"Questões candentes: Sison sobre mudanças climáticas, Capitalismo e Revolução"

13/09/2015

José Maria Sison é uma lenda viva. Nascido em 1939 em Cabugao, na Ilha de Luzon nas Filipinas, em uma família rica e bem conectada, sua educação e compaixão levou ele a se tornar um ativista revolucionário já com 20 anos. Hoje, com 76 anos, ele permanece sendo líder do que foi chamado pelo New York Times de “a insurgência comunista mais longa do mundo”.

Em 1969 ele fundou o Partido Comunista das Filipinas (PCF) com 12 delegados, representando apenas algumas dezenas de membros do partido, e permaneceu no processo enfrentando diversos obstáculos; hoje possuí mais de 10.000 membros. E não foi a um preço fácil: seus trabalhos revolucionários lhe renderam nove anos de prisão, incluindo um ano e meio na solitária. Solto em 1986, ele vive em exílio desde então, e continua na lista de terroristas procurados dos Estados Unidos. Enquanto não está mais envolvido nas decisões operacionais, ele continua a ser um consultor-chefe da Frente Nacional Democrática das Filipinas, e um presidente da ILPS. Não apenas um político, Sison também foi professor de literatura inglesa, é um poeta estimado e um vendedor do prêmio do Sudeste Asiático WRITE.

Alguns recentemente alegaram que o PCF acabou se estagnando intelectualmente. No entanto, a liderança ideológica do partido parece ser eficaz, como até mesmo seus detratores admitem. Como relatado anteriormente na Counterpunch, o Novo Exército Popular atua ao todo em 20% da zona rural das Filipinas, em 100 frentes, em 70 províncias, 800 municípios, 9000 bairros pobres e 8000 aldeias. Seria esse Maoismo do século XXI uma explosão do passado, ou é a única promessa de um futuro para um país com a maior disparidade de renda da Ásia, onde um quarto da população vive com menos de US $ 1 por dia? Benedict Anderson escreveu sobre a “vertigem histórica” das Filipinas: como precursora visionária dos movimentos anticoloniais na região, hoje é o lar da indubitavelmente mais forte esquerda do Sudeste Asiático. Aqui aprendemos a partir de Sison como ele traduz vertigem como vitória, à medida que ele responde as questões candentes da política do século 21 e revolução.

 

Como as crises ecológicas, e particularmente a catástrofe de Haiyan, asseguraram a ideologia e prática do trabalho revolucionário rural e urbano nas Filipinas?

JMS: Os revolucionários nas Filipinas que trabalham tanto nas áreas urbanas quanto rurais sempre foram conscientes da relação necessária da natureza e sociedade ou aquela entre o meio ambiente e aqueles que produzem novas coisas para usar ou fazem trocas com os objetos, meios e condições fornecidas pela natureza. A crise ecológica e particularmente a catástrofe de Haiyan serve para  aumentar e aguçar a consciência dos revolucionários sobre a questão ambiental e da necessidade urgente de agir sobre ela.

As empresas capitalistas monopolistas foram responsáveis pelo uso irresponsável de emissões de combustíveis fósseis e de dióxido de carbono nas Filipinas, para um rápido desmatamento– que retirou a blindagem para os furacões, causou erosão no solo, prolongou secas e inundações junto com deslizamentos de terra– e para o rápida expansão da mineração e plantações, que utilizam produtos químicos que envenenam os rios e matam a vida marinha. Devido ao aquecimento global, a superfície do Oceano Pacífico tem aquecido e se tornou o caminho para furacões mais frequentes e mais fortes atingirem as Filipinas.

 

Como um estrategista revolucionário, que conselho você ofereceria à aqueles que estão se dedicando na luta global por justiça climática?

JMS: Eu gostaria de aconselhar todos aqueles dedicados à luta global por justiça climática a se posicionarem se maneira militante como uma causa distinta, e ao mesmo tempo, que busquem solidariedade e cooperação com aqueles que se dedicam à justiça social. Eles enfrentam um inimigo comum dentro do capitalismo monopolista e das potências imperialistas que são as causas da injustiça climática e social.

