URC: Resposta aos companheiros da UV

31/03/2015

No dia 21 de Março, os companheiros da Unidade Vermelha publicaram em seu site um artigo (http://unidadevermelha.com.br/nota-em-resposta-a-analise-da-urc-sobre-as-manifestacoes-de-marco/) onde analisam a nota “Unidade da classe operária contra o avanço conservador e anticomunista, em defesa das organizações populares!”. Saudamos a iniciativa dos companheiros, pois achamos que o debate franco entre organizações amigas é fundamental para fazer avançar as posições corretas do marxismo-leninismo.

 

O maior representante do imperialismo?
O artigo da UV começa por criticar nossa caracterização do caráter de classe do PT feita pela URC, classificando-a como um “erro de analise”. Afirmam os companheiros da UV: "Tal foi nossa surpresa em tamanho erro de análise. O PT não expressa em absoluto os interesses da média burguesia brasileira. O PT é o maior representante do imperialismo e da grande burguesia".

Se algumas pessoas podem apontar uma certa dose de exagero em considerarmos o PT como um partido da “média burguesia”, como poderíamos classificar caracterização de que o PT é o maior representante do imperialismo e da grande burguesia no Brasil, feita pelos companheiros da UV? Evidente que no interior do PT existem setores com posições que se identificam com as posições do imperialismo norte-americano em todos os principais assuntos (só lembramos de figuras como Palloci), mas daí passar a considerar o partido como o principal representante do imperialismo, é não querer analisar de maneira concreta a realidade. Nossa caracterização do PT, como partido da média burguesia, está inteiramente baseada nos fatos, levando em consideração o caráter dual de tal classe, bem como suas várias frações.

Analisando brevemente a trajetória do PT, o que podemos observar?

Os companheiros da UV sabem que o PT surgiu num momento particular da história do país, onde a ditadura fascista-militar dava sinais claros de esgotamento político e econômico, fato esse que culminou em uma série de greves operárias. O movimento comunista havia sido completamente destruído, principalmente após a Chacina da Lapa, fato que permitiu ainda mais o avanço do revisionismo, não só de direita, como também de esquerda. A própria fundação do PT contou com apoio entusiasta de muitos elementos revisionistas, sectários, “esquerdistas”. Nessa época, mesmo contando com uma forte base operária, o PT era uma organização que expressava os interesses de uma pequena-burguesia radicalizada, irritada com a ditadura, mas que não via no comunismo e no socialismo uma saída para os seus problemas, ainda que teoricamente falassem em socialismo e comunismo. Não precisamos lembrar que em seu documento de fundação, o PT se coloca até mesmo como uma organização “anticapitalista”, bandeira que até hoje é levantada por algumas de suas tendências internas e faziam – vejam só – crítica ao “etapismo” dos comunistas.

Lembremos que essa época era uma época onde os países socialistas do Leste Europeu, comandados pelo revisionismo, bem como a própria URSS revisionista, já davam evidentes sinais de crise, fruto de anos de aplicação de políticas equivocadas e restauracionistas, algo que contribuiu em grande medida para minar a influência ideológica do Movimento Comunista Internacional dentro do movimento operário em praticamente todos os países. O PT, pressionado pela ideologia burguesa e pelo imperialismo, pensava dar respostas a certos problemas teóricos do socialismo, mas sempre o fez aderindo a um discurso que conciliava a retórica esquerdista, com a mais pura vulgaridade reformista.

Com o passar dos anos, aumentando sua influência no seio da sociedade brasileira, açambarcando bandeiras e elementos de consciência democrática e popular, e a posterior crise geral do Movimento Comunista Internacional com a queda da URSS, o PT finalmente se consolidou como o principal partido de esquerda do país. Ainda nessa época, muitos elementos da burguesia nacional brasileira também se aproximaram do PT, ajudando na articulação e financiamento das campanhas eleitorais. Entorno do partido se formou uma frente de organizações reformistas e revisionistas, que viriam a participar de inúmeros processos eleitorais, mas que propunham como saída para os problemas do Brasil a administração do Estado brasileiro. Foi nesse processo que muitas organizações se transformaram em meras máquinas eleitoreiras, adeptas do cretinismo parlamentar.

