"Carlota em Angola"

02/10/2015

 

O nome de Carlota mereceu mais do que ser empenhado como símbolo da missão militar cubana em Angola. Duas vezes e para sempre o exemplo e sacrifício da escrava ficou inscrito na história de Cuba.

 

Na quarta década do século XIX se caracterizou pelas sucessivas rebeliões e repressões a escravos africanos e criollos, sobretudo na grande planície Havana-Matanzas, empório então da oligarquia negreira, dada a riqueza de suas terras com seu peculiar manto freático e em particular, a profusão da indústria açucareira e o desenvolvimento das ferrovias, entre outras vantagens.

 

Infame por sua crueldade generalizada, resultou a repressão, e se recorda, especialmente, a chamada Conspiração da Escada e sua impressionante consequência de torturas, crimes e fuzilamentos ordenados pelo general O’Donnell, entre eles o grande poeta mulato Gabriel de la Concepción Valdés (Plácido) e um grupo de homens, artesãos, que integravam a incipiente burguesia “de cor”, assim como milhares de negros e mulatos livres e escravos.

 

Foi tão largo e sombrio, na verdade, esse processo, que em 1844 ficou marcado em nossos dias com o apelativo nome de “O ano do couro”. Porém, a historiografia tradicional cubana nunca abordou como devia o impetuoso começo da rebeldia escrava nesse espaço físico e nessa etapa histórica, nas vésperas de 44.

 

O silêncio começando pelos 160 anos de rebeldia dos escravos do Cobre, em Santiago de Cuba, e logo a conspiração do Aponte; deixaram de ser isso: um silêncio, ou uma recordação envergonhada, até o triunfo da Revolução. Daqui se resplandece a impressionante rebelião do famoso engenho Triunvirato, em Matanzas, e mais especificamente se faz valer a dimensão heroica de Carlota, a escrava rebelde, assassinada. A rebelião encabeçada por Carlota e um grupo de heroicos escravos chegou a ter, nesse momento, repercussão internacional, o que fez recrudescer ainda mais a repressão das autoridades espanholas em Matanzas. A rebelião foi sitiada e Carlota foi esquartejada. Se consumou um dos crimes mais atrozes para reprimir a luta pela liberdade dos escravos.

 

Este foi o começo.

 

Os tambores “falaram” do engenho Triunvirato nos meses de julho e agosto de 1843. Havia dois africanos em contato: Evaristo e Fermina, do engenho Ácana. Eles decidiram fazer campanha entre os demais escravos para pôr fim a brutalidade daquele sistema. Conseguiram se comunicar, fundamentalmente, com a linguagem dos tambores que interpretavam com eloquência, e no Triunvirato os seguiram. No 5 de novembro de 1843 se rebelaram em resposta aos escravos deste engenho. Carlota e seus capitães, de acordo com o plano já acordado em segredo, se dirigiram do Triunvirato à Ácana para liberar uma escrava rebelde, presa com grilhões nos tornozelos, por seus amos.

 

Ninguém deve imaginar que Carlota andava com cartucheira de balas alocada no peito e calçada com botas. Ia descalça, com seu vestido desgastado. Fermina foi libertada, assim como outros escravos. Os êxitos de Triunvirato e Ácana estimularam aos negros cativos que lutassem por sua liberdade e juntos prosseguiram os ataques surpresas na zona. Libertaram inúmeros escravos em Santa Ana, Guanábana e Sabanilla del Encomendador pertencentes aos engenhos Concepción, San Lorenzo, San Miguel, San Rafael e vários outros cafezais.

 

Porém as poderosas tropas do Governador seguiam a rebelde Carlota, lucumí, Eduardo e seus demais companheiros, até que em um combate, tão desigual como encarniçado, Carlota foi aprisionada viva. Rebelde, zangada, a amarraram a cavalos que dispararam em sentido contrário até desarticular suas extremidades e esquartejar seu corpo. Fermina, presa e tortura, logo foi fuzilada.

 

Segundo se registra nos anais, don Blas Cuesta, administrador e sócio da fazenda San Rafael, apelou com argumento tenazes ao Governador de Matanzas para que não seguissem massacrando negros desamparados. Alguns escravos libertados conseguiram fugir. Chegaram a Cíénaga de Zapata e continuaram lutando no Gran Palenque de las Cuevas del Cabildo.

 

A luta libertadora de Carlota, por seu vigor e valentia, faz parte do patrimônio cubano da rebeldia contra a opressão. Seu nome para a Missão Militar cubana em Angola foi como se os ossos e o sangue de Carlota e seus companheiros de sublevação – que contribuíram para forjar a nação cubana – se tivessem juntado novamente para servir à libertação dos descendentes daqueles africanos.

 

por Marta Rojas Rodríguez, no Granma

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