A luta global por justiça climática está interligada com a luta global dos povos por justiça social. A crise ambiental e a ameaça à própria existência da humanidade estão vindo à tona, em simultâneo com as recorrentes e sempre piores crises econômicas, financeiras e sociais do sistema capitalista mundial. As constantes tentativas do capitalismo monopolista em buscar superlucros e acumular capital através do aumento da composição orgânica do capital–adotando maior tecnologia, desempregando diversos trabalhadores em todo o mundo e usando mão de obra barata e comprando matéria-prima barata dos países subdesenvolvidos– provocou diversos danos nas pessoas e no ambiente.

Os graves abusos e injustiças infligidas pelo capitalismo monopolista e por seus agentes locais estão conduzindo as grandes massas do povo a revoltar-se contra os seus exploradores e opressores e para lutar por uma fundamentalmente novo e melhor mundo. Assim, as forças do anti-imperialismo, democracia e do socialismo estão ressurgindo. Dentro desse contexto, os expoentes da justiça climática devem se unir com os da justiça social. A este respeito, eu convido a eles a participarem da 5ª Assembleia Internacional da ILPS, porque ela visa a luta por justiça tanto climática quanto social.

 

Quais suas perspectivas em relação ao ecossocialismo como uma orientação ideológica emergente na interseção da crise social e ambiental e de luta?(Por exemplo, o Manifesto ecossocialista/Declaração Belem de 2009, The Enemy of Nature, de Joel Kovel, o Plano Patria 2013-2019 do governo Venezuelano)

JMS: O capitalismo monopolista é o saqueador de tanto a força de trabalho da classe operária quanto dos recursos naturais utilizados no processo de produção. É impulsionada pela motivação do lucro para explorar, poluir e destruir o meio ambiente, sem se importar com as consequências letais para a própria existência da humanidade. À medida que a crise social e ambiental se agrava, é necessário que a classe operária e o resto do povo lutem contra o capitalismo monopolista, para estabelecer o poder da classe trabalhadora, para proteger o ambiente e lutar pelo socialismo.

A Liga Internacional de Luta dos Povos, a que presido, estuda as várias perspectivas, como as das publicações que você mencionou, para adotar pontos para o reforço da nossa própria perspectiva. Defendemos a linha e as medidas mais eficazes para parar e reverter o aquecimento global, e nós nos esforçamos para despertar, organizar e mobilizar a classe trabalhadora e os povos para a causa anti-imperialista e socialista contra o capitalismo monopolista, que é claramente o maior responsável pela catástrofe social e ambiental a qual enfrentamos.

 

Qual deveria ser a orientação ideológica do movimento revolucionário em relação à mineração nas Filipinas? Muitos povos indígenas e ambientalistas se opõem juntos à mineração, em prol de um modo de produção ancestral em harmonia com o ecossistema, uma perspectiva que encontrou sua expressão internacionalista esse ano na International People’s Conference on Mining 2015. Outros dentro do movimento revolucionário enxergam mineração não apenas como uma fonte indispensável de rendimentos, mas um pré-requisito para passar pelas “etapas” necessárias para o socialismo (acumulação primitiva, industrialização, formação do proletariado, etc.). Também é uma questão candente para Índia e Equador, onde a cosmovisão indígena confronta o desenvolvimentismo proletário sobre qual rumo o movimento revolucionário deve tomar. Como Arundhati Roy pergunta sobre o futuro da revolução na Índia: “Podemos deixar a bauxita na montanha?”

JMS: A situação corrente das Filipinas sob a hegemonia dos Estados Unidos e outras potências imperialistas e das classes exploradoras locais de grandes compradores e latifundiários, é a de que as empresas de mineração podem ser posse totalmente de empresas monopolistas estrangeiras. Caminhões e caminhões carregados de minérios brutos de tantas partes do país estão sendo estão sendo enviados para fora a um ritmo acelerado para a China, o Japão e outros países para processamento. Algumas empresas de mineração especializada em metais preciosos como ouro, prata, platina e paládio os levam de helicóptero para navios os esperando a beira-mar.