A pressão ideológica da ala direita da burguesia nacional sob os elementos instáveis da pequena-burguesia e das camadas dirigentes do movimento sindical petista fez com que, aos poucos, o partido fosse se desfazendo do seu linguajar pseudo-radical, limitando-se a criticar o neoliberalismo. Não só a burguesia nacional pressionava o PT, mas também o imperialismo, via partidos direitistas e meios de comunicação monopolistas. O PT precisava vender a imagem de que, estando na gerência o Estado burguês brasileiro, seria um “bom administrador” e resolveria de “maneira responsável” os problemas de todos os brasileiros. O discurso retórico “anticapitalista” foi substituído aos poucos por um discurso meramente nacionalista, “desenvolvimentista”, em prol de um “projeto nacional”.

Ainda antes de chegar ao governo, em 2002, o PT, sempre atuando de maneira oportunista no seio do movimento operário e popular, cumpria um papel importante como força que aglutinava representantes da pequena e média-burguesia, bem como vastos setores do proletariado e camponeses que há anos lutavam por seus direitos e resistiam ao neoliberalismo. Foi o impulso dessas lutas que deu a vitória ao PT em 2002.

A estratégia seguida pelo PT ao assumir o governo foi o de tentar aplicar políticas assistencialistas – muitas delas, recomendações de organismos internacionais – conciliando-as com o que acreditavam ser o “desenvolvimento econômico”. Garantiram não romper o tripé econômico neoliberal, para tranquilizar o capital financeiro internacional, bem como não atentar contra o imperialismo. Chegaram ao cúmulo de enviarem tropas militares ao Haiti. Por outro lado, enterraram o projeto de adesão do Brasil a ALCA, ampliaram os laços com países como Cuba e Venezuela, fortaleceram o Mercosul e impulsionaram a criação da UNASUL. Todas as medidas listadas anteriormente, evidentemente, não representam nenhum golpe contra o imperialismo, mas também não o agradam. Não é por menos que partidos e organizações de direita, dos mais variados matizes, atacam com virulência esse aspecto da política petista.

O outro aspecto que incomoda setores consideráveis das classes dominantes brasileiras é a ligação que o PT possui com o movimento sindical, com o movimento camponês e com a esquerda latino-americana de um modo geral. Aqui, as forças reacionárias não estão interessadas se tais movimentos são “revisionistas” ou “oportunistas”. Para exemplificarmos: nós sabemos que a linha do MST não irá conduzir as massas populares para a revolução proletária, em alguns momentos até pode converter-se em fator de atraso, mas isso não impede que a organização seja alvo de um violento ódio por parte das classes dominantes.

Portanto, considerar o PT como o maior representante do imperialismo em nosso país, desconsiderar que todas as principais forças ligadas ao imperialismo, no momento atual, direcionam os seus canhões também contra o PT, é um equívoco completo, fruto de uma análise totalmente equivocada da realidade brasileira e das contradições de classe no momento atual. É uma posição que, apesar de estar envolta por uma mística aparentemente radical e revolucionária, na prática contribui com o fortalecimento da reação e do fascismo.

Em um dado momento do artigo da Unidade Vermelha, se reconhece que existem tendências do PT que possuem aspirações anti-imperialistas. Pois bem, façamos novamente a pergunta: é possível afirmarmos o mesmo sobre partidos como PSDB, DEM? Entre os grandes proprietários dos meios de comunicação da burguesia, existe pelo menos algum que esteja pela “independência nacional” e possua bandeiras “anti-imperialistas”? Evidente que a resposta só pode ser negativa.

Na nossa nota, em nenhum momento tentamos afirmar que as bases do PT concretamente “mudam os rumos do governo” ou coisa que o valha, apesar de em determinadas circunstâncias fenômenos como esse poderem sim se produzir. O fato é que no caso específico das manifestações “governistas” recentes, as vozes da base divergiram totalmente da posição tomada pela direção do PT. No ato do dia 13 de março, fora algumas bandeiras que representam ilusões desses setores com o governo, levantaram-se vozes contra a privatização da Petrobras; contra os pacotes de medidas antipopulares propostos pelo governo; contra a ingerência imperialista na Venezuela; contra o papel exercido pelos grandes meios de comunicação monopolistas. Quem atuou no sentido de tentar impedir a realização do ato foi justamente a direção do PT. Posteriormente, a direção do PT aceitou participar do ato graças a pressão dessa base.

