter racista e islamofóbico, bem como avançar na estratégia de mudança de regime na Síria. Nesse sentindo se faz necessário para as forças progressistas do mundo, principalmente as que combatem pelo socialismo e se guiam pelos princípios do internacionalismo proletário, defender os direitos das populações imigrantes na França e denunciar e combater o crescimento da extrema-direita no interior daquele país e na Europa como um todo. A atual propagação do terrorismo wahabita não é outra coisa senão o resultado de um século de política imperial, colonialista e neocolonialista no mundo árabe, e é também parte de sua estratégia de agressão. Torna-se impossível, portanto, combater o terrorismo sem travar igualmente o combate contra o imperialismo, pelo direito à soberania e autodeterminação nacional e pela fraternidade socialista entre os povos oprimidos do mundo.



por Ícaro Leal Alves e Gabriel Duccini

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