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"A Política Americana no Extremo Oriente"



A imprensa dos Estados Unidos anuncia a próxima proclamação, oficial de um "novo rumo" da política americana no Extremo Oriente. Venha ou não venha essa proclamação, a verdade é que Washington já está seguindo, em sua política do Extremo-Oriente, os princípios que figuram hoje sob o nome de "novo rumo". Substitui-se praticamente a cooperação internacional pela política de ação unilateral pela política de força. Tudo indica que, para o programa de ação na Grécia e na Turquia, exposto na mensagem do Presidente Truman a 12 de março de 1947, ele se tenha inspirado na experiência adquirida no Extremo Oriente e sobretudo na China, onde os Estados Unidos sustentaram e sustentam os reacionários na guerra civil contra o povo.


Recordemos rapidamente o papel desempenhado pelos Estados Unidos nos negócios internos da China durante os últimos tempos.


A 29 de janeiro de 1947 a Embaixada norte-americana em Nankin, declarou que os Estados Unidos renunciaram à mediação entre o Partido Comunista Chines e o Kuomintang, e retiravam-se do "Comitê dos Três" e do Estado Maior executivo de Peipin. Ao mesmo tempo, os jornais reproduziam declarações públicas de personalidades oficiais norte-americanas afirmando que a mediação americana fracassara devido à "obstinação dos comunistas chineses". Na realidade, a mediação dos Estados Unidos não tinha passado dum biombo que dissimulava a ajuda militar e econômica ao Kuomintang. Essa ajuda só podia produzir e só produziu um resultado: a extensão da guerra civil.


Bem estendido, o abandono da "mediação" não queria dizer que os Estados Unidos não ajudariam mais ao Kuomintang. Muito ao contrário: essa ajuda aumentou. Os dólares americanos afluem aos cofres do Kuomintang; os técnicos militares americanos instruem os exércitos do Kuomintang, que continuam a receber dos Estados Unidos roupas e equipamento, carburantes e munições. As tropas norte-americanas continuam nu China e foram reforçadas ultimamente.


Antes que os mediadores norte-americanos partissem da China, Washington se considerava, pelo menos nominalmente, ligado ao acordo de Moscou de 1945, segundo o qual os signatários tinham o dever de contribuir par a a paz e o fim da guerra civil na China. O abandono da mediação era dar inteira liberdade ao Kuomintang para atiçar a guerra civil. Pelo menos, foi esta a conclusão tirada pelo Kuomintang.


Alguns outros fatos testemunham igualmente o novo rumo político dos Estados Unidos na China no sentido de repudiar os compromissos resultantes do acordo de 1945. Basta recordar o apoio dado à Assembleia Nacional, composta de representantes de um só partido e convocada contrariamente às decisões do Conselho Consultivo Político e a aprovação da Constituição antidemocrática adotada por essa Assembleia. A Conferencia de Moscou exigia que os elementos democráticos tivessem uma ampla participação em todos os organismos do governo chines; mas apesar disso, os Estados Unidos aprovaram oficialmente a política de Chiang Kai-chek que visa isolar o Partido Comunista Chines e formar "um governo com cores de liberalismo, sem comunistas". Praticamente, isso equivale a sancionar a ditadura reacionária do Kuomintang.


Os acontecimentos destes últimos tempos: o fechamento das sedes das organizações comunistas em Tchoungking, em Nankin e em Changai, a aprovação do terrorismo da polícia secreta do Kuomintang, a extensão da guerra civil, mostram quais as consequências a que conduz a orientação atual da política norte-americana na China. Quando os Estados Unidos anunciam que "se retiram" da China, o que querem é livrar-se da responsabilidade da situação que existe na China e que é uma ameaça à paz. Aliás, praticamente, longe de renunciar à China, eles acentuam seu domínio sobre esse país. A América do Norte retirou grandes lucros da ajuda que deu ao Kuomintang para a guerra civil: o tratado de comércio e os diversos acordos assinados com o governo do Kuomintang deixam às firmas americanas as mãos livres para agir. Eles podem, à vontade, submeter a economia nacional chinesa a uma exploração colonial e monopolizar o mercado do país.