Essa insistência em não enxergar tais fatos nos parecem mais uma justificativa que a Unidade Vermelha encontrou para igualar atos de caráter radicalmente distintos, limitando-se a afirmar que nós ignoramos a existência de um setor combativo” de movimentos populares. É importante lembrarmos que, principalmente nas lutas que se desenvolvem no campo, a combatividade também está presente de diversas formas, mesmo nas organizações dirigidas pelo reformismo e revisionismo. Não é a “combatividade” por si só que define o caráter acertado da linha política de uma determinada organização. Para nós, que conhecemos muito bem as disputas e diferenças de linha existentes no movimento popular brasileiro, os setores citados pelos camaradas da Unidade Vermelha também não possuem uma linha inteiramente correta, apesar de os respeitarmos.

O MST e o MTST no Brasil e o MST e MTST na cabeça dos membros da UV
Há alguns problemas sérios a apontar aqui, acerca de umas afirmações levantadas sobre esses movimentos populares e seus respectivos dirigentes. Muitos companheiros da UV são avançados em compreender as contribuições elevadas do socialismo científico, que foram conquistadas por meio da luta de classes e das novas condições. Isso é fundamental, pois a teoria nos serve como guia para a formulação de estratégias e táticas. Porém, é também de fundamental importância acompanhar rotineiramente as relações políticas, econômicas, bem como a movimentação dos agentes políticos, seja à esquerda ou à direita. E sobre isso, em particular sobre as posições do MST e MTST, a UV parece não dar a devida atenção, na verdade, negligenciam esses movimentos a ponto de afirmarem algo totalmente desconexo da realidade concreta.

A UV tacha, por exemplo, o MST como um movimento reformista — o que não é incorreto — mas subestimam sua capacidade tanto crítica como prática, não compreendendo sua condição oscilante e limitada de movimento popular-democrático quando dirigido por uma linha não avançada do proletariado, mesmo com posições normalmente progressistas. Parecem idealizar um movimento popular-democrático, porém lhes faltam aceitar a realidade concreta, e, assim, articular uma linha política levando em consideração essa conjuntura. Não somos inocentes, mas tampouco somos inconsequentes. Vejamos o que dizem:

“Quando o MST diz que não existe mais latifúndio e que ocupar terras não é mais uma necessidade, ou quando o MTST exige a ampliação de programas governistas que garantem os largos lucros às construtoras (...)”

Talvez a UV tenha confundido a Kátia Abreu com o MST (1). Ou talvez não tenham costume de ler seus documentos (2). Há algo errado quando os companheiros afirmam que o MST diz que não há mais necessidade de ocupar terra, sendo que em 24 de Janeiro deste ano fora realizado um Prêmio Luta Pela Terra e João Paulo Rodrigues, da coordenação nacional do MST, diz que “A luta é que vai nos permitir formar novos quadros, enfrentar o estado burguês e fazer alianças com outros setores. Esse é o compromisso do nosso Movimento com os amigos e companheiros que estão aqui” e finalizou dizendo que “nossa principal universidade: a ocupação de terra” (3). Talvez o MST não seja o mais avançado movimento agrário, mas a questão é: é o movimento camponês hegemônico no Brasil, querendo ou não. É o movimento camponês que, no ano de 2014, construiu diversas ocupações, dando destaque à Fazenda Santa Mônica, em Goiás, do Senador Eunício Oliveira. Reduzi-los de forma simplista como “oportunistas” só manterá o movimento comunista à deriva.

A UV critica o MTST por esse supostamente “exigir” programas de moradia de governos. De fato, as grandes construtoras estão quase fusionadas com o Estado e recebem superlucros. Mas quando afirmam tal coisa, dão a entender como se o MTST aceitasse e concordasse com a burocracia das empreiteiras, com a corrupção e a exploração, o que não passa de mentira. Nas eleições, o MTST expôs as empreiteiras como as grandes financiadoras de campanhas e suas intenções. Como movimento popular, ele pode e deve pressionar de baixo para cima e exigir certas mudanças imediatas, emergenciais. Ademais, os companheiros esquecem — ou talvez não saibam — que o MTST utiliza da própria força para construir moradias e vem realizando dezenas de ocupações nos últimos tempos. Recentemente, Guilherme Boulos realizou uma fala sobre o 15 de Março (4).

