Silvio Rodríguez: "Restam feridas abertas entre Cuba e EUA"

21/08/2015

Escutar John Kerry dizer que já não somos rivais nem inimigos, mas somente vizinhos, é forte. Juro que queria ver assim. Queria que Gandalf, o branco, esgrimasse seu bastão e de um golpe encantado apagasse tantas obscuras datas e ditos, algumas demasiadamente recentes. Porém não há magos no horizonte. Somente a terra herma que meio século de fogo e demônios secou.

Quem construiu o cuidadoso discurso de Kerry sabe que meus filhos somente saberão de Conrado Benítez e de Manuel Ascunce pelas fotografias. Ou de Rolandito Valdivia e suas cuatrobocas em Girón. E eu não digo para esquentar os ânimos ou para ascender algo que já não brilhe com luz própria. Aqueles jovens que não puderam chegar a minha idade, e muitos outros, estão em minha memória. Uma memória que se apagará comigo, com tantas do século anterior, segundo a lei.

Quero deixar escrito que fui um homem de paz; que fui um dos que quiseram que, mais que vizinhos, fossemos amigos. A verdade é que sempre me senti próximo do povo do norte, a seus escritores, a suas canções, a seu cinema, a seus trabalhadores; me indignei com seu sul injusto e celebrei todos seus progressos. Apesar de que, sendo quase uma criança, tive que aprender a manejar as armas para me defender dos seus políticos e dos seus militares.

Em meu país fui um dos inconformados, dos que entenderam o compromisso com sua nação não sempre acatando, senão exercendo o direito a expressar sua opinião. É o que faço, todavia.

Os passos da aproximação entre as nações nos colocam diante de um novo cenário e, ademais, a história não se pode apagar. Temos cicatrizes. Há que se reconhecer isso. Porém, sangramos por algumas feridas abertas que requerem suturas e tratamentos. Tudo que façamos adiante abrirá ou fechará essas lesões. Tudo o que digamos provocará dor ou alívio.

Tratemos de fazer o bem. Tentemos sempre.

No início dos anos 70 rabisquei algumas palavras. Depois voltei a elas, querendo-as aclarar, porém não sei se disse tudo o que...

Deseo    

Deseo sobre todo
una quebrada
donde la tierra
cure espíritus,
un panteón natural
para sembrar los huesos.    

Deseo una quebrada
donde los hijos corran,
como si retozaran
por estrellas.    

Deseo ese lugar
sólo hasta el último momento
en que sea necesario.    

Al segundo siguiente
podría empezar
el primer día del futuro.

 

por Silvio Rodriguez, cantautor cubano.

Publicado no site da teleSUR

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