"O Marxismo e a guerra no Donbass"

01/09/2015

O Borotba é frequentemente criticado por apoiar as Repúblicas Populares no Donbass, pelo fato de que nossos camaradas lutam nas milícias e pelo auxílio na construção pacífica de uma nação em torno de Lugansk e Donetsk. Essa crítica se dá não apenas por aqueles ex-esquerdistas que sucumbiram ao fervor nacionalista e apoiaram primeiro o Maidan, e depois a guerra de conquista de Kiev no Donbass. Outros nos criticam do ponto de vista do “pacifismo marxista”, desenvolvendo uma ideia sobre uma “nova conferência de Zimmerwald”.

 

1914 = 2014?

Os “zimmerwaldistas” comparam a guerra no Donbass com a Primeira Guerra Mundial. Traçar paralelos históricos é sempre algo complicado. Esse paralelo é completamente sem sentido. Na Primeira Guerra Mundial de 1914-1918, blocos de países imperialistas de força aproximadamente igual lutaram por mercados, buscas de matérias-primas, e colônias. A vitória do bloco Anglo-francês, em retrospectiva algo previsível, não era tão óbvia para os contemporâneos da guerra, mesmo para marxistas. Por exemplo, Lev Kamenev, líder dos Bolcheviques, previu uma vitória da Alemanha naquela guerra.

 

Em 1914 uma batalha mortal envolveu dois centros de acumulação de capital, dois sistemas de divisão capitalista do trabalho, com seus centros em Londres e Berlim. Esses sistemas alcançaram seus limites de expansão territorial nos anos 1870, um esbarrando nas fronteiras do outro. O último ato dessa expansão foi a rápida partilha do Continente Africano entre as grandes potências.

 

O confronto dessas divisões de trabalho (o alemão, anglo-francês, americano e japonês) foi a causa econômica da Primeira e Segunda Guerra. Após a II Guerra, havia apenas um sistema como esse–encabeçado pelos Estados Unidos. No final dos anos 40, eles incorporaram os sistemas europeu e japonês, e nos anos 70 absorveu as ex-colônias, na década de 1980 a China e países de democracia popular do Leste Europeu, e na década de 1990 a União Soviética.

 

A reação direitista e neoliberal de Reagan-Thatcher deu a esse sistema sua forma acabada e atual. No coração desse sistema reside a Reserva Federal, como a organização que produz a reserva de moeda mundial, o FMI, a OMC e o Banco Mundial.

 

Após 2008, esse sistema entrou num período de crise sistêmica, as causas disso temos examinado em outros locais, e uma queda gradual. Como resultado desse colapso, as elites capitalistas de alguns países começaram a enfrentar as “regras do jogo”, estabelecidas por Washington, porque o sistema existente não era mais tão atrativo quando era antes da crise.

 

Portanto, não temos dois blocos travando um conflito mortal (como em 1914), mas um situação inteiramente nova, sem analogias históricas, onde o sistema se decompõe e começa a cair aos pedaços, e alguns grupos capitalistas(organizados em estados-nação e formações transnacionais) tentam revisar o atual quadro desse sistema, enquanto outros grupos(os “Comitês Regionais” de Washington), ao contrário, se agarram ao status quo e buscam punir aqueles que usurpam os sagrados princípios desse sistema.

 

Os conflitos dentro do sistema estão relacionados a suas contradições internas, e não resultados de uma disputa entre centros individuais de acumulação de capital e seus sistemas de divisão do trabalho, como foi em 1914 e 1939.

 

O Imperialismo Moderno é um sistema mundial

Aqueles que apresentam o conflito ucraniano como uma disputa entre o Imperialismo Russo e o dos Estados Unidos a 1914 possuem habilidades analíticas do nível do propagandista Dmitry Kiselyov, que ameaça transformar a América em "cinzas nucleares". Rússia e os Estados Unidos não são comparáveis em seu poder econômico; eles lutam em diferentes categorias de peso. Mais além, não existe “Imperialismo russo”, e mesmo “Imperialismo americano” no sentido de 1914 também não. Existe um sistema imperialista mundial hierarquicamente organizado tendo os Estados Unidos como a potência central. Existe uma classe capitalista russa, que nessa estrutura não reside nem no primeiro ou mesmo no segundo "andar", que tentou erguer seu "status" nesta hierarquia e agora está assustada com sua própria audácia, após conhecer a resistência de um Ocidente unido.