Diferente da impressão que a UV tenta passar, a liderança do MTST mais condena o governo federal do que o contrário. Chega a dizer que nem “de esquerda“ o governo é. Aqui, também, parece a UV não ter conhecimento sobre as articulações e movimentações do MTST. O mesmo poderíamos dizer sobre Stédile. Se a UV buscasse as posições dessa liderança, sem dificuldades saberia que Stédile passa boa parte do tempo em criticar o governo petista, principalmente o de Dilma, suas limitações, sua tecnocracia etc. O que fica evidente é que os marxistas-leninistas precisam saber trabalhar com essas contradições que se manifestam no seio do movimento popular, acumulando forças para isolar as posições reformistas, revisionistas e fazer avançar as posições revolucionárias.

Sob um discurso de “combatividade” e revolucionarismo, a UV negligencia tais movimentos populares e sua importância na revolução democrática. Falam de combatividade como se isso fosse algum critério para julgar linha política ou avanço ideológico. Pois saibam, o extremismo — que em muito se assemelha ao anarquismo — é totalmente estranho ao marxismo. Os marxistas sabem que é de fundamental importância o papel do Partido de Novo Tipo na luta por reformas e na direção dessas no seio da sociedade capitalista. A UV parece preferir reduzir tais movimentos populares e suas lideranças a “oportunistas” e “traidores” do que compreender a natureza de classe dessas organizações e seu papel oscilante e limitado dado as circunstâncias, onde ainda não existe o Partido Comunista em nosso país.

Combater o revisionismo de direita... mas também o de “esquerda”
A Unidade Vermelha também aponta uma suposta “subestimação do revisionismo” por nossa parte. Para qualquer pessoa que tenha lido de maneira atenta a nota que publicamos, em momento nenhum o revisionismo foi subestimado, muito pelo contrário: apontamos exatamente qual foi o seu papel objetivo para a criação do cenário político que se desenha no Brasil. O que nós no recusamos é igualar o conjunto do movimento popular – e aí estamos falando não só do petismo, mas também de movimentos como o que a UV faz parte – com o fascismo em ascensão. Os camaradas da UV precisam ter em conta que o revisionismo não se apresenta somente em sua forma de oportunismo de direita, mas também em oportunismo de esquerda. No momento atual, tão grave quanto subestimar o revisionismo é subestimar o perigo de ascensão fascista, principalmente em momentos onde o proletariado encontra-se totalmente desarmado, ou seja, não possui o seu partido revolucionário.

Acusa-se a URC de “reproduzir a cartilha da II Internacional” e essa acusação simplesmente não pode ser levada a sério, pois parece que a Unidade Vermelha está confundindo anarquismo com bolchevismo, citando fora de contexto uma frase do camarada Lenin. Ora, quando nós apontamos o perigo da ascensão fascista e conservadora, apontamos que existe um perigo de as classes dominantes estarem preparando a criação de uma situação ainda mais favorável para intensificarem a repressão contra as massas, não estamos deixando de considerar que os revisionistas e reformistas são nossos inimigos no seio do movimento operário. Contudo, as formas e métodos que utilizamos para resolver nossas contradições com eles são radicalmente distintas de como resolvemos nossas contradições com a burguesia e com os fascistas.

Importante frisar que em nossa nota, em nenhum momento, defendemos a teoria do “menos pior”. Apenas estamos apresentando a maneira como a luta de classes se desenvolve no Brasil atual, buscando traçar a melhor tática de atuação para o momento. Os apontamentos que fazemos não são uma justificativa para apoiarmos o governo da Dilma ou qualquer coisa do tipo, mas sim servem para manifestarmos nossa preocupação com o crescimento do conservadorismo e do fascismo. Acusar-nos disso mostra justamente que os camaradas da Unidade Vermelha não entenderam a nota e seguem subestimando a ascensão reacionária.

