Romarias camponesas são organizadas em todo o país

07/10/2015

Durante o ano de 2015, dezenas de milhares de camponeses, assalariados agrícolas e povos originários de norte a sul do país, organizados pela Comissão Pastoral da Terra e suas sucursais estaduais, bem como por movimentos de massa do campo, realizaram marchas religiosas pelo interior, as Romarias, com fins simultaneamente reivindicativos, de denúncia, festivos e de celebração da cultura popular nacional e camponesa.


No estado de Alagoas, foi no sertão, município de Delmiro Gouveia, onde se concentrou a 7ª Romaria das Águas e da Terra. Os cerca de dois mil romeiros - entre agricultores, quilombolas e indígenas do povo Pankararú - marcharam da sede de Delmiro Gouveia até as beiras do Canal do Sertão, em Água Branca. Lideranças de movimentos de massa democráticos de outros locais do estado também foram mobilizadas para a ocasião. Durante as quatro horas de marcha até o Canal do Sertão, denúncias foram feitas contra o megaprojeto empreendido pelo Estado brasileiro: Longe de resolver o problema das secas, permanece bem claro para o povo da região que o Canal do Sertão terminará por fortalecer ainda mais o poder dos coroneis locais, bem como de empresas estrangeiras do agribusiness, em detrimento do abastecimento hídrico da população e do desenvolvimento econômico e social do estado. O padre Aparecido, ligado à CPT, declarou durante a marcha que “Enquanto não houver justiça não há paz, e a água que Deus batizou pertence a todos, aos ricos e aos pobres. Temos que lutar para ser feita a justiça”. A Romaria foi realizada da noite do dia 26 de setembro ao amanhecer do dia 27 de stembro.


No Ceará, a 7ª Romaria da Terra e a 1ª Romaria das Águas foram realizadas no dia 2 de agosto, no município de Viçosa. As Romarias reuniram cerca de 15 mil pessoas em marcha, entre camponeses e pescadores, bem como bispos e padres de Dioceses de diversos municípios do estado do Ceará, como Sobral, Fortaleza, Quixadá e Crato. A novidade da 1ª Romaria das Águas realizada no Ceará fez denúncias contra a enorme seca que há quatro anos prejudica a população rural e urbana do estado, bem como a apropriação da água pelos grandes proprietários de terra e pelas empresas transnacionais ligadas à exportação de frutas. Nas Romarias, também foram feitas reivindicações pela realização da reforma agrária no estado.


No Espírito Santo, realizou-se no dia 12 de setembro a Romaria dos Mártires. A Romaria partiu sobre a ponte do Rio Vai-Querer, em Pedro Canário, extremo norte do estado, onde no ano de 1989 foi assassinado Valdício Barbosa, liderança do MST, crime este que permanece impune até os dias de hoje. No final da marcha, que percorreu o caminho feito por Valdício ao fim de sua vida, foi realizada uma missa na igreja que o histórico líder camponês capixaba costumava frequentar em Pedro Canário.


No Rio Grande do Sul, a 38ª Romaria da Terra reuniu cerca de 12 mil pessoas no município de David Canabarro, em 19 de fevereiro, e fez reivindicações em torno de temas como a sucessão familiar rural e políticas públicas para a ajuda econômica e social ao campesinato. A Romaria da Terra possui um caráter histórico importantíssimo para a luta camponesa no estado do Rio Grande do Sul. No ano de 1986, a Romaria da Terra coincidiu com a histórica ocupação da Fazenda Annoni por cerca de 3500 famílias de camponeses arrendatários, e foi um importante marco na reivindicação para a desapropriação da fazenda e conversão da mesma num local de assentamento das famílias camponesas sem terra.


Em Santa Catarina, no dia 13 de setembro, aproximadamente 10 mil camponeses, trabalhadores rurais e pessoas ligadas à Comissão Pastoral da Terra se reuniram em Timbó Grande, norte do estado, para celebrar a Romaria do Centenário do Contestado, importante e histórica revolta do povo brasileiro contra os imperialistas estrangeiros e a classe latifundiária. Pessoas de outros estados também compareceram à Romaria do Contestado. Na ocasião da marcha dos romeiros, foram feitas místicas religiosas e festivas, bem como foram feitas lembranças sobre a luta dos camponeses da região contra a grilagem de terras promovida por uma empresa inglesa que, na época, pretendia construir uma ferrovia para o escoamento da produção agrícola e de matérias primas.


Em Minas Gerais, no último dia 4 de outubro, realizou-se a 18ª Romaria da Terra e das Águas no norte do estado. Cerca de duas mil pessoas tomaram parte na romaria, que se efetuou no seio do território Brejo dos Crioulos e marchou sete quilômetros, sob sol escaldante e sobre estrada de terra, até a comunidade rural Furado Seco, onde os romeiros almoçaram e se celebrou a missa de encerramento da Romaria, presidida pelo arcebispo da arquidiocese de Montes Claros, dom José Alberto.

 

por Alexandre Rosendo

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