 

Imagine por um momento que a Rússia é um país imperialista a la 1914, que é, como a Itália com seu “imperialismo de migalhas”. Essa Rússia realmente possuiria interesses relacionados principalmente ao transporte de hidrocarbonetos, e, em muito menor medida em ativos industriais. No entanto, estes não são os interesses para os quais ele iria deliberadamente arriscar a ruína de suas relações com o Ocidente.

 

Na crise ucraniana, a elite capitalista russa não conduziu nenhuma estratégia imperialista determinada, apenas responderam aos desafios de uma situação em rápida evolução. Essa reação foi acanhada, contraditória, inconsistente–o que mostrava para um observador atento, a falta de estratégia.

 

À medida que a situação evoluiu, após o golpe na Ucrânia e o começo da insurgência na Crimeia e no Sudeste, a liderança russa encarou um difícil dilema. Não entrar em cena e não apoiar a população da Crimeia e do Sudeste significaria perder legitimidade aos olhos de sua própria população, em meio a uma degradação da situação econômica carregada com uma crise política, muito mais forte do que em 2011. Intervir significaria romper com o Ocidente, com resultados imprevisíveis. No final, escolheram a opção intermediária–intervir na Crimeia, mas não no Sudeste.

 

Entretanto, quando a insurgência no Donbass se alterou de pacífica para armada, Rússia teve de oferecer auxílio. Foi necessário, porque a supressão militar dos rebeldes com o consentimento tácito da Rússia seria um golpe catastrófico para a imagem das autoridades russas no país. Mas esse apoio foi dado com relutância. Putin apelou publicamente à população para não realizar um referendo sobre a independência de Donetsk e Lugansk, e o fluxo significativo de ajuda militar só começou após o abandono do Slavyansk, quando a capital de Donetsk estava sob a ameaça de cair para o exército ucraniano.

Esse apoio tem despertado insatisfação e resistência entre a maioria da oligarquia russa, que sonha não em restaurar o Império Russo, mas em uma parceria mutuamente benéfica com o Ocidente.

Paralelos históricos: Espanha de 1936, Irlanda em 1916, Rojava de 2015

É possível apoiar as repúblicas se o regime burguês da Rússia está tentando instrumentalizar a revolta e usá-la em seus próprios interesses geopolíticos?

 

Vamos fazer uma analogia histórica. Me parece ser bem mais apropriada que a analogia com a situação da Primeira Guerra Mundial.

 

O ano é 1936. Existe uma Guerra Civil na Espanha. Vamos imaginar que a União Soviética, por um motivo ou outro, não poderia auxiliar a República Espanhola, e a Grã-Bretanha e a França, ao contrário, forneceriam apoio, enviaram suprimentos militares e ajuda humanitária, daria empréstimos e mesmo enviaria experts militares para ajudar o Exército Republicano e sua política. Naturalmente as elites capitalistas da Grã-Bretanha e França buscariam seus próprios objetivos ao mesmo tempo–a retenção de Espanha em seu próprio sistema de investimento e comércio no contexto de um confronto com o bloco emergente alemão.

 

A partir disso, a esquerda teria se recusado a apoiar a luta antifascista dos Republicanos Espanhóis? Claro que não.

 

Outro exemplo: a Revolta da Páscoa dos republicanos irlandeses contra o Império Britânico em 1916. Todos aqueles que se chamam de esquerda saúdam esse capítulo heroico da luta anti-imperialista do povo irlandês.