O que está realmente por trás da ascensão reacionária?
A ascensão reacionária e fascista de nada tem a ver com um “levante das massas contra a corrupção” e por “melhores condições de vida” como pensam alguns incautos – de direita e esquerda – mas antes são obra de anos de trabalho propagandístico promovidos pelos meios de comunicação burgueses (totalmente atrelados ao imperialismo), que nos últimos anos e, em especial, após as manifestações de junho de 2013, dedicam uma grande atenção em propagar todo tipo de lixo ideológico reacionário, anticomunista em forma de panfletos, livros, sites, programas de televisão, etc. Nesse sentido, o imperialismo atua de modo parecido como fez no passado, usando institutos de fachada, como o IPES e o IBAD.

Segundo a Unidade Vermelha, estaríamos considerando como contradição principal a contradição entre governo “minimamente popular” e o “fascismo”. Essa colocação está totalmente equivocada. Para nós a contradição principal no Brasil segue sendo a que existe entre a nação e o imperialismo de modo que todas as outras contradições existentes estão subordinadas a essa contradição principal. A própria ascensão desse movimento reacionário, conservador e anticomunista está totalmente ligada ao avanço da intervenção imperialista no país, que visa promover um forte ataque contra o movimento operário e popular no seu conjunto. Desse modo, resulta em grave erro achar que o fenômeno em questão trata-se apenas de uma contradição entre governo e um movimento reacionário.

Em análises simplistas, a Unidade Vermelha considera ser realmente o PT o principal alvo do ódio do fascismo, quando na verdade esse ódio está totalmente dirigido ao movimento operário e popular no seu conjunto e não meramente ao PT. Daí uma das bandeiras principais desse movimento ser o anticomunismo e não ao fim da sabujice ao imperialismo. Só isso já é fato suficiente para atestar que em tal movimento não existe nada de espontâneo. Os camaradas da Unidade Vermelha, talvez por ingenuidade, ainda nos perguntam quais seriam os critérios que nos permitiria rotular como “fascista” o movimento reacionário em ascensão, como se o fascismo fosse algo que estivesse muito distante da realidade brasileira. Um movimento, de caráter claramente antipopular, reacionário, dirigido por elementos ligados diretamente ao imperialismo e ao capital financeiro, financiados pelo mesmo, que promove abertamente o anticomunismo e ataques contra o movimento operário e popular, só pode ser classificado como fascista. Não precisamos fazer grandes analises teóricas a respeito de um fato que já foi muito bem elucidado pelo conjunto do movimento comunista internacional em outros momentos; nem, tampouco, queremos aqui fazer uma discussão acadêmica sobre o que seria o fascismo.

Talvez seja exatamente o desconhecimento sobre o que é o fascismo que leva os camaradas da Unidade Vermelha a classificarem a polarização política atual como uma “disputa interfascista”. Essa formulação é apenas um artifício que os camaradas encontraram para continuar tratando o PT de uma maneira mais virulenta do que PSDB et caterva. É uma saída aparentemente “radical”, mas que expressa um certo comodismo, já que com ela os camaradas ficam “livres” de fazerem uma análise das contradições de classe da sociedade brasileira atual, bem como dessas mesmas contradições no interior do PT e do movimento operário e popular. Repetimos: colocar no mesmo patamar as massas petistas, reformistas, e os conservadores, reacionários, é simplesmente dar mostras do total desconhecimento do que representam esses últimos, ou seja, é comprovar que os camaradas desconhecem o que estão falando. Se atentarmos um pouco à situação conjuntural política brasileira, em debates que ocorrem no Congresso Nacional, em posições abertas de alguns catch all parties em relação ao PT, nas disputas eleitorais, em projetos — lembrando do recente Projeto de Lei do Senador José Serra que pretende privatizar de vez a Petrobrás —, etc., facilmente veremos diferença entre esses partidos, e que em muitos casos utilizam do PT como espantalho para vociferarem ódio ao conjunto do movimento popular e aos direitos sociais.

