Recentes movimentações nas lutas populares no interior do Brasil

01/08/2015

O campo brasileiro segue acirrando as contradições e a luta se espalha por todo o país. Nesta semana alguns acontecimentos importantes deram continuidade à luta contra o latifúndio e a semifeudalidade no interior do país.

 

Bahia: Milhares de lavradores ocupam fazenda no extremo sul do estado

Organizadas pelo MST, aproximadamente 300 famílias de camponeses sem terra ocuparam, na madrugada desta sexta-feira (31), a Fazenda São Benedito, localizada no extremo sul da Bahia. A Fazenda, de mais de 1500 hectares, era uma antiga plantação de café atualmente abandonada e improdutiva. Pertencente à família Ungaro, a Fazenda já foi, segundo lideranças do movimento camponês, denunciada pelo uso de trabalho escravo nas plantações, dívidas excessivas com seus credores e administração fraudulenta. Outra fazenda vizinha à Fazenda São Benedito, também de propriedade dos Ungaro, foi ocupada por 160 famílias de lavradores sem terra no ano de 2014. Atualmente, estas 160 famílias permanecem vivendo e produzindo alimentos para a população urbana, tornando produtivas terras anteriormente abandonadas e voltadas exclusivamente para a especulação fundiária. Neste ano de 2015, somente o MST realizou mais de 40 ocupações de terras latifundiárias no estado da Bahia.

 

Alagoas: Trabalhadores rurais realizam manifestação conjunta na Usina Laginha

Cerca de mil lavradores e assalariados agrícolas realizaram na última sexta feira (31) uma manifestação no município de Branquinha, zona da mata alagoana, em frente às instalações da falida Usina Laginha, do grande latifundiário João Lyra, pela desapropriação das terras da usina com fins de reforma agrária. A manifestação, organizada pelo MLST (Movimento de Libertação dom Sem Terra), contou também com o apoio de lideranças de vários movimentos camponeses que atuam nas regiões rurais alagoanas, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), MTL (Movimento Terra, Trabalho e Liberdade) e Terra Livre.

 

Desempregados por conta do processo brutal de falência das usinas de cana de açúcar e sem quaisquer outras possibilidades de emprego e fonte de renda, milhares de trabalhadores rurais permanecem acampados, como posseiros, nas terras da usina falida, produzindo e abastecendo a economia local - desorganizada por conta das falências das usinas - com alimentos, bem como lutando pela reforma agrária. O Grupo João Lyra, dono da Usina Laginha, que há anos abriu falência, permanece devendo cerca de R$2,1 bilhões em impostos não pagos, direitos trabalhistas e salários atrasados para ex funcionários das usinas.

 

Entre o governo federal e os movimentos de massa do campo, segue em negociação a desapropriação de entre 14 mil e 20 mil hectares para o assentamento de 2 mil das 5 mil famílias camponesas que ocupam, além das terras da Usina Laginha, as terras das usinas Uruba e Guaxuma, também do Grupo João Lyra. Os movimentos de massa reivindicam também, além da desapropriação das terras com fins de reforma agrária, o pagamento das dívidas do Grupo João Lyra, a indenização dos cortadores de cana desempregados e a punição dos responsáveis pela pistolagem e a violência contra os trabalhadores do campo.

 

Espírito Santo: Cortadores de cana deflagram greve após salários e direitos atrasados

Em assembleia realizada no último dia 24 de julho, os operários agrícolas da Usina Disa iniciaram uma greve contra os recentes ataques realizados pela usina contra seus direitos. Os trabalhadores rurais acumulam dois meses de salários atrasados, e apesar dos contratos com as usinas darem a eles o direito de receberem cestas básicas, há sete meses não as recebem. Sem salários e sem comida, as famílias destes assalariados agrícolas permanecem passando por um sem número de dificuldades, e dependendo da ajuda e da solidariedade de comunidades rurais da região. São cerca de 1,2 mil assalariados rurais passando por esta situação. Articulações camponesas como a Via Campesina estão prestando ajuda aos trabalhadores rurais, organizados no SINTRAS-ES (Sindicato dos Trabalhadores Rurais Assalariados do Espírito Santo), para denunciar a situação presente e se defenderem contra os ataques dos usineiros. Apesar da gravidade da situação de seus trabalhadores, a usina entrou com um pedido na justiça para que fosse declarado o caráter ilegal da greve para facilitar a repressão fascista contra os grevistas e manifestantes.

 

A Usina Disa pertence à sociedade anônima Bio Infinity Energy, que controla a produção de açúcar e biocombustíveis no norte do Espírito Santo e é dona de vastas extensões de terras, parte expressiva das quais estão improdutivas. Tendo uma produção voltada principalmente para a exportação e importando quase todos os instrumentos de produção utilizados em sua cadeia produtiva, a presente greve dos operários da Usina Disa será de enorme importância para denunciar o caráter extremamente arcaico e anti-econômico da produção latifundiária agroexportadora, bem como de grande importância para a intensificação da pressão das massas populares pela realização da reforma agrária. Dado que a usina não adquire mercadorias da economia local e permanece como detentora de milhares de hectares de terras, impedindo o avanço do dinamismo econômico, isso faz com que a atual greve, igualmente, receba forte apoio por parte da população rural e urbana do norte capixaba.

 

Rio de Janeiro: Camponeses do interior do estado se rebelam contra construção de barragem

Na manhã desta quinta-feira (30), lavradores das regiões serranas do Rio de Janeiro, no entorno do município de Cachoeiras de Macacú, rebelaram-se contra técnicos do INEA (Instituto Estadual do Meio Ambiente) e da Cohidro (Companhia de Desenvolvimento de Recursos Hídricos e Irrigação) envolvidos no projeto da Barragem Guapiaçú, cuja construção resultaria na inundação de vastas extensões terra ao redor do Rio Guapiaçú - consequentemente, na perda de milhares de hectares de lavouras plantadas e na ruína de milhares de famílias camponesas que habitam e trabalham na região. A perda das lavouras também resultaria num golpe tremendo contra a economia urbana da capital carioca, visto que Cachoeiras de Macacú e as regiões próximas ao município possuem um caráter estratégico no abastecimento das regiões urbanas cariocas com alimentos e demais produtos agrícolas.

 

Diversos movimentos populares como a Comissão Pastoral da Terra e o Movimento dos Atingidos por barragens permanecem envolvidos na luta contra a construção da barragem, bem como na observação da luta que os agricultores locais vêm travando em denunciar a ruína em que permanecerão caso o megaprojeto seja efetuado.

 

por Alexandre Rosendo

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