 

Enquanto isso, uma das principais facções da revolta - a Irmandade Republicana Irlandesa- em 1914, no início da guerra, decidiu revoltar-se e aceitar qualquer ajuda alemã oferecida. Um representante da Irmandade viajou para a Alemanha e obteve a aprovação de tal assistência. Não foi fornecida somente porque o navio alemão carregando o porte de armas foi interceptado no mar por um submarino britânico.

 

Lenin incondicionalmente, apoiou a rebelião irlandesa, apesar do fato que era muito menos “proletária” que a revolta no Donbass. E naqueles tempos, haviam esquerdistas que chamavam a Rebelião Irlandesa de “putsch”, “movimento puramente urbano, pequeno-burguês, que, não obstante a sensação que causou, não tinham muito apoio social”. Lenin os respondeu “Quem quer que chame tal rebelião de ‘putsch’ ou é um reacionário endurecido, ou um doutrinário desesperadoramente incapaz de enxergar uma revolução social como um fenômeno vivo”.(1)

 

Apesar do apoio aparente dos alemães, para não mencionar o fato de que o levante na retaguarda do Império Britânico “explorou” o imperialismo alemão, pessoas realmente de esquerda apoiaram os republicanos irlandeses. Os apoiaram, apesar do fato que os nacionalistas burgueses e pequeno-burgueses lutaram ao lado do socialista James Connolly e seus apoiadores. Claro, Connolly disse que uma declaração de Independência sem a formação de uma república socialista teria sido em vão. Mas a esquerda do Donbass também diz isso.

 

Por que o exemplo irlandês não se aplica ao Donbass, um exemplo da época da I Guerra, que os autointitulados “Zimmerwaldistas” tanto apreciam?

 

Ou pegaremos um exemplo moderno. Não é nenhum segredo que as milícias curdas na Síria lutando contra islamofascistas recebem apoio dos Estados Unidos. A partir disso, deveria a esquerda se recusar a apoiar os curdos de Rojava? Claro que não.

 

Ao longo dos anos, a resistência palestina à ocupação israelense também contou com o apoio da burguesia de regimes não democráticos do Oriente Médio e a proporção de elementos avançados e progressistas na liderança palestina era geralmente muito menos benéfico para as forças progressistas do que no Donbass. No entanto, a esquerda sempre apoiou o movimento de libertação da Palestina.

 

Mas no Donbass, algumas figuras da esquerda aplicam dois pesos e duas medidas, buscando com afinco, desculpas para condenar as Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, permitindo-lhes tomar uma posição de pacifismo indiferente. Genuínas pessoas de esquerda nunca tomaram tal posição. “A indiferença na luta não é, portanto, a exclusão da luta, abstência ou neutralidade. A indiferença é o apoio tácito dos poderosos, dos opressores”, Lenin escreveu.(2) Permanecer à margem em uma postura individual, autointitulada “zimmerwaldista” é na realidade se posicionar ao lado das autoridades de Kiev, que estão levando a cabo uma operação punitiva contra os rebeldes.

 

Guerra como continuação da política por outros meios

"A guerra é nada mais do que a continuação da política por outros meios", escreveu o teórico militar Carl von Clausewitz. Esta declaração é reconhecida com aprovação pelos clássicos do marxismo.(3)

 

Quais são as políticas conduzidas por Kiev e Donbass? Para justificar uma posição “neutra”, os “zimmerwaldistas” imaginários, tentam provar que suas políticas são as mesmas. "Todos os gatos são pardos" - que é o ápice de sua sabedoria "marxista".

 

A Primeira Guerra Mundial foi realmente uma continuação das mesmas políticas por parte da Inglaterra, França, Alemanha, Áustria-Hungria, Rússia- políticas de saque colonial, a luta por colônias e mercados, luta pela destruição de seus concorrentes imperialistas. A guerra russo-japonesa de 1904 a 1905 foi uma continuação dessas mesmas políticas.

