"As ideias não se matam"

09/10/2017

 

Esta manhã, de maneira modesto, inauguramos esta exposição que tenta delinear a vida e a obra de Che. Ao mesmo tempo, hoje queremos dizer ao mundo inteiro que para nós Che Guevara não está morto. Pois por todo o mundo existem centros onde há homens que luta por mais liberdade, mais dignidade, mais justiça, mais felicidade. Por todo o mundo, os homens lutam contra a opressão, a dominação, o colonialismo, o neocolonialismo e o imperialismo, a exploração de classe.

 

Queridos amigos, unimos nossas vozes a todos os que no mundo recordam que um dia um homem chamado Che Guevara... com toda a fé em seu coração, se alistou na luta junto a outros homens e conseguiu assim criar uma faísca que tanto inquietou as forças de ocupação no mundo. Simplesmente queremos dizer que uma época nova se iniciou em Burkina Faso, que uma realidade nova está em marcha em nosso país. Assim se pode ver o chamado de Che Guevara, o mesmo que queria acender focos de luta por todas as partes do mundo.

 

Che foi assassinado com balas, balas imperialistas, sob o céu da Bolívia. E nós dizemos que para nós, Che não está morto.

 

Uma das belas frases que evocam os revolucionários, os grandes revolucionários cubanos, é a que seu amigo, seu companheiro de luta, seu camarada, seu irmão, o próprio Fidel Castro repetiu. Uma frase que ele ouviu um dia da boca de um homem do povo, um oficial de Batista, quem, apesar de pertencer a esse exército reacionário e repressivo, soube fazer uma aliança com as forças que lutavam pela felicidade do povo cubano. Quando os que haviam tentado o assalto contra o quartel Moncada acabavam de fracassar, e deviam padecer sob as armas do exército de Batista – deviam ser fuzilados – os oficiais simplesmente disse: “Não disparem, as ideias não se matam”.

 

É verdade, as ideias não se matam. As ideias não morrem. Por isso Che Guevara – que era essência de ideias revolucionárias e de entrega pessoal – não está morto por que hoje vieram vocês aqui [de Cuba] e porque nós nos inspiramos em vocês.

 

Che Guevara, argentino segundo seu passaporte, cubano por adoção, pelo sangue e suor que derramou pelo povo cubano. E, sobretudo, cidadão do mundo livre: o mundo livre que junto estamos em vias de construir. Por isso dizemos que Che Guevara é também africano e burquinense.

 

Che Guevara chamava a seu chapéu de “a boina”. Por quase toda a África se conheceu essa boina e essa estrela. De norte a sul, África recorda a Che Guevara.

 

Uma juventude intrépida – uma juventude sedenta de dignidade, sedenta de valor, sedenta também de ideias e dessa vitalidade que Che simbolizava na África – buscou Che para beber nesse manancial, o manancial vivificante que representava no mundo esse capitão revolucionário. E entre os poucos que tiveram a oportunidade, que tiveram a honra de estar próximo de Che, e que estão em vida, alguns estão aqui entre nós hoje.

 

Che é burquinense. É burquinense porque participava em nossa luta. É burquinense por que suas ideias nos inspiram e estão inscritas em nosso Discurso de Orientação política. É burquinense porque sua estrela está fixa em nosso emblema. É burquinense porque uma parte de suas ideias vive em cada um de nós na luta cotidiana que travamos.

 

Che é um homem, porém um homem que soube nos mostrar e educar na ideia de que podíamos nos atrever a ter confiança em nós mesmos, confiança em nossas capacidades. Che está entre nós.

 

Assim que quis dizer: Quem é Che? Para nós, Che é sobretudo toda convicção, convicção revolucionária, a fé revolucionária no que se faz, a convicção de que a vitória é nossa, de que a luta é nosso recurso.

 

Che é também humanismo. O humanismo: essa generosidade que se expressa, essa entrega que fez de Che não somente um combatente argentino, cubano, internacionalista, mas também um homem, com todo o calor humano.

