"A luta dos professores de SP contra o governo do PSDB"

30/03/2015

 

O professorado paulista vem sendo tratado como a escória da classe trabalhadora do Estado já por vinte anos, mais ou menos desde o governo Mario Covas. Os salários são completamente desajustados em relação aos outros ordenados de ensino superior. As condições de trabalho resumem-se a uma lousa e uma série de gizes – sendo o giz colorido uma espécie de material diversificado, de acordo com alguns diretores por aí. Boa parte dos alunos, saem do Ensino Médio sem saber o que estavam fazendo ali, qual o motivo de estarem aprendendo certas coisas que lhes pareciam completamente fora de suas realidades. Isso quando aprendem. As escolas são forradas por grades que fazem lembrar um presídio, os inspetores de alunos, ou agentes de organização escolar, andam para lá e para cá com a função de impor uma certa ordem e marcar as faltas dos professores. Mas, os que faltam são sempre os mesmos. Faltam por não terem qualquer incentivo para ir ao trabalho, ou porque são acometidos por doenças psicológicas como depressão, síndrome do pânico entre tantas outras.

Em 2013, o sindicato paulista dos professores, a APEOESP, iniciou uma greve e quebrou a mesma, mesmo contra a vontade dos professores que haviam aderido a ela. No último dia 13 de Março, depois de muito se adiar, foi realizada uma nova assembleia no vão do MASP que votou pela greve. A princípio, poucos professores aderiram, com o decorrer da semana e da assembleia seguinte (20), mais e mais professores aderiram. A última assembleia se realizou no dia 27 de Março passado. Não havia lugar para mexer os braços sob o Museu de Arte de São Paulo, a pista sentido Consolação da Avenida Paulista foi fechada por volta das 15h. Os policiais militares observavam a situação com uma certa cara de deboche, provavelmente imaginando qual seria o número absurdo que a PM daria para aquela manifestação. Quantas centenas pra baixo do número real? A estimativa dos órgãos ligados ao governo de Geraldo Alckmin sempre está abaixo do que é visto na realidade.

Entre palavras de ordem como “Não vai ter arrego”, professores de todo o Estado – incluindo caravanas vindas do interior – reivindicavam 75% de aumento no salário, cumprimento da lei do piso – que o secretario do Gabinete da Educação insiste em dizer que está acima da média nacional, mesmo que esse valor não seja pago -, contratação dos professores que foram aprovados no último concurso realizado em 2013, concurso esse que divulgou um número de cargos muito maior do que o real, para que servisse unicamente como propaganda eleitoral para o reeleito governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Condições de trabalho dignas, o fim da divisão de professores entre categorias (os professores do Estado de São Paulo são divididos entre várias categorias, os Efetivos que são aqueles concursados, os Categoria F, que são professores que garantiram estabilidade depois de 2007, os professores Categoria O que são temporários, com contrato de dois anos e que, no momento, cumprem uma duzentena, ou seja, duzentos dias sem trabalhar).

Apesar de todo o barulho, a grande mídia tem ignorado a greve, já que estão em acordo com os governos neo-liberais tucanos que vem dominando São Paulo já por tempo de mais. Os professores são tidos como os vilões de toda a história, estão deixando os alunos sem aula. Estão atrapalhando na aprendizagem. A questão é que tal aprendizagem não exista na escola pública, ou existe de uma forma muito minimizada. É sabido que o PSDB não se importa com o trabalhador, muito menos com os filhos dos trabalhadores. O sucateamento da educação transformou os prédios frios e gradeados em depósitos de crianças e adolescentes que não podem ficar nas ruas, a ideia é que se formem pessoas ignorantes, sem censo político ou crítico. A ideia é que os filhos desses trabalhadores não entendam a relação de opressão que lhes é imposta diariamente, felizmente, alguns professores conseguem quebrar as barreiras do capitalismo e fazem seus alunos pensarem um pouco além do que aquilo que lhes é geralmente proposto. Prova disso foi uma pequena concentração de alunos no ato do dia 27, em apoio aos seus professores.

Pouco antes das 17 horas, num clima de quase vitória e de esperanças renovadas, foi votada a continuidade da Greve e uma nova assembleia a se realizar na próxima quinta-feira (2), mais uma vez no MASP às 14 horas, depois disso, os professores marcharam até a Secretaria da Educação localizada na Praça da República, onde já acontece um acampamento em frente ao prédio, esperando uma conversa que deve ocorrer na segunda-feira (30) às onze da manhã.

Mesmo diante da inflexibilidade de Alckmin, os professores continuam a luta pelo ensino de qualidade, para que sejam honrados pelo menos o mínimo, sem a humilhação sofrida por eles e seus alunos. Ao contrário do que se diz nos grandes veículos de comunicação, a categoria não vai para rua apenas para protestar por salários maiores, mas por condições dignas de trabalho a todos os servidores da educação, todos aqueles que compõem a escola, desde o corpo docente, o corpo discente, funcionários e equipe gestora. Diante dos cortes absurdos de verbas na educação, da desvalorização dos professores, do controle absurdo para que os alunos continuem sem ter qualquer tipo de noção política ou de suas situações enquanto classe trabalhadora, a greve se faz mais do que necessária e de extrema importância para que o governador sinta-se pressionado a fazer as mudanças necessárias para o setor.


por Diego Blanco,

professor da rede estadual de ensino
 

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