top of page
partido-dos-panteras-negras.png
  • Foto do escritorNOVACULTURA.info

"A morte de Lumumba: podíamos ter agido de outro modo?"



Os observadores que se encontravam nas capitais africanas em junho de 1960 podiam dar-se conta de um certo número de fatos. Com efeito, aí convergiam estranhas personagens, cada vez mais numerosas, vindas de um Congo aparecido recentemente na cena internacional. Que diziam estes congoleses? Diziam não importa o quê. Que Lumumba estava vendido aos Ghaneses. Que Gizenga fora comprado pelos Guineenses, Kashamura pelos Jugoslavos. Que os civilizadores belgas partiam cedo demais, etc.


Mas se nos lembrássemos de levar para um canto um desses congoleses, de interrogá-lo, então aperceber-nos-íamos de que algo muito grave se tramava contra a independência do Congo e contra a África.


Havia senadores e deputados congoleses que, logo depois das festas da independência, desapareciam do Congo e iam... para os Estados Unidos. Outros instalavam-se durante várias semanas em Brazzaville. Convidavam-se sindicalistas a ir a New York. Ainda aqui, se tomássemos de parte um desses deputados ou senadores e o interrogássemos, tornava-se evidente que todo um processo muito preciso se ia desenrolar.


Já antes de 1 de julho de 1960 estava lançada a operação Katanga. O seu fim? Certamente, salvaguardar a União Mineira. Mas, para além dessa operação, era uma concepção belga que era defendida. Um Congo unificado, com um governo central, ia contra os interesses belgas. Apoiar as reivindicações descentralizadoras das diversas províncias, provocar essas reivindicações, alimentá-las, tal era a política belga antes da independência.


Na sua tarefa, os Belgas eram ajudados pelas autoridades da Federação Rodésias-Niassalândia. Sabemos hoje, e Hammarskjoeld melhor do que ninguém, que antes de 30 de junho de 1960 uma ponte aérea Salisbúria-Elisabethville fornecia armas ao Katanga. Lumumba proclamara certo dia que a libertação do Congo seria a primeira fase da independência completa da África Central e Meridional e definira muito precisamente os seus objetivos próximos: apoio aos movimentos nacionalistas da Rodésia, de Angola, da África do Sul.


Um Congo unificado com um anticolonialista militante à sua cabeça constituía um perigo real para essa África sulista, muito propriamente sulista, diante da qual o resto do Mundo tapa a cara. Queremos dizer, diante da qual o resto do Mundo se contenta com chorar, como em Sharpville, ou com fazer exercícios de estilo por ocasião das jornadas anticolonialistas. Lumumba, porque era o chefe do primeiro país desta região a obter a independência, porque sabia concretamente o peso do colonialismo, tinha-se comprometido em nome do seu povo a contribuir fisicamente para a morte dessa África. Que as autoridades do Katanga e de Portugal tenham feito tudo para sabotar a independência do Congo, não nos espanta. Que tenham reforçado a ação dos Belgas e aumentado o ímpeto das forças centrífugas no Congo, é um fato. Mas este fato não explica a deterioração que progressivamente se instalou no Congo, este fato não explica o assassinato, friamente decidido, friamente dirigido, de Lumumba, essa colaboração colonialista no Congo é insuficiente para explicar por que é que em fevereiro de 1961 a África vai conhecer, em torno do Congo, a sua primeira grande crise, A sua primeira grande crise, porque terá de demonstrar se avança ou se recua. Terá de compreender que já lhe não é possível avançar por regiões, que, como um grande corpo que recusa qualquer mutilação, terá de avançar na totalidade, que não haverá uma África que luta contra o colonialismo e outra que tenta arranjar-se com o colonialismo. A África, isto é, os Africanos, terão de compreender que nunca há grandeza a adiar e que nunca é desonra dizer o que se é e o que se quer e que, na realidade, a habilidade do colonizado só pode ser, em última instância, a sua coragem, a concepção lúcida dos seus objetivos e das suas alianças, a tenacidade que confere à sua libertação.


Lumumba acreditava na sua missão. Tinha uma confiança exagerada no povo. Esse povo, para ele, não só não se podia enganar, mas também não podia ser enganado. E, com efeito, tudo parecia dar-lhe razão. Por exemplo, cada vez que numa região os inimigos do Congo conseguiam levantar a opinião contra ele. bastava-lhe aparecer, explicar, denunciar, para que a situação voltasse a normalidade. Singularmente, esquecia que não podia estar em todo o lado ao mesmo tempo e que o milagre da explicação era menos a verdade daquilo que expunha do que a verdade da sua pessoa.