Os meios imperialistas da América do Norte não se contentam somente com isso. Querem uma política de apoio direto a Chiang Kai-chek na luta contra as forças democráticas, uma intervenção formal na China. A proposta do Departamento de Estado norte-americano, para fazer imediatamente ao governo do Kuomintang um adiantamento sobre o empréstimo de meio bilhão de dólares que lhe foi concedido, é um desafio sem dissimulação às forças democráticas que querem que a política norte-americana na China seja orientada para a cooperação internacional.


Os jornais anunciam que se preconiza hoje a ideia dum "programa americano único" para todo o Extremo Oriente. O senador republicano Brewster propõe que o general Mac Arthur seja nomeado "regente americano de todo o Oriente". A Agencia Reuter declara que os progressos obtidos pelo general Mac Arthur no Japão permitem esperar que ele saberá dirigir "as operações americanas no Extremo Oriente".


A 17 de março de 1947, o general Mac Arthur fez uma declaração que convém interpretar como uma expressão concreta do "novo rumo" aplicado ao Japão. O general Mac Arthur afirma que chegou o momento de concluir no mais breve prazo um tratado de paz com esse país e estabelecer sobre ele um controle não-militar. Na sua opinião o Japão,


"renunciando ao direito soberano de fazer a guerra, trouxe já uma grande contribuição à causa da paz no mundo inteiro".


A nova Constituição japonesa proclama que esse país não renuncia somente à guerra, mas também à manutenção de qualquer exército. Entretanto o general Mac Arthur propõe que após a conclusão do tratado de Paz os japoneses sejam autorizados


"a criar uma pequena organização militar para sua defesa, ou si preferem confiar no pensamento de vanguarda, para a defesa contra as agressões!"


A expressão "pensamento de vanguarda" é um eufemismo que dissimula a manutenção do controle norte-americano sob novas formas.


As declarações do general Mac Arthur contêm algumas descobertas que não deixam de ter interesse. Ele nos informa: primeiro, que a democracia já existe no Japão, e que só "um cínico devotado ao totalitarismo" poderia pôr isso em dúvida; segundo, que não se podem impor fortes reparações ao Japão; e, terceiro, que o único meio de pôr um fim à crise econômica no Japão é restabelecer o seu comércio exterior.


Comentando as declarações de Mac Arthur, a revista dos conservadores ingleses, Spectator, que não é nada suspeita de "devoção ao totalitarismo", exprimiu, em seu número de 21 de março, dúvidas sérias quanto à existência da democracia no Japão. Com efeito, o mundo inteiro sabe que o movimento democrático é reprimido, que as liberdades cívicas são falseadas, que as sobrevivências feudais são conservadas no Japão. Só se pode declarar "democrático" um tal país quando se está disposto a sustentar os inimigos da reorganização democrática.


Convém assinalar, especialmente, a afirmação de Mac Arthur sobre a impossibilidade de impor fortes reparações ao Japão. Na questão das reparações japonesas, os Estados Unidos passam aos atos unilaterais. O democrata Mansfield, deputado ao Congresso norte-americano, recomendava ultimamente que o governo dos Estados Unidos resolvesse a questão das reparações "independentes da ação dos aliados". É o que foi feito. Nestes últimos tempos o governo dos Estados Unidos deu ao general Mac Arthur uma diretiva "provisória", autorizando-o a empreender imediatamente no Japão uma retirada de reparações preliminares. Por conta própria, sem se porem de acordo com a Comissão do Extremo Oriente, os Estados Unidos decidiram quais os países que receberiam essas reparações preliminares (a diretiva prevê reparações desse gênero à China, às Filipinas, à Holanda e à Inglaterra), em que proporções e de que fontes as retirar. O representante norte-americano na Comissão do Extremo Oriente, Mc Coy, declarou que "os Estados Unidos nada receberão como reparações preliminares". Mas, sabe-se que os Estados Unidos já retiraram do Japão uma quantidade importante de ouro, de platina, de prata, de diamantes, etc., assim como obras de arte cujo valor orça por milhões de dólares, igualmente retiraram dezenas de milhares de toneladas de borracha, de estanho e de outras matérias primas estratégicas, dezenas de milhares de fardos de seda assim como o equipamento de numerosos laboratórios técnicos e usinas.


