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"Capitalismo + drogas = genocídio"


I. O PROBLEMA

Recentemente, na colônia negra do Harlem, uma criança negra de 12 anos foi assassinada por uma overdose de heroína. Em menos de duas semanas após isso, uma moça negra de 15 anos teve o mesmo trágico destino. No ano de 1969, em Nova York, houve cerca de 900 mortes resultantes do uso de drogas. Destes, 210 eram jovens que variavam dos 12 aos 19 anos. Dos 900, a imensa maioria eram negros ou portorriquenhos. Estima-se que existam pelo menos 25 mil jovens viciados em narcóticos em Nova York – e isso é uma estimativa conservadora.

O vício em drogas nos guetos colonizados dos Estados Unidos constituiu um grande problema nos últimos 15 anos. Seu uso é tão generalizado que podemos, sem medo de exagerar, nos referir a isso como uma “praga”. Alcançou proporções epidêmicas e é crescente. Mas a­penas nos últimos anos que o governo racista dos EUA considerou a dependência química “uma questão de grande preocupação”. É interessante notar que esta crescente preocupação por parte do governo é proporcional à proliferação da praga aos lugares sagrados das comunidades brancas de classes média e alta. Enquanto a praga era confinada ao gueto, o governo não parecia disposto a considerar isso um problema. Mas assim que os professores universitários, políticos demagogos, capitalistas financistas e industriais loucos por dinheiro descobriram que seus próprios filhos e filhas foram vítimas da praga, um “estado nacional de e­mergência” foi declarado. Isso é significativo, já que nos fornece pistas para a compreensão da praga que se refere ao povo negro.

Da Agência Federal de Narcóticos ao clero, dos membros da comunidade médica, educadores, psicólogos até os viciados quimicamente escravizados da esquina, as esperanças em efetivamente conter a propagação da praga são desanimadoramente nebulosas. Apesar das penas de prisão mais duras contra aqueles que a lei define como “comerciantes de drogas” (um eufemismo para capitalistas ilegais) existem agora mais traficantes do que jamais vimos antes. A praga prolifera apesar do número cada vez maior de programas de prevenção e reabilitação; ameaça devorar toda uma geração de jovens.

O simples motivo do porque a praga não pode ser parada pelos programas de reabilitação e prevenção é porque estes programas, com sua abordagem arcaica, burguesa-freudiana e suas comunidades terapêuticas fora da realidade, não trabalham com as causas do problema. Estes programas deliberadamente negam ou, na melhor das hipóteses, lidam de forma leviana com as origens sócio-econômicas do vício em drogas. Estes programas hipocritamente negam o fato de que a exploração capitalista e a opressão racial são os principais fatores que contribuem para a dependência química em relação aos negros. Estes programas nunca quiseram curar viciados negros. Não podem nem curar os dependentes brancos, que foi a tarefa que se incumbiu a eles.

Este governo fascista define a causa do vício como a importação da praga no país por traficantes. Eles mesmo admitem que é impossível evitar a entrada da praga no país. Para cada quilo de heroína que confiscam, ao menos 25 quilos passam batido pelos agentes alfandegários. O governo está bem ciente do fato que mesmo se conseguissem acabar com a importação de heroína, traficantes e dependentes simplesmente encontrariam outra droga para substituí-la. O governo é totalmente incapaz de dirigir-se para as verdadeiras causas da dependência de drogas, pois fazê-lo, seria necessário efetuar uma transformação radical da sociedade. A consciência social desta sociedade, seus valores, morais e tradições teriam que ser alterados. E isto seria impossível sem mudar totalmente a forma da propriedade dos meios de produção de riqueza social e sua distribuição. Apenas uma revolução pode eliminar a praga.

A dependência química é um sintoma monstruoso da malignidade que assola o tecido social deste sistema capitalista. A dependência de drogas é um fenômeno social que cresce organicamente a partir do sistema social. Todo fenômeno social que emana de um sistema social que está baseado em e dirigido por antagonismos de classe devem ser analisados a partir de um ponto de vista de classe.

II. ESCAPISMO E AUTODESTRUIÇÃO

No que