"China, aumento de salários e militância operária"

25/07/2015

Em termos de poder de compra, os salários dos trabalhadores nos Estados Unidos têm estado estagnados desde os anos 70. É de conhecimento comum que agora se necessita de salários altos na maior parte das famílias trabalhadoras para suprir despesas básicas. Enquanto isso, trabalhadores mal remunerados estão se mobilizando, lutando arduamente por um maior salário mínimo e representatividade sindical.


Os salários em muitos países da Europa também estão congelados. E a crise econômica capitalista mundial que teve início em 2008 devastou as economias de países apanhados pelo estrangulamento da dívida imperialista, desde a Grécia até grande parte da África, Ásia e América Latina.


Mas existe uma luz no túnel para os salários dos trabalhadores— embora você dificilmente saberá se confia na mídia burguesa para se informar. E é a China.

Aumento constante de salários
Ao tudo que nos consta, os salários nas fábricas na China, que obviamente começaram em um nível muito abaixo dos salários em países capitalistas avançados, mais do que triplicaram na última década. Alguns dizem que os salários dos trabalhadores urbanos de colarinho branco aumentaram cinco vezes nesse mesmo espaço de tempo. Não é isso que está acontecendo em outros países em desenvolvimento. Além disso, a inflação na China é baixa— a atual taxa anual é de 1,4%, valorizando o aumento salarial.


Aqui estão algumas fontes ocidentais desse ano:

The Economist em 4 de Março: “Desde 2001, o pagamento pela hora trabalhada nas fabricas aumentou na média de 12 por cento ao ano.” Imagine se os trabalhadores daqui [Estados Unidos] estivessem ganhando aumento de 12% todo ano nos últimos 15 anos! Mesmo com contratos negociados através dos sindicatos, o aumento de salários nos Estados Unidos quase não acompanhou o ritmo da inflação.


Na seção de tecnologia da revista New York Times de 24 de Abril: “Ondas de trabalhadores que migraram do campo tem preenchido as fábricas chinesas pelas últimas três décadas e a ajudaram a tornar a maior nação produtora do mund, Mas muitas empresas agora se encontram na luta para contratar um número suficiente de trabalhadores. E para os poucos trabalhadores que encontram, a remuneração mais do que quintuplicou na última década, para mais de $500 por mês em províncias costeiras.”.


Essas matérias são dirigidas para investidores dos E.U.A., os alertando que se eles querem fazer negócios explorando os trabalhadores na China, irá custar mais do que custava no passado.

Os salários chineses não têm variado de maneira irregular— eles têm aumentado a um ritmo muito constante mesmo quando a força de trabalho aumentou, especialmente com pessoas oriundas do campo. Caminhando junto a isso, tem sido o crescimento planejado de grandes cidades, com novas moradias, transporte, escolas, etc.

Luta de classes segue viva e trilhando seu caminho
Há duas coisas a se considerar nessas mudanças notáveis. Uma é a luta dos trabalhadores chineses por uma vida melhor, e a outra é a resposta do governo chinês, dirigido pelo Partido Comunista. A luta de classes protagonizada por esses trabalhadores contra seus patrões, muitos deles de corporações estrangeiras, segue viva e caminhando na China. Mobilização por parte dos trabalhadores tem crescido tremendamente.


Nada merece mais o rótulo de propaganda do governo dos Estados Unidos do que o Voice of America. E eis aqui o que o VOA teve a dizer recentemente sobre as greves na China:


“"O Boletim do Trabalho da China - que rastreia conflitos - constatou que houve cerca de 1.400 greves em 2014, e o número de protestos aumentou ainda mais nos dois primeiros meses de 2015. ‘Nós registramos greves e protestos de trabalhadores à medida e quando eles acontecem, e ao longo dos últimos meses estamos registrando 200 casos por mês, em média’, explicou Jeffrey Crothall, um pesquisador do escritório de Hong Kong do Boletim do Trabalho da China’. O grupo registrou 569 protestos no quarto trimestre do ano passado— três vezes mais greves que durante a mesma época em 2013. O número também indica um aumento acentuado a partir de 2011, quando havia apenas 185 protestos trabalhistas documentados durante o ano todo… ‘A maior parte dos manifestantes reivindicam maiores salários, salários atrasados e maiores benefícios e pensões’. ‘Em 1995, a China promulgou uma lei trabalhista que garantia a todos os trabalhadores o direito a um salário, períodos de descanso, sem horas extras excessivas e o direito de realizar negociações coletivas. O rápido crescimento econômico nos anos seguintes, tirou milhões de pessoas da pobreza, mas ao passo que a economia fica estagnada, os salários poderiam congelar e o desemprego pode subir, e muitos poderiam começar a culpar o governo.


Autoridades em Pequim, na esperança de pressionar as autoridades locais a resolverem a situação, no mês passado emitiram uma nota para os governos locais fazerem da melhoria das relações de trabalho uma “tarefa urgente”. A diretriz disse que os funcionários vão trabalhar para garantir que os empregados sejam pagos plenamente e sem atrasos, lançar programas para providenciar melhor proteção laboral para trabalhadores oriundos do campo, e chamar os empregadores a reforçar a segurança nos locais de trabalho.” (Voice of America, 9 de Abril).