 

No entanto, seria insensato argumentar que poderia haver uma guerra civil onde todas as partes continuam a mesma política. A essência da guerra civil é impor políticas de um sobre o inimigo, para quebrar a força política e suprimir as classes sociais ou camadas que realizam esta política. Vietnã do Norte e do Sul levavam a cabo políticas diferentes, o que resultou em uma guerra civil. Diferentes políticas, também são realizadas, por exemplo, pelo regime de Bashar al-Assad e o Estado islâmico, Al-Qaeda e outros islâmicos na Síria. Diferentes políticas guiaram a República Espanhola e Franco nos anos 1936-1939. Diferentes políticas foram executadas por Muammar Gaddafi e seus adversários na guerra civil na Líbia em 2011.

 

Então, a guerra civil na Ucrânia não é uma continuação de uma mesma política. Quais sao as diferentes políticas de Kiev e Donbass?

 

Políticas de Kiev

As políticas de Kiev na Guerra Civil são uma continuação lógica das políticas do Maidan. Isso possui diversos componentes: “Integração europeia” e subordinação ao Imperialismo. A primeira palavra de ordem do Maidan era a chamada “Integração europeia”, o que economicamente falando significa a entrega de mercados ucranianos para corporações europeias, a transformação da Ucrânia em uma colônia da União Europeia, como uma fonte de matérias-primas e de imigrantes trabalhadores-escravos privados de direitos. Hoje, mais de um ano após a vitória do Maidan, os resultados econômicos já estão sendo sentidos tão profundamente que eles não podem ser ignorados mesmo por aqueles “euro-otimistas” mais inflexíveis.(4)

 

O novo regime em Kiev também por fim abandonou sua soberania e se tornou um Estado-fantoche. A solução do conflito interno dentro do regime interno de Kiev, entre o Oligarca Presidente Petro Poroshenko e o Oligarca Governador Igor Kolomoisky, veio através de um recurso para a Embaixada dos Estados Unidos. A entrega da região de Odessa, militar e logisticamente estratégica para o controle direto de um protegido dos Estados Unidos, o antigo Presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, evidentemente demonstra isso.

 

Neoliberalismo. O governo pós-Maidan sistematicamente executou políticas ditadas pelo FMI. E isso não é “trair” as expectativas do Maidan. Tudo isso era abertamente declarado pela tribuna do Maidan, e as forças políticas que lideraram o movimento em grande parte e consistentemente apoiavam o neoliberalismo. Movimento em direção à privatização total e a destruição sistemática do que restava de Estado de Bem estar Social- é essa a essência das políticas econômicas do regime de Poroshenko-Yatsenkyuk. Leitores de esquerda provavelmente não precisam me explicar a nocividade de tais políticas para a classe trabalhadora e outros setores populares.

 

Nacionalismo e fascismo. Nacionalistas e fascistas declarados conseguiram impor a sua agenda através da Maidan. Nossa organização escreveu no Inverno de 2014: "O sucesso inquestionável dos nacionalistas é devido ao fato de que, por causa de seu elevado nível de atividade, eles conseguiram impor liderança ideológica no movimento do Euromaidan. Isto é atestado pelas palavras de ordem que se tornaram uma espécie de “senha” para as manifestações e ativistas na Praça Maidan. Gritos como “Glória à Ucrânia! Glória aos heróis!”, que junto com o levantar da mão direita com a palma em ordem, se tornou  saudação oficial da Organização dos Nacionalistas Ucranianos em abril de 1941. E “Glória à nação, morte ao inimigo!” E “Ucrânia acima de tudo!” (copiando o infame lema alemão: Deutschland Über Alles”), e “Quem não pula é um Moscovita.” O restante dos partidos de oposição não teve uma linha ideológica clara ou conjunto de gritos de ordem, deixando a oposição neoliberal para adotar os gritos nacionalistas e a agenda nacionalista."(5)

 

Dessa forma, a aliança nazi-neoliberal foi formada. Os neoliberais adotaram o programa político dos fascistas ucranianos, e os nazistas concordaram com a realização da linha neoliberal na economia. Essa aliança "consagrada" por representantes do imperialismo, como Catherine Ashton, Victoria Nuland, e John McCain.

 

Outro fator importante na fascistização da sociedade após o Maidan foi a legalização de grupos paramilitares nazistas e a integração de nazistas dentro das agências de aplicação da lei do Estado.