Para comprovar a campanha dirigida pelos setores mais reacionários da burguesia brasileira contra os movimentos populares no seu conjunto, cada dia mais violenta, basta abrir um jornal e assistir um simples programa de notícias da imprensa capitalista. O “estado de espírito” atual das classes dominantes brasileiras, em um contexto de crise mundial do capitalismo e consequente crise do regime semicolonial brasileiro, mostra que existe uma tendência para a fascistização desse setor, incomodado até mesmo com a existência de setores reformistas e comportados do movimento popular. Por isso promovem o ódio contra a “esquerda no geral”, sem diferenciar suas divisões e várias tendências, como forma de criminalizar qualquer forma de luta popular. Interessante notar que a Unidade Vermelha e a imprensa capitalista parecem concordar em uma coisa: as manifestações reacionárias, supostamente contra o governo, na verdade, são frutos da “insatisfação do povo” contra os “políticos”, e os elementos fascistas, que defendem abertamente o golpe militar e o fim até mesmo da democracia burguesa são “meia dúzia de gatos pingados”. Para podermos fazer uma melhor analise do caráter das duas manifestações que estão no centro de nosso debate, estivemos presentes nas duas e pudemos constatar empiricamente a radical diferença entre elas, bem como o fato de que os “pró-militares” na manifestação reacionária não eram “meia dúzia”. Ora, quando a grande burguesia resolve desfazer de sua máscara democrática e passa a atuar abertamente contra toda a esquerda, o que não é isso senão o fascismo?

No seio da cadeia mundial do imperialismo, devemos ser bem criteriosos para fazer as análises de classes, não reduzir as coisas a extremos e termos uma posição razoável e equilibrada relativa à realidade concreta, ou seja, termos uma posição materialista dialética dos fenômenos. Se pretendemos a reconstituição do Partido de Novo Tipo, o partido revolucionário da classe operária, devemos ter nítido alguns aspectos: 1) A contradição fundamental, 2) a contradição principal e 3) as demais contradições que se manifestam nas situações de classe, lembrando sempre de levar em consideração o contexto internacional, que possui um papel também importante. Se não soubermos lidar com essas diferenças, não saberemos lidar com um programa mínimo e um programa máximo, com estratégias fundamentais e imediatas e táticas a se utilizar. Devemos nos esforçar em adotar uma posição razoável exigida pela situação concreta para não confundirmos tática com estratégia. E dado as circunstâncias, é preciso ser flexível e aplicar bem um programa mínimo para futuramente estarmos em condições de darmos grandes saltos. O momento político atual exige maturidade política, paciência e firmeza na propagação das concepções revolucionárias. Qualquer posição, que de uma maneira ou de outra, subestime a situação política de ascensão reacionária e conservadora contra o movimento popular de uma forma geral e tudo aquilo que pelo menos lembre o movimento dos trabalhadores, inevitavelmente engendrará desvios de direita e esquerda, fato que prejudicará ainda mais a luta pela constituição de um poderoso e influente Partido Comunista.

A União Reconstrução Comunista continua com a sua posição de denúncia do fascismo e da reação em todos os níveis. Opomo-nos às políticas reacionárias que estão sendo preparadas pelo governo, bem como denunciamos a chantagem dos partidos burgueses tradicionais respaldadas pela ascensão conservadora e reacionária. Somente a classe operária organizada em um partido revolucionário e unida poderá fazer frente aos desafios que se aproximam. Daí ser de extrema importância lutarmos de maneira ainda mais ativa para propagandearmos as posições corretas do marxismo-leninismo e reorganizarmos o Partido Comunista em nosso país, de acordo com o desenvolvimento da luta de classes.

Notas
1. http://www.mst.org.br/2015/01/05/katia-abreu-o-latifundio-ainda-existe-e-esta-mais-improdutivo.html
2. http://www.mst.org.br/2015/01/09/concentracao-de-terra-cresce-e-latifundios-equivalem-a-tres-sergipe.html; http://www.mst.org.br/2015/03/08/a-luta-civilizatoria-da-reforma-agraria-contra-a-barbarie-do-latifundio.html
3. http://www.mst.org.br/2015/01/25/mais-de-600-pessoas-participaram-do-premio-luta-pela-terra.html
4. https://www.youtube.com/watch?v=6L5B-Cs8Ejk

 

UNIÃO RECONSTRUÇÃO COMUNISTA

Please reload

Leia também...

"O 29º Aniversário da Morte de V. I. Lenin"

21/01/2020

As críticas de José Duarte à Direção Nacional do PCdoB em 1988

20/01/2020

Fidel: "Roubo de cérebros"

17/01/2020

ILPS: 'Responder aos ataques fascistas na Índia!'

17/01/2020

1/3
Please reload

NOVACULTURA.info

  • Facebook
  • Instagram
  • Twitter
  • YouTube