"Em ocasião do 70º aniversário do terror nuclear em Hiroshima-Nagasaki"

06/08/2015

 

Nós, a ILPS, nos juntamos aos povos do mundo ao relembrar o 70º aniversário do bombardeio a Hiroshima e Nagasaki no Japão no final da II Guerra Mundial. É oportuno tirar lições para se aprender dessa tragédia e aplicá-las para as atuais lutas democráticas e anti-imperialistas dos povos da Ásia, Pacífico e de todas as partes do mundo.

 

Nos dias de 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram duas bombas de fissão nuclear singularmente chamadas de Little Boy e Fat Man levando a força explosiva combinada de 40 mil toneladas de TNT em Hiroshima e Nagasaki, respectivamente, praticamente jogando as duas cidades para fora do mapa. Mesmo hoje, setenta anos depois, ainda se contempla o fato de como duas cidades densamente povoadas, de valor militar apenas naval, puderam ser instantaneamente destruídas com o apertar de um botão.

 

As estimativas de pessoas mortas pelo inferno nuclear variam de 130.000 a 240.000—maior parte sendo de civis, e metade deles mortos imediatamente no dia da própria explosão. O restante sofreu os efeitos torturantes da radiação como doenças, queimaduras, feridas e outras complicações antes de morrer nos meses seguintes em meio ao rescaldo caótico. Os outros 260.000 sobreviventes tiveram de lidar com outros impactos de curto e longo prazo, sociais, econômicos, e de saúde, da devastação nuclear—incluindo altas taxas de câncer e defeitos de nascença.

 

O ataque nuclear ao Japão pode ser visto como o clímax brutal, mas lógico da estratégia de bombardeio norte-americano para o fim da guerra, tanto na Europa e na Ásia. O objetivo estratégico era destruir a indústria de guerra do inimigo e matar ou incapacitar seus colaboradores civis, que eram considerados combatentes. Nos seis meses antes de Hiroshima e Nagasaki, aviões norte-americanos já haviam bombardeado 67 outras cidades japonesas, com o aumento do número de vítimas civis. O bombardeio de Tóquio sozinho, na noite de 9 para 10 março de 1945, matou pelo menos 100.000 pessoas e destruiu 270 mil edifícios e casas.

 

A carnificina civil terrível em Hiroshima, Nagasaki e outras cidades japonesas bombardeadas, na época, foi anulada pelo ódio geral do imperialismo japonês para seus inúmeros crimes em muitos países, que atacou e ocupou de 1937 a 1945, e também pela eufórica, mas falsa, crença de que os ataques nucleares haviam ajudado a acelerar o fim da guerra, com a rendição formal do Japão uma semana depois.

 

No entanto, evidências históricas mostram claramente que o Japão teria se rendido em breve de qualquer forma, mesmo sem o bombardeio e mesmo se nenhuma invasão dos Aliados ao Japão fosse planejada e implementada. Mais tarde isso foi admitido mesmo por diversos civis e militares de alto escalão dos Estados Unidos, incluindo os até então Generais Dwight Eisenhower, Douglas MacArthur, Curtis LeMay e George Marshall, e o Almirante William Leahy. As forças soviéticas haviam lançado um ataque terrestre na Manchúria na mesma semana das explosões nucleares, preparatórias para o impulso final contra o Japão.

 

Os objetivos reais do Imperialismo americano ao lançar um golpe de misericórdia contra um Japão já rendido foram para reivindicar papel exclusivo na vitória da Guerra contra a Ásia-Pacífico, impedir a União Soviética de construir suas manobras hegemônicas na Europa e Ásia no pós-guerra, e, intimidar o resto do mundo (especialmente os movimentos de libertação armados na China, Indochina, e em outros lugares) com o seu mais novo brinquedo.

 

Assim, o Imperialismo norte-americano saiu ileso da guerra, se tornou a maior potência nuclear, comprometeu a União Soviética em uma extensa Guerra Fria, e numa crescente corrida armamentista, e forneceu um guarda-chuva nuclear para seus antigos inimigos Alemanha e Japão. Os Estados Unidos mais tarde entraram num declínio estratégico desde 1975 enquanto a URSS implodiu em 1990, 1991. Ainda, no meio do realinhamento dos poderes globais dos anos 90 em diante, a ameaça de destruição nuclear nas mãos de loucos imperialistas continua a pairar sobre o mundo.

 

O recorde dos Estados Unidos em ser o único país a ter usado armas nucleares em uma guerra permanece inalterado, até agora. Continua a ser uma anomalia monstruosa na escrita da história por partidários do imperialismo norte-americano que os EUA e Truman tenham cometido impunemente o massacre mais desnecessário de centenas de milhares de civis inocentes.