Dentro das atuais circunstâncias, é justo que os povos indígenas e ambientalista se oponham totalmente à mineração irrestrita pelos imperialistas e reacionários locais para seu benefício próprio às custas de grandes danos para todo o povo, economia e meio-ambiente. Mas é errado glorificar o subdesenvolvimento e tolerar o ambiente social da pobreza generalizada, pântanos cheios de malária, desnutrição e doenças em nome de um romântico, comunalismo idílico. O sistema democrático de novo tipo ou socialista, deve garantir a ampla utilização dos recursos naturais, proteção do meio-ambiente, e o consentimento livre e prévio das comunidades indígenas bem como a prestação prévia de benefícios e partilha de benefícios futuros.

Seria muito mais sábia a utilização dos recursos naturais e um nível elevado de proteção ambiental e conservação do patrimônio nacional se os povos filipinos por si só, sob um governo democrático-popular ou socialista, processassem os recursos naturais a partir da fase preliminar para as fases secundárias e terciárias. É simplesmente absurdo reduzir o povo filipino a uma escolha de subdesenvolvimento sob filipinos que apenas mantém seus ricos recursos naturais no solo ou monopolistas capitalistas estrangeiros que removem os minérios brutos insubstituíveis. Socialismo implica em maior desenvolvimento das forças produtivas e relações de produção.

Dentro das atuais condições de domínio dos latifundiários e burguesia compradora nas Filipinas, os monopólios capitalistas estrangeiros a troco de nada ganham enormes áreas de concessão para mineração do governo nacional. E em coalizão com as autoridades do governo corrupto, frequentemente usam de chefes tradicionais das comunidades indígenas para contornar a exigência de consentimento livre e esclarecido e prévio de toda a comunidade, e obter uma série de pequenas licenças de mineração para escapar de regulamentações ambientais formais pelo governo nacional e cobrir grandes áreas de mineração. Mas quando as forças revolucionárias estão em condições de despertar, organizar e mobilizar o povo contra as empresas de mineração, então os povos indígenas, seus compatriotas revolucionários e mesmo os líderes tradicionais se unem contra as mineradoras.

 

Quais suas perspectivas sobre os governos de esquerda da América do Sul? Trata-se simplesmente de afirmar o capitalismo e a democracia burguesa, ou você enxerga um potencial revolucionário genuíno e futuro nos governos da Bolívia, Equador, Venezuela, etc?

JMS: Eu vejo algo de revolucionário nos governos de esquerda da América do Sul. Se trata de afirmar a independência nacional contra as imposições imperialistas e eles levam a cabo as medidas possíveis de justiça social e de bem-estar social. Mas a esquerda no poder coexiste com as classes exploradoras da sociedade e estes também têm representantes no governo que estão em oposição ativa. Nenhuma revolução ainda derrubou as classes exploradoras definitivamente. Esses exploradores criam problemas contra o governo bolivariano da Venezuela, especialmente porque a rentabilidade do petróleo diminuiu. Eles também o fazem contra os outros governos progressistas.

Mas enquanto esses governos de esquerda resistem e lutam pelos interesses de seu povo, eles têm nossa solidariedade e apoio. Não podemos deixá-los na mão, especialmente porque as forças imperialistas estão agora a serem golpeadas por uma nova crise que é pior do que a que começou em 2008. O potencial revolucionário dos trabalhadores e do resto do povo está crescendo e pode se tornar uma força real em um nível sem precedentes. A política neoliberal foi tão extremamente exploradora e tão destrutiva que convulsões sociais e revoluções podem estourar em breve numa escala sem precedentes.

 

Quais suas perspectivas sobre a recente transformação ideológica dos revolucionários curdos (em particular o YPG) de Rojava e outras partes da Turquia, para uma orientação ideológica feminista, ecologista e antinacionalista?

JMS: Mesmo que os curdos revolucionários falem de democracia sem Estado e repudiem o Estado-nação e nacionalismo dentro de seu conceito de confederalismo democrático, eu ainda diria que que eles têm o que equivale a órgãos do poder político em vários níveis. Caso contrário, haveria a anarquia e nenhum nível suficiente de unidade política, governo e comando sobre o efetivo armado, a fim de lutar contra inimigos poderosos. Na verdade, estou esperando que os curdos no Iraque, Síria e Curdistão do Norte componham uma confederação de Estados algum dia. A própria perspectiva disso seria aterrorizante para Erdogan e os reacionários turcos. No que tange feminismo, igualdade de gênero e preocupações com ecologia, são questões que podem ser adotadas como princípios de orientação e fatores ativos em qualquer sistema coerente e efetivo, de governo ou administração.