 

A supressão violenta de opositores políticos, repressão, censura midiática, banimento da ideologia comunista. Não é necessário dar exemplos, sendo isso algo de conhecimento comum.

 

O desprezo pela classe trabalhadora, "racismo de classe." Estabelecido no Maidan, sob a liderança da oligarquia, a ideologia do bloco social de intelligentsia nacionalistas e pequenos proprietários de “classe média” infestaram o ocidental "homem de rua", ucraniano que define claramente o seu inimigo de classe: o "rebanho" no Donbass. Com esse “racismo de classe” contra a maioria operária do Sudeste, os comícios dos oligarcas atraíram amplas camadas sociais em torno de si, levando até mesmo uma pessoa pobre nas ruas de Kiev a apoiar as políticas em defesa dos bilionários Kolomoisky e Poroshenko.

Esses são os principais elementos das políticas do novo regime de Kiev. É essa a política de classe do capital imperialista transnacional e da oligarquia capitalista ucraniana, que tenta escapar da crise sob os custos da classe trabalhadora. Essa política se baseia no uso da pequena-burguesia, a chamada “classe média”, como sua tropa de choque. Nos anos 30, esse projeto de ditadura política nos interesses das grandes empresas foi chamado o fascismo.

 

Políticas do Donbass

Uma vez que a condição de Estado dos territórios libertados pelos rebeldes das regiões Donetsk e Lugansk está apenas a ser estabelecida, é provavelmente muito cedo para tirar conclusões definitivas sobre as políticas das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk. No entanto, podemos destacar algumas tendências.

 

Antifascismo. Os rebeldes de todas as tendências políticas definitivamente caracterizam o regime estabelecido em Kiev depois de Maidan como fascista. Muitas vezes sem uma compreensão científica clara do fascismo, eles ainda rejeitam as seguintes características do regime Kiev: nacionalismo extremado, política linguística chauvinista, anticomunismo e antiSsovietismo, repressão de oponentes políticos, exoneração de criminosos de guerra nazistas e colaboradores.

 

Anti-oligarquismo. O papel da oligarquia ucraniana, como financiador e beneficiário principal do Maidan e do golpe nacionalista de direita, se tornou um elemento essencial da conscientização do movimento de resistência do Sudeste. E também, durante o Inverno e Primavera de 2014, a completa dependência e subordinação da Oligarquia ucraniana ao Imperialismo, centrado nos Estados Unidos, se tornou aparente. Um bom exemplo é o comportamento do “mestre do Donbass”, e um dos principais financiadores do Partido das Regiões, Rinat Akhmetov. Esse oligarca “amigável” de Donetsk, após uma conversa com a representante do Departamento de Estado dos Estados Unidos, Victoria Nuland, abertamente apoiou o Maidan, fazendo uma declaração especial em nome do SCM Corporation. Em seguida, seus compatriotas poderiam ver Rinat Akhmetov no empossamento do "Presidente do Maidan" Petro Poroshenko.

 

A este respeito, pode se argumentar: para os rebeldes do Donbass e as massas envolvidas no movimento de resistência no Sudeste, gritos de ordem anti-oligárquicos não são mero "populismo". Essas massas, a partir de sua própria experiência política, compreendeem o papel do ápice da classe dominante - a oligarquia política ucraniana.

 

Isto diferencia o movimento de massas progressista do Sudeste, do movimento de massas reacionário do Maidan. Alguns lemas moderadamente anti-oligárquicos também foram ouvidos no Maidan, mas eles não foram além dos limites inerentes a demagogia social, de extrema-direita e do populismo - a prova direta disso é a eleição pelas massas pró-Maidan do oligarca Poroshenko à presidência, bem como a aprovação da nomeação de oligarcas, como Igor Kolomoisky e Sergei Taruta para postos-chave.