 

Che é também, e sobretudo, a exigência. A exigência de alguém que teve a sorte de nascer em uma família acomodada, porém que soube dizer não a essas tentações, que soube dar as costas ao fácil e que pelo contrário, demonstrou ser um homem que tinha causa comum com o povo, um homem que fez sua causa a miséria dos demais. A exigência de Che: eis aqui algo que deve nos inspirar mais do que tudo.

 

Por que são a convicção, o humanismo e a exigência o que fazem que seja Che. E quem sabe juntar neles essas virtudes, quem sabe juntar essas qualidades, essa convicção, esse humanismo e essa exigência, pode dizer que é como Che: homens entre os homens, porém sobretudo revolucionários entre os revolucionários.

 

Acabamos de ver essas fotografias que registram o melhor que podem uma parte da vida de Che. Apesar da força de sua expressão, essas imagens ficam mudas ante a parte mais determinante do homem, a mesma contra a que o imperialismo apontava. As balas apontavam muito mais o espírito de Che que contra sua imagem. Sua foto está por todo o mundo. Sua foto está na mente de todos e sua silhueta é uma das mais familiares. Então devemos procurar conhecer melhor a Che.

 

Nos aproximemos, pois, de Che. Aproximemos a ele não como faríamos com um deus, nem como faríamos com esta ideia, esta imagem que está acima dos homens, mas façamos com um sentimento de que estamos ante um irmão que nos fala e com quem, da mesma forma, podemos falar. Procuremos que aos revolucionários os inspire o espírito de Che, para que eles sejam também internacionalistas, par que saibam também como construir junto a outros homens a fé: fé na luta pela transformação, contra o imperialismo, contra o capitalismo.

 

Quanto a ti, companheiro Camilo Guevara, certamente não podemos nos permitir dizer que és um filho órfão. Che pertence a todos. Nos pertence como patrimônio de todos os revolucionários. Assim que não pode sentir-se só e abandonado, posto que vai encontrar em cada um de nós – esperamos – aos irmãos, as irmãs, os amigos e os camaradas. Junto a nós és cidadão de Burkina, porque seguimos de forma resoluta as pegadas de Che, o Che de todos nós, o pai de todos nós.

 

Por último, recordemos a Che simplesmente como esse romantismo eterno, essa juventude tão fresca e tão vivificante, e ao mesmo tempo, esta lucidez, esta sabedoria, essa devoção que somente os homens profundos, homens de coração, pode ter. Che era a juventude de 17 anos. Porém Che era igualmente a sabedoria de 77 anos. Esta aliança é a que devemos ter permanentemente. Che era o coração que falava e era também o braço vigoroso que atuava.

 

Camaradas, quero agradecer a nossos amigos, aos companheiros cubanos, o esforço que fizeram para se reunir com nós. Quero agradecer a todos aqueles que cruzaram milhares de quilômetros, que cruzaram os mares para vir até Burkina Faso para recordar a Che.

 

Igualmente quero agradecer a todos aqueles que, por suas contribuições pessoais, procuram que este dia não seja simplesmente uma data no calendário, mas sobretudo que sejam dias, muitos dias do ano, muitos dias através dos anos e dos séculos, para que viva eternamente o espírito de Che.

 

Companheiros, por último quero expressar meu regozijo por que imortalizamos as ideias de Che aqui em Uagadugu com esta rua que batizamos Che Guevara.

 

Porém cada vez em que pensemos em Che, tratemos de ser como ele de fazer com que reviva o homem, o combatente. E, sobretudo, cada vez tenhamos a ideia de atuar como ele, na abnegação, ao rechaçar os bens burgueses que pretendem nos alienar, ao rechaçar também o fácil, porém também na educação e na disciplina rigorosa da ética revolucionária: cada vez que tratemos de atuar assim, vamos servir melhor as ideias de Che, as difundiremos melhor.

 

Pátria ou morte, venceremos!

 

 

Discurso de Thomas Sankara, em 8 de outubro de 1987, em Ouagadougou, em cerimônia em memória do 20º aniversário da morte de Ernesto Che Guevara.

 

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