Por outro lado, certos meios norte-americanos estão interessados em impedir a retirada integral das reparações japonesas, pois querem salvaguardar o potencial de indústria de guerra desse país. O sr. Atcheson, representante norte-americano no Conselho Aliado para o Japão, declarou em sua recente viagem aos Estados Unidos que não se devia reduzir o total de produção da indústria japonesa, dada a crise econômica que atravessa o país. Mas, sabe-se que o baixo nível atual de produção industrial resulta principalmente em grande parte do desejo dos industriais japoneses de furtarem-se às reparações. O próprio sr. Atcheson pôs em foco essa questão, declarando numa entrevista concedida ao correspondente da United Press em Washington:


"Todo homem de negócios e industrial japonês hesita em pôr-se em atividade porque não tem certeza de que suas usinas não se encontrarão na lista dos estabelecimentos destinados as reparações".


Sabe-se que depois da capitulação do Japão os industriais nipônicos trataram de dissimular os algarismos relativos ao rendimento de suas fábricas. A imprensa norte-americana e japonesa citou exemplos numerosos em que a maquinaria fora retirada e escondida para enganar os organismos do serviço de reparações. A propaganda japonesa fez tudo para exagerar os estragos causados à indústria pelos bombardeios. Mas assim mesmo os algarismos grandemente diminuídos, publicados pelos japoneses, mostram que depois da guerra o Japão guarda ainda um potencial industrial muito considerável. A imprensa norte-americana já observou isso mais de uma vez.


A revista Far Eastern Survay (n.° 9, de 1946) declarava:


"Mesmos os japoneses reconhecem que possuem em suas quatro ilhas meios que ultrapassam sensivelmente o rendimento mais alto que jamais foi destinado à satisfação das necessidades da população do seu país".


A agencia Kyodo Tsushin anunciou que no dia seguinte à mensagem de Truman de 12 de março de 1947, assistira-se a uma nova atividade no mercado japonês. Depois das declarações do general Mac Arthur assistiu-se na Bolsa de Tóquio a fortes compras de ações das companhias Mitsubishi e Mitsui. A atmosfera dos meios comerciais e industriais "esclareceu-se". Yoshida, que até então havia ressaltado, em cada declaração pública, a situação "infinitamente penosa" da indústria japonesa, sentiu-se de repente cheio de otimismo. E ei-lo a anunciar que


"o ressurgimento da indústria poderá ser feito no decorrer de um ano depois de prescrita a questão das reparações".


Os meios governamentais de Tóquio saborearam as declarações do general Mac Arthur ao afirmar que o único meio de assegurar o abastecimento da população japonesa é o restabelecimento do seu comércio exterior. Está demonstrado cientificamente que o Japão pode se abastecer a si próprio sem importar gêneros alimentícios, com a condição de fazer uma reforma agrária profunda. Mas a classe governamental faz-se de surda. Ela quer fazer crer à opinião mundial que, sem a importação de víveres, o povo japonês ficará reduzido a morrer de fome. Essa propaganda dissimula o desejo da oligarquia japonesa de guardar suas posições econômicas e restabelecer o potencial de sua indústria de guerra. O argumento do comércio exterior permite que os consórcios japoneses manobrem para conservar a integridade da indústria pesada e da indústria de guerra.


Entretanto, os comerciantes e industriais japoneses não são os únicos que reclamam para o Japão o acesso ao comércio mundial. Os homens de negócio norte-americanos fazem a mesma coisa: querem ter o monopólio do mercado japonês. Um porta-voz oficial nipônico declarou recentemente que já se tinha recebido da América do Norte uma tal quantidade de algodão bruto que os filatórios japoneses não estavam em condições de utilizar. Desde agora, o comércio exterior do Japão alcança algarismos consideráveis. Mas ele teme um caráter muito unilateral, pois só se trata de transações com os Estados Unidos. As firmas norte-americanas asseguraram para si o monopólio das importações e exportações japonesas. Um deputado trabalhista, na Câmara dos Comuns, Rees-Williames, constatara recentemente, sem nenhum prazer, que em 1946 o Japão fora buscar todas as suas importações nos Estados Unidos, os quais, por sua vez, tinham comprado cerca de 70% das exportações japonesas.