 

Antineoliberalismo. Um fator importante da vida interna das repúblicas do Donbass é  a tendência para modelos sociais-democratas, keynesianas de desenvolvimento econômico, o capitalismo de Estado socialmente orientado. Embora esta seja apenas uma tendência, ainda que um dos mais importantes, é o oposto da política econômica das autoridades de Kiev. Tentativas graduais de nacionalizar ativos estratégicos (como redes varejistas, minas, etc.) são atendidas com deleite pela população. Alexander Borodai, que se diferenciou disso, afirmando que "não vamos realizar nacionalizações, porque não somos comunistas", deixou a liderança da RPD. Pelo contrário, a liderança das repúblicas não só leva alguns passos para retornar indústria, comércio e infra-estrutura para a propriedade estatal, mas também promove ativamente estas medidas entre a população.

 

Amizade entre os povos, internacionalismo e nacionalismo russo. Todos que estiveram no Donbass notam o caráter internacional da região. Tendências perigosas de nacionalismo russo em resposta ao chauvinismo ucraniano das novas autoridades de Kiev não se desenvolveram de uma forma séria (apesar de que este perigo tenha sido ativamente explorado por adversários de repúblicas das pessoas para fins de propaganda). Pelo contrário, a formalização da língua ucraniana como a segunda língua oficial na região quase inteiramente de língua russa demonstra a intenção de levar a cabo uma política democrática sobre as nacionalidades e línguas. Foi também um sinal importante de que o aniversário do poeta nacional ucraniano Taras Shevchenko foi comemorado oficialmente em Donetsk e Lugansk. Isso mostra que a liderança da república entende a importância de apresentar uma alternativa para a política cultural chauvinista e repressora ao uso do idioma, em Kiev.

 

Mais além, não existe sério possibilidade de outro perigo: clericalização da resistência. Apesar do fato da Igreja Ortodoxa ser mencionada em diversos documentos das Repúblicas Populares, as forças clericais não desempenham um papel decisivo ou significativo na vida social de Donbass. O movimento de resistência é predominantemente secular na natureza, e a influência da religião e da Igreja não excede o que era no período pré-guerra na Ucrânia. Isto distingue as forças de resistência do Maidan, em que a Igreja greco-católica desempenhou um papel significativo (com orações diárias lidas a partir da tribuna oficial do Maidan, hinos de igreja cantados etc.).

 

Esses são os principais elementos da política das Repúblicas Populares do Donbass. Claro, essa política não é socialista. Mas dá espaço para a esquerda e os comunistas, participarem em tal movimento sob sua própria bandeira, com suas próprias ideias e lemas, sem abandonar suas próprias visões e seu programa. O movimento maidanista e o regime pós-Maidan, focado desde o começo em um anticomunismo militante, não fornece tais oportunidades.

 

Tendo considerado em detalhes que tipo de políticas a guerra civil significa para ambos os lados, podemos concluir que esta política não é a mesma do ponto de vista da esquerda, das forças anticapitalistas. O auto-intitulado zimmerwaldistas, afirmando que "ambos os lados são a mesma coisa", mostram que eles são incapazes de realizar uma análise das políticas de Kiev e Donbass, ou (mais provável) são hipócritas.

 

Guerras justas e injustas

A atitude dos marxistas sobre a guerra não pode ser reduzida ao exemplo único da Primeira Guerra Mundial. Marxistas sempre apoiaram guerras dos oprimidos contra os opressores, considerando o recuo para o pacifismo e a indiferença no caso de uma guerra justa como sendo hipocrisia burguesa e apoio escondido aos opressores.

 

Sim, mesmo na Primeira Guerra Mundial, esses socialistas que não se desonraram pela traição, que não mudaram de lado para servir os governos imperialistas, não estavam apenas visando o fim da guerra fratricida, onde operários de um país matavam operários de outro país para os interesses alienígenas da elite capitalista; esses socialistas defendiam transformar a guerra imperialista em guerra civil. Eles disseram que os oprimidos devem virar as armas contra seus próprios opressores, utilizando o armamento em massa do povo como uma ferramenta para a revolução social.