Lumumba tinha perdido a batalha pela presidência da República. Mas, porque encarnava antes do mais a confiança que o povo congolês depositava nele, porque confusamente os novos africanos tinham compreendido que só ele se preocupava com a dignidade do seu país, Lumumba não deixou de exprimir o patriotismo congolês e o nacionalismo africano no que têm de mais rigoroso e de mais nobre.


Então, outros países muito mais importantes do que a Bélgica ou Portugal decidiram interessar-se diretamente pela questão. Lumumba foi contactado, interrogado. Depois do teu périplo pelos Estados Unidos, a decisão estava tomada: Lumumba devia desaparecer.


Porquê? Porque os inimigos de África não se enganavam. Tinham compreendido perfeitamente que Lumumba estava vendido, vendido à África, entenda-se. Quer dizer que já não era possível comprá-lo.


Os inimigos da África deram-se conta, com um certo terror, de que se Lumumba triunfasse, em pleno coração do dispositivo colonialista, com uma África francesa a transformar-se em comunidade renovada, uma Angola “província portuguesa” e finalmente a África Oriental, acabava-se a África “deles”, acerca da qual tinham planos muito precisos.


O grande sucesso dos inimigos da África foi terem comprometido os próprios africanos. É certo que esses africanos estavam diretamente interessados no homicídio de Lumumba. Chefes de governos fantoches, no seio de uma independência fantoche, confrontados dia a dia com uma oposição massiva dos seus povos, não levaram muito tempo a convencer-se de que a independência real do Congo os poria pessoalmente em perigo.


E houve outros africanos, um pouco menos fantoches, mas que se aterravam quando a questão era desligar a África do Ocidente. Dir-se-ia que estes Chefes de Estado africanos receiam sempre encontrar-se diante da África. Também estes, menos ativamente, mas conscientemente, contribuíram para a deterioração da situação no Congo. Pouco a pouco, o Ocidente punha-se de acordo sobre a necessidade de intervir no Congo, concordava que não se podia deixar as coisas evoluir a semelhante ritmo.


Pouco a pouco, ganhava corpo a ideia de uma intervenção da ONU. Então, podemos dizê-lo hoje, dois erros simultâneos foram cometidos pelos Africanos.


Em primeiro lugar por Lumumba, quando solicitou a intervenção da ONU. Não se devia recorrer à ONU. A ONU nunca foi capaz de resolver validamente um único dos problemas postos à consciência do homem pelo colonialismo, e sempre que interveio foi para ir concretamente em socorro da dominação colonialista do país opressor.


Veja-se os Camarões. De que paz gozam os súbditos de Ahidjo, mantidos em respeito por um corpo expedicionário francês que, na sua maioria, iniciou a sua carreira de armas na Argélia? A ONU, todavia, tem controlado a autodeterminação dos Camarões e o Governo Francês instalou aí um “executivo provisório”.


Veja-se o Vietnã.


Veja-se o Laos.


Não é verdade dizer que a ONU falha porque as causas são difíceis.


Na realidade, a ONU é a carta jurídica que os interesses imperialistas utilizam quando a carta da força bruta não deu resultado.


As divisões, as comissões mistas controladas, as colocações sob tutela, são meios legais internacionais de torturar, quebrar a vontade de independência dos povos, de cultivar a anarquia, o banditismo e a miséria.


Porque, enfim, antes da chegada da ONU não havia massacres no Congo. Após os boatos alucinantes propagados de propósito por ocasião da partida dos Belgas, só se contava uma dezena de mortos. Mas desde a chegada da ONU habituamo-nos todas as manhãs a saber que os Congoleses se massacravam uns aos outros às centenas.


Dizem-nos hoje que provocações repetidas foram montadas por belgas disfarçados de soldados da Organização das Nações Unidas. Revelam-nos hoje que funcionários civis da ONU tinham, com efeito, montado um novo governo no terceiro dia da investidura de Lumumba. Então compreendemos muito melhor aquilo a que chamaram a violência, a rigidez, a suscetibilidade de Lumumba.


Na verdade, tudo demonstra que Lumumba foi anormalmente calmo.