 

Muitos creditam ao levante zapatista de 1994, e as posteriores reuniões internacionais chamadas por eles, como fator decisivo na virada do jogo no mundo das políticas radicais, desde o repúdio aos partidos tradicionais vanguardistas até afirmarem a subjetividade revolucionária dos povos indígenas. Como o levante zapatista foi recebido e entendido pelo movimento nas Filipinas?

JMS: O movimento revolucionário nas Filipinas saudou o levante zapatista de 1994 e ficou impressionado por alguns anos pela habilidade dos zapatistas em receber tantos visitantes estrangeiros e mesmo de sediar encontros internacionais. Mas posteriormente, também ficamos preocupados com o fato que a liderança dos zapatistas estava garantindo ao governo central mexicano que haviam deixado de ampliar ou incentivar a luta armada além de Chiapas e já estavam recebendo grandes quantidades de financiamento de ONGs do estrangeiro.

Pode ser suficiante para ter uma ampla frente unida para provocar uma revolta popular bem sucedida contra a autoridade local em Chiapas, ou mesmo contra um governo autoritário como o de Somoza, Duvalier, Marcos, Mobutu ou Suharto. Mas ainda não há nenhuma prova de uma revolução socialista bem sucedida sem a liderança de um partido revolucionário do proletariado. A forma de organização política do partido é ainda a melhor maneira de concentrar a vontade revolucionária do proletariado pelo socialismo. E, claro, ainda não há outra classe senão o proletariado que seja mais determinada para conduzir uma revolução socialista contra a burguesia.

 

No campo da arte, cultura e literatura, quais você acredita serem os trabalhos mais importantes e mais inspiradores que nos ajudem a compreender e enfrentar os desafios do século XXI?

JMS: Estou certo que já existem importantes e inspiradores trabalhos no campo da arte, cultura e literatura que nos ajudem a compreender e enfrentar os desafios do século XXI. Estes trabalhos vem sendo criados como uma refexão e em conjunto aos sofrimentos, sacríficios, lutas, sucessos e aspirações do povo, tais como as de Filipinas e Índia que estão se engajando em revoluçãos democráticas de novo tipo, sob uma perspectiva socialista. Tais trabalhos criativos estão esperando serem reconhecidos e apreciados em uma escala global.

Estou mais familiarizado com as obras literárias e artísticas revolucionárias nas Filipinas. Estas são marcadas pelo espírito de servir ao povo. Elas expõem as forças de opressão e exploração e inspiram os trabalhadores, camponeses e o resto do povo a travar a luta revolucionária contra o imperialismo e a reação, e por um mundo novo e fundamentalmente melhor de maior liberdade, democracia, justiça social, desenvolvimento, progresso cultural e solidariedade internacional. Existem vários escritores, aristas e trabalhadores da área de cultura excelentes. Eles estão bem organizados e ingressam nos protestos de massa bem como na guerra popular no campo.

Eles são guiados pela estética marxista e pela fala de Mao no Fórum de Yenan de Literatura e Arte, e seus outros trabalhos sobre trabalho cultural e propaganda. Estudaram os trabalhadorex criados sob a orientação do realismo socialista quando a URSS ainda era socialista, os trabalhos dos escritores da esquerda americana nos anos 30 e os trabalhos revolucionários da China socialista na época da Grande Revolução Cultural Proletária. Ao mesmo tempo, aderem a novos caminhos ao adotar e desenvolver temas e estilos sob as diversas formas artísticas e literárias.

Não é de estranhar que as obras mais importantes e inspiradoras estão sendo feitos em países onde as lutas revolucionárias são mais intensas. A este respeito, estou otimista de que à medida que as crises sociais e ecológicas se agravem, mais povos irão se alçar na luta tanto nos países desenvolvidos quanto subdesenvolvidos. Suas lutas revolucionárias irão gerar o ímpeto para criações literárias e artísticas pelo povo e para o povo sob várias formas e meios- real e digital. Os escritores, artistas e trabalhadores da cultura são um componente importante que tende a crescer, do movimento revolucionário a âmbito global.

 

Entrevista por Quincy Saul, publicado na revista Counterpunh, em 09/09/2015

Tradução de Gabriel Duccini

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