 

“A história conheceu no passado (e muito provavelmente irá conhecer, deverá conhecer, no futuro) guerras(democráticas e revolucionárias), que, enquanto substituem todo o tipo de 'direito', todo o tipo de democracia, pela violência durante a guerra, no entanto, em seu conteúdo social e implicações, serviram à causa da democracia e, consequentemente, o socialismo ", escreveu Lênin.(6) É esse tipo de guerra que temos agora no Donbass.

 

Era essa a posição da esquerda genuína dos Zimmerwaldistas. Os “Zimmerwaldistas” imaginários, de Kiev, chamando pelo desarmamento de ambos os lados do conflito, equalizam os rebeldes, de um lado, e as tropas regulares obrigadas a ir para o front, e batalhões voluntários neonazistas, do outro.

 

A demanda pelo desarmamento das milícias rebeldes é a demanda pela sua rendição, e é pouco provável que os autoproclamados Zimmerwaldistas não compreendam isto.

 

É claro que qualquer guerra significa o sangue e sofrimento das pessoas, mas para parar esta guerra por uma renúncia completa da insurreição significa que o sangue foi derramado em vão. Além disso, significa vingança e repressão pelas forças nacionalistas contra a população do Donbass.

 

 

Notas

(1) Lenin, em seguida, prosseguiu: “Imaginar que uma revolução social é concebível sem as revoltas das pequenas nações nas colônias e na Europa, sem as explosões revolucionárias de um setor da pequena-burguesia com todos seus preconceitos, sem um movimento do proletariado politicamente não-consciente e massas semiproletárias contra a opressão de seus latifundiários, da Igreja, e da Monarquia, contra a opressão nacional, etc.- imaginar isso é condenar a revolução social. Então, um exército se enfileira em um local e diz “Nós apoiamos o socialismo”, e outro, em outro local qualquer, diz “Apoiamos o Imperialismo”, e isso será uma revolução social! Apenas aqueles que têm uma visão tão ridiculamente pedante podem difamar a rebelião irlandesa chamando-a de "putsch". Quem espera uma revolução social “pura” nunca vai viver para vê-la. Tal pessoa fala tanto de revolução sem entender o que é uma revolução. A Revolução Russa de 1905 foi uma revolução democrático-burguesa. Consistiu em em uma série de lutas, onde todas as classes descontentes, grupos e elementos da população participaram. Entre esses, estavam as massas que possuíam os preconceitos mais grosseiros, com os objetivos mais vagos e fantasiosos de luta, havia pequenos grupos que aceitaram dinheiro japonês, havia especuladores e aventureiros; haviam pequenos grupos que aceitaram dinheiro japonês, havia especuladores e aventureiros, etc. Mas objetivamente, o movimento de massas estava desestabilizando o czarismo e pavimentando o caminho para a democracia; por esse motivo os operários com consciência de classe o lideraram. A revolução socialista na Europa não pode ser outra coisa senão uma explosão de uma luta de massas por parte de todos os diversos elementos descontentes e oprimidos. Inevitavelmente, segmentos da pequena-burguesia e dos trabalhadores atrasados irão participar nela—sem tal participação, a luta de massas é impossivel, e sem ela nenhuma revolução é possível— e quase que inevitavelmente eles trarão para o movimento seus preconceitos, suas fantasias reacionárias, suas fraquezas e seus erros. Mas objetivamente, eles irão atacar o capital, e a vanguarda com consciência de classe da revolução, o destacamento avançado do proletariado, expressando essa verdade objetiva de uma luta de massas variada e discordante, heterogênea e exteriormente fragmentada, será capaz de unir e dirigi-la, tomar o poder, expropriar os bancos, e os trustes que todos odeiam(ainda que por diferentes motivos!), e introduzir outras medidas ditatoriais que em sua totalidade equivalerão à derrubada da burguesia e a vitória do socialismo, que, no entanto, de nenhuma maneira, imediatamente se “expurgará” da escória pequeno-burguesa ".