Os chefes da missão da ONU contactavam com os inimigos de Lumumba e com eles firmavam decisões que comprometiam o Estado do Congo. Como deve reagir um Chefe de Estado num caso destes? O fim procurado e atingido é o seguinte: manifestar a ausência de autoridade, provar a carência do Estado.


Portanto, motivar o sequestro do Congo.


O erro de Lumumba foi, então, num primeiro tempo, acreditar na imparcialidade amistosa da ONU. Esquecia singularmente que a ONU, no estado atual, não passa de uma assembleia de reserva, posta de pé pelos Grandes, para continuar entre dois conflitos armados a “luta pacífica” pela partilha do Mundo. Se Iléo, em agosto de 1960, afirmava a quem o queria ouvir que era preciso enforcar Lumumba, se os membros do gabinete de Lumumba não sabiam o que fazer dos dólares que, a partir dessa altura, invadiram Léopoldville, enfim, se Mobutu se dirigia todas as noites a Brazzaville para aí fazer e ouvir o que adivinhamos melhor agora, então porquê virar-se com tal sinceridade, tal ausência de reserva para a ONU?


Os Africanos deverão recordar esta lição. Se necessitarmos de uma ajuda externa, chamemos os nossos amigos. Só eles podem realmente e totalmente ajudar-nos a realizar os nossos objetivos, porque, precisamente, a amizade que nos liga a eles é uma amizade de combate.


Mas, por sua vez, os países africanos cometeram um erro ao terem aceitado enviar as suas tropas a coberto da ONU. De fato, admitiam ser neutralizados e, sem se darem conta, permitiam que os outros manobrassem.


Com certeza que era preciso enviar tropas a Lumumba, mas não no quadro da ONU. Diretamente. De país amigo para país amigo. As tropas africanas no Congo experimentaram uma derrota moral histórica. Com as armas pousadas, assistiram sem reagir (porque tropas da ONU) à desagregação de um Estado e de uma nação que, no entanto, a África inteira tinha saudado e cantado. Uma vergonha.


O nosso erro, africanos, foi ter esquecido que o inimigo nunca recua sinceramente. Nunca compreende. Capitula, mas não se converte.


O nosso erro foi ter acreditado que o inimigo tinha perdido combatividade e nocividade. Se Lumumba incomoda, Lumumba desaparece. A hesitação no assassínio nunca caracterizou o imperialismo.


Vejam Ben M’Hidi, vejam Moumié, vejam Lumumba. O nosso erro foi termos sido um pouco confusos nos nossos passos. É um fato existirem traidores, hoje, em África. Era necessário denunciá-los e combatê-los. Que isto seja duro depois do sonho magnífico de uma África debruçada sobre si própria e submetida às mesmas exigências de verdadeira independência, nada muda à realidade.


Houve africanos que caucionaram a política colonialista no Congo, serviram de intermediários, caucionaram as atividades e os singulares silêncios da ONU no Congo.


Hoje têm medo. Rivalizam em hipocrisia à volta de Lumumba abatido. Não nos enganemos, exprimem o medo dos seus mandantes. Também os imperialistas têm medo. E têm razão, porque muitos africanos, muitos afro-asiáticos, compreenderam. Os imperialistas vão marcar um tempo de espera. Vão esperar que “a emoção legítima” se acalme. Devemos aproveitar este curto espaço para abandonar as nossas diligências e decidir salvar o Congo e a África.


Os imperialistas decidiram abater Lumumba. Fizeram-no. Decidiram constituir legiões de voluntários. Já estão a postos.


A aviação catanguesa sob as ordens dos pilotos sul-africanos e belgas começou há alguns dias a metralhar o terreno.


De Brazzaville, aviões estrangeiros, cheios de voluntários e de oficiais paraquedistas, dirigem-se em socorro a um certo Congo.


Se decidimos apoiar Gizenga, devemos fazê-lo resolutamente.


Porque ninguém conhece o nome do próximo Lumumba. Há em África uma certa tendência representada por certos homens. É esta tendência perigosa para o imperialismo que está em causa. Cuidemos em nunca o esquecer: é a sorte de todos nós que se joga no Congo.


Por Frantz Fanon


Afrique Action, n.º 19, de 20 de Fevereiro de 1961.

  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • Telegram
  • Whatsapp
PROMOÇÃO-MENSAL-jun24.png
capa29 miniatura.jpg