Colocando sob uma perspectiva, o Departamento de Estatísticas Trabalhistas nos Estados Unidos mantém um registro de grandes greves envolvendo mais de 1.000 trabalhadores. No ano passado houve 11 dessas greves nos Estados Unidos, com um total de apenas 34.000 trabalhadores. Costumava haver centenas de tais grandes greves por ano, chegando a números como 424 em 1974 e envolvendo 1,8 milhão de trabalhadores. Mas os números começaram a diminuir na década de 1980.

Empresário assassinado, Estado ficou do lado dos trabalhadores
O VOA também pontuou: “Embora muitos desses manifestantes que participavam de protestos trabalhistas tenham sido detidos, poucos foram processados criminalmente." Para entender a frase “poucos foram processados criminalmente", aqui um dos exemplos mais radicais: Em 2009, ocorreu um caso envolvendo metalúrgicos na fábrica de Tonghua Iron & Steel Works na Província de Jilin, no norte da China. Após uma reunião coletiva chamada pelo executivo que iria assumir o comando da fábrica, os trabalhadores se rebelaram e o espancaram até a morte.


“Chen Guojun, o empresário que foi espancado até a morte, havia ameaçado 3000 metalúrgicos da Tongshua com demissões, as quais ele afirmou que poderiam acontecer dentro de três dias. Também havia assinalado que cortes maiores seriam prováveis nas dificuldades da fábrica” (New York Times, 26 de Julho de 2009)


O que o Governo Chinês fez em relação a isso? “O Governo provincial de Jilin ordenou que o Jianlong Group of China abandonasse a compra da estatal Tonghua Iron & Steel Group após os protestos contra as perdas de empregos terem matado um diretor, disse a estatal “Beijing News” na Segunda-Feira. A orientação, anunciada através da rede de televisão de Jilin na noite passada também ordenou que o grupo Jianlong, com sede em Pequim, nunca mais tomasse parte em qualquer plano reorganizativo de Tonghua, disse Bloomberg News.” (New York Times, 27 de Julho de 2009).


E foi isto. A privatização havia sido interrompida. Nenhuma prisão, nenhum processo. Não é esse tipo de poder que os trabalhadores deveriam ter em todo o mundo?

Crescimento da classe operária
À época da vitória da Revolução em 1949, a China era um país de 542 milhões de pessoas, empobrecido e devastado pela guerra. A vasta maioria era de camponeses quase morrendo de fome, recentemente libertados dos latifundiários, que os davam tratamento um pouco melhor que o dado a escravos.


Hoje é um país de 1,3 bilhões em rápido desenvolvimento. Mas foi apenas em 2012 que a população urbana da China pela primeira vez excedeu a população rural. Hoje a parcela urbana da população é algo entre 60%.


A classe operária que cresce rapidamente possui diversas reclamações e não é passiva. Os operários são militantes, organizados e reivindicam o que eles sabem ser corretos: uma vida estável com pagamento e condições de trabalho decentes.


Desde a virada à direita dentro da liderança do Partido Comunista da China no final dos anos 1970, liderada por Deng Xiaoping, a China se abriu para a propriedade capitalista. Mas a recente queda das ações da bolsa de lá, que custou a muitos chineses as suas poupanças, mostrou que ilusões acerca de um enriquecimento imediato sob o capitalismo podem vir contra a irracionalidade básica do sistema capitalista.


O resultado do crash, assim como os grandes ganhos produzidos pelos trabalhadores, mostra outra coisa, também. O Estado na China não age da mesma maneira que Estados Capitalistas agem no resto do mundo. Chamar a China de um país capitalista é errado.


Tendo a modernização em vista, o PCCh permitiu que diversos aspectos do capitalismo existissem ali, e os capitalistas fizeram coisas desprezíveis como não pagar operários, submetê-los à longas horas de trabalho e condições perigosas de trabalho, etc. O surgimento de milionários e até bilionários alimentou a corrupção de funcionários do governo e antagonizou os trabalhadores.


Mas juntamente com as empresas de propriedade de capitalistas existe uma infra-estrutura estatal cada vez mais poderosa e moderna, através da qual o planejamento socialista a longo prazo é realizado.


O Governo foi capaz de estabilizar os mercados financeiros no último crash —algo que governos capitalistas não podem fazer sem tirar do suor das massas. Quantos países capitalistas poderiam sobreviver a uma queda no mercado de ações de mais de um terço, sem recorrer a medidas draconianas?


Ainda mais importante, o Estado controla o desenvolvimento planejado do país tanto em termos econômicos quanto sociais.


As organizações que lutam por um acordo internacional sobre emissões de dióxido de carbono para neutralizar o aquecimento global se entusiasmaram quando, no final de junho, a China tornou público o seu plano detalhado para o desenvolvimento econômico ao longo das próximas décadas. Enquanto ainda permitindo o crescimento da China, é definido exatamente como o país vai se afastar dos combustíveis fósseis, bem como, por exemplo, vastas áreas de reflorestamento para sequestro de carbono na atmosfera agora.


Nenhum país capitalista apresentou sequer qualquer comprometimento com o futuro. Como poderiam, quando as corporações e bancos estão em concorrência feroz entre si para controlar e usar todas as alavancas de seus governos para aumentar seus próprios lucros, acima de tudo?

 

Artigo de Deirdre Griswold, publicado no workers.org, em 21 de julho de 2015
Tradução de Gabriel Duccini

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