(2) “O Partido Socialista e o Revolucionarismo sem Cunho Partidário” Dezembro de 1905

(3) Por exemplo: ”No que concerne as guerras, a posição básica da dialética… é que a ‘guerra é meramente a continuação da política por outros (violentos) meios.’ São as palavras de Clausewitz… E foi sempre o ponto de vista de Marx e Engels, que viam toda guerra como uma continuação das políticas dos poderes interessados- e das várias classes dentro dele- daquele tempo.” V.I. Lenin, Collected Workers (Russian edition), 5 ed., vol. 26, p. 224

(4)Deve ser lembrado que aqueles esquerdistas, que hoje estão tentando se passar como “Zimmerwaldistas”, apoiaram totalmente a mesma política que hoje é continuada como guerra contra Donbass. Aqui o que os imaginários Liebknechts de Kiev escreveram: “Nós reivindicamos a assinatura do Acordo de Cooperação com a União Europeia e temos confiança que irá aperfeiçoar a democracia, aumentar a transparência no governo, levar ao desenvolvimento de um sistema jurídico justo e limitar a corrupção.” (http://gaslo.info/?p=4541)

Mesmo na época, escrevemos: ”A Euro-histeria varreu o movimento político da esquerda fora do Partido Comunista. ‘Um grupo anarquista publicou um panfleto, que não menciona que os anarquistas europeus se opõem ativamente à UE- apenas os dogmas comuns de ‘auto-organização’. Um pequeno grupo trotskista foi fotografado no meio da multidão do Maidan, cantando ‘Glória à nação! Morte aos inimigos!’ e lançaram uma declaração que poderia estar no site de qualquer ONG liberal: “Demandamos que se assine o Acordo de cooperação com a União Europeia e estamos confiantes que irá contribuir para uma democracia maior...’ e blábláblá.

“Camaradas da esquerda, é hora de lembrar o que é o oportunismo. Não é necessariamente a participação nas eleições (o sistema parlamentar pode ser usado de uma forma revolucionária). Oportunismo é, entre outras coisas, a adaptação da política ao belprazer da multidão, ao status quo, e em última instancia, aos interesses de classes estrangeiras. Esses esquerdistas que removeram de suas declarações, bandeiras contra a UE, comum à toda a esquerda da Europa, estão nesse caminho. Removeram para que a eles fosse permitido ficar nos bastidores do ‘Euromaidan’... o qual, a vitória não apenas não irá ajudar a disseminar os notórios valores europeus, mas ao contrário, irá garantir a colocar no poder esses nacionalistas que nos atacam hoje.

São essas reais políticas de esquerda, ou apenas seguir na onda com o bloco liberal-direitista? Eles realmente podem persuadir alguém da massa do Euromaidan? Não, ao contrário, eles adaptaram sua linha para a histeria à Integração Europeia que varreram as massas pequeno-burguesas em Kiev, onde 20 anos de propaganda de direita sempre faz a multidão ‘democrática’ dançar ao grito ‘democrático’ de ‘quem não pula é Moscovita’. Eles retiram todas as bandeiras contra o Imperialismo da UE, para parecer que eles ‘pertencem’ a uma marcha nacionalista-liberal - embora apenas a esquerda pode transmitir aos ucranianos os argumentos contra a UE, que seus companheiros esquerdistas europeus e sindicalistas compartilham. Eles sucumbiram à disposição de seus amigos não-esquerdistas. E, em seguida, eles vão se sentir envergonhado por suas ações, como era embaraçoso para os partidários do "presidente do povo" Yushchenko alguns anos após o "Maidan" anterior - onde alguns esquerdistas também fizeram campanha, e com o mesmo sucesso. A histeria irá diminuir, mas a memória, camaradas, permanece.”

(5) http://borotba.su/sergei-kirichuk-uchastie-nacionalistov-factor-padeniya-populyarnosti-maidana.html

(6) V.I. Lenin, "Resposta a P. Kievsky (Y. Pyatakov)", agosto-setembro 1916.

 

 

Texto de Viktor Shapinov, publicado no site do Borotba, em 28 de agosto de 2015;

 

Tradução de Gabriel Duccini

 

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