Esse estado de coisas permite ao capital norte-americano penetrar cada vez mais profundamente na vida econômica japonesa — e subordiná-la. A primeira delegação comercial, integrada por Harri Morgan e Harry Mitchell, desembarcou no Japão logo que foi anunciada a dissolução próxima dos consórcios japoneses Zaibatzu. Desde então, não pararam as peregrinações dos açambarcadores de negócios transoceânicos ao Japão.


Os norte-americanos compram numerosas fábricas japonesas. O capital norte-americano deseja que o Japão se torne de novo o fornecedor dos mercados da Ásia. Reduzido ao papel de agente dos Estados Unidos, o Japão deverá frear o desenvolvimento da economia nacional na China, e nos outros países do Extremo Oriente para mantê-lo num nível de semicolônias. Por outro lado, deverá ajudar os Estados Unidos a expulsar dos mercados asiáticos os concorrentes, e, em primeiro lugar, a Grã-Bretanha. Em consequência da pressão financeira exercida sobre a Inglaterra, esta terá que renunciar a vender ao Japão o algodão da índia. As exportações crescentes de algodão norte-americano ao Japão podem dar como resultado que os artigos têxteis japoneses, vendidos a baixo preço, venham a fazer concorrência, com sucesso, aos produtos da indústria inglesa nos mercados do Extremo Oriente.


O programa econômico norte-americano relativo ao Japão, inspirado pelos interesses dos monopólios ianques, cria um terreno econômico propício ao renascimento do imperialismo japonês.


As Nações Unidas nunca tiveram intenção de despojar o Japão de toda indústria e de todo comércio. A declaração de Potsdam, em 1945, prevê a conservação da indústria pacífica e a participação do Japão no comércio mundial. Mas, para a solução deste problema, convém levar em conta antes de tudo os interesses da segurança internacional. E isto exige, bem entendido, a supressão das fontes econômicas de agressão japonesa.


As reparações que o Japão deve pagar são ditadas por um duplo objetivo: trata-se de suprimir o potencial de sua indústria de guerra e satisfazer, também, as exigências da mais elementar justiça. É preciso que os países que sofreram com a agressão japonesa recebam uma indenização legítima pelo prejuízo que lhes foi causado. Esta questão se apresenta com maior insistência, à proporção que nos aproximamos da preparação do tratado de paz com o Japão.


A mensagem de 12 de março de 1947, dirigida por Truman ao Congresso, e as declarações do general Mac Arthur, foram acolhidas com entusiasmo pelos reacionários japoneses. Eles se apressaram a assegurar às autoridades americanas que estavam prontos para


"participar na luta contra o comunismo no plano mundial".


Yoshida não ignora o papel que certos projetos de expansão norte-americana reservam ao Japão. Os partidários do "novo rumo" da política externa norte-americana concebem suas futuras relações com o Japão sob a forma de um tratado que reforce o domínio dos Estados Unidos sobre esse país, de maneira a transformá-lo num instrumento do imperialismo ianque, numa base de operações para a sua maior expansão no Extremo Oriente.


Quanto aos imperialistas nipônicos, esperam que a aliança com o imperialismo norte-americano poderá favorecer seus próprios projetos. Não é sem razão que Yoshida exprime o desejo de que as tropas norte-americanas fiquem no Japão, por um tempo indeterminado, depois da conclusão do tratado de paz.


Na China, como no Japão, os planos de expansão do imperialismo norte-americano estão dissimulados sob "slogans" anticomunistas. Na verdade, a política norte-americana, visando fazer recrudescer as forças agressivas do Japão e fortalecer a ditadura antipopular dos elementos feudais na China, está dirigida contra tudo o que poderia prejudicar a hegemonia mundial da América. Ela está dirigida, antes de tudo, contra as massas populares, cujos interesses vitais reclamam a consolidação da democracia e da paz.


Vê-se, pois, que o rumo atual da política norte-americana no Extremo Oriente, quer se chame "antigo" ou "novo", ameaça a paz e a segurança no Extremo Oriente.



por M. Markor


publicado na Problemas Revista Mensal de Cultura Política, de novembro de 1947.