 

Apesar de tratados de desarmamento, ainda há hoje no mundo, 16.000 ogivas nucleares detidas por nove países, com 94 por cento detidos pelos EUA e pela Rússia em igualdade aproximada, e com os EUA gastando mais em seu arsenal nuclear do que todos os outros países juntos. O tipo mais poderoso delas (B83) é capaz de destruir 57 Nagasakis, e até mesmo um tipo tático nuclear (menos de 100 mil toneladas) poderia acabar com uma cidade pequena ou grandes extensões de áreas povoadas.

 

O Japão, apesar dos fantasmas de Hiroshima e Nagasaki, tem hospedado bases dos EUA que levam armas nucleares. Tais bases poderiam servir como plataformas de lançamento para ataques nucleares em adversários dos Estados Unidos, e ao mesmo tempo servir como ímãs para ataques similares de qualquer um desses adversários. Japão, apesar do fantasma de Fukushima, persiste em depender de modos extremamente perigosos de geração de energia nuclear. Ele acumulou estoques suficientes de plutônio e conhecimento técnico suficiente para produzir 5.000 bombas nucleares no prazo de dois anos ou menos.

 

Assim, apesar dos tratamentos de não-proliferação nuclear e o Artigo 9 de sua constituição pacifista, existe uma pressão crescente para que o Japão entre no grupo de países nucleares. Sob o regime do direitista Abe, o militarismo japonês está desfrutando de um ressurgimento sem precedentes. Sua escalada militar atual conta com o apoio do imperialismo dos EUA alinhado com o eixo estratégico deste último a Ásia Oriental. Todos estes fatos mostram que os imperialistas japoneses não aprenderam com a história.

 

Os Estados Unidos também não aprenderam da lição histórica que o Japão já foi o orientador do imperialismo anglo-americana na Ásia na década de 1920, apenas por desejo de seu próprio império e lançar guerras de agressão, primeiro na China em 1937 e ao longo da Ásia-Pacífico em 1941. Agora os Estados Unidos estão novamente em aliança com o Japão para conter a China e perpetuar a hegemonia americana no Leste Asiático.

 

A ILPS condena os Estados Unidos e o Japão por se lançarem na disputa entre a China e as Filipinas sobre a Zona econômica Exclusiva (ZEE) e a extensão da Plataforma Continental no Mar Ocidental filipino (Mar do Sul da China), como pretexto para tentar reestabelecer e até mesmo ampliar as bases militares dos EUA e acesso a outras instalações nas Filipinas. Esse esquema está sendo jogado com a cumplicidade do presidente filipino Benigno Aquino III, neto do já conhecido colaborador pró-Japão Benigno Aquino I, e seu chefe de defesa Voltaire Gazmin.

 

Ao mesmo tempo que a ILPS se opõe que a China reclame o direito de 90% do Mar do Sul da China com a linha de 9 traços, apoiamos a reivindicação chinesa pelas Ilhas Diaoyu (que Japão chama de Senkaku) porque essas ilhas no Mar do Leste da China realmente se localizam dentro da ZEE da China (120 milhas náuticas a nordeste de Taiwan, a 200 milhas náuticas a leste do continente chinês) e foram agarrados pelo Japão por meio de atos de agressão imperialistas no passado. É hipocrisia dos EUA e do Japão fingir proteger as Filipinas e a sua ZEE no Mar das Filipinas Ocidental, mas ao mesmo tempo formam um conluio na tentativa de privar a China da sua ZEE, no Mar da China Oriental.

 

A ILPS manifesta a sua confiança de que, em contraste com os militaristas e o aprofundamento de seu domínio sobre o estado japonês, os japoneses profundamente aprenderam as lições da Segunda Guerra Mundial, especialmente da carnificina de Hiroshima e Nagasaki. Apoiamos suas lutas determinadas contra a guerra imperialista, o militarismo e as bases norte-americanas e armas nucleares em seu território.

 

Nessa ocasião, também reiteramos nosso chamado para o povo da região da Ásia-Pacífico e de outras regiões que resistam a todas as formas de agressão imperialista e intimidação e chantagem nucleares, para intensificar ainda mais as suas lutas pela paz, democracia e soberania nacional, e trabalhar incansavelmente para garantir que Hiroshima e Nagasaki nunca aconteçam novamente.

 

 

por Jose Maria Sison, presidente da Liga Internacional das Lutas dos Povos

 

Tradução de Gabriel Duccini

 

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