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Mariátegui: "O Ocidente e a questão dos negros"



A moda dos temas negros na literatura e na música corresponde, politicamente, a um período de crescente interesse do Ocidente pelas demandas dos negros. Mas, enquanto a ascensão da cultura negra na música e na literatura é alimentada, na sociedade burguesa, por um sentimento de colonizadores amalgamado com o exotismo de uma cultura decadente, a atenção que encontra nos setores revolucionários e antirreligiosos. Na América a questão da raça negra obedece a uma verdadeira corrente internacionalista. Porque, como observa Stefan Zweig, cosmopolitismo e internacionalismo não devem ser confundidos. O cosmopolitismo não exclui minimamente o ódio aos povos e raças. É, simplesmente, a característica de uma ordem imperialista que aproximou as distâncias e multiplicou as comunicações, sem aproximar as nações ou coordenar intimamente. Paul Morand é um escritor cosmopolita. Não ocorreria a ninguém o classificar como internacionalista. Nada, no fundo, é tão parisiense quanto sua arte.


O Ocidente branco e capitalista aperfeiçoa e intensifica a exploração tradicional dos negros. Na grande guerra, as potências imperialistas da Entente usaram em grande escala o material humano que poderia ser fornecido por suas colônias negras. E hoje, a exploração do trabalho, consumo e produção dos negros foi desenvolvida tecnicamente em um grau implausível, nada mais natural do que a exploração de sua arte. O preto continua a fornecer material para a civilização branca. Diminuída, empobrecida, a fantasia artística dos europeus busca nos negros uma veia rica para a indústria literária e artística.


O Segundo Congresso Mundial Anti-imperialista, no qual os povos negros estavam visivelmente representados, dedicou muito de seu tempo ao estudo do problema desta raça. As conclusões votadas por este Congresso constituem, sem dúvida, a abordagem política mais avançada e completa da questão. É sabido que os próprios partidos socialistas da Europa, na época da Segunda Internacional, não incorporaram seriamente este problema às suas preocupações. A Segunda Internacional representou praticamente nada além de um movimento branco. A solidariedade do movimento socialista no Ocidente começa apenas com a história da Terceira Internacional, cuja união com as reivindicações dos povos coloniais não é um dos menores pretextos da burguesia ocidental para acusar a URSS de asianismo e barbárie.


Entre as votações do Congresso de Frankfurt que regularão as atividades das seções nacionais da Liga Anti-imperialista está a que repudia a utopia do “retorno à África”. Este movimento se caracteriza pelas respectivas conclusões do Congresso nos seguintes termos: “Garveyismo é um movimento nacional semelhante ao sionismo. Sua tendência é unir todos os negros em uma única nação que ocupa o continente negro, levantando esta demanda um preconceito no movimento geral das massas negras Inicia-se esta tendência de sentimento comunitário que nasce e renasce incessantemente entre os negros, causada por um lado pela opressão generalizada sofrida pelos negros em todo o mundo e, por outro lado, o propósito das classes negras possuidoras de usar esse sentimento em benefício de seus fins econômicos em sua competição comercial com os imperialismos”.


por José Carlos Mariátegui, publicado na Mundial, Lima, 6 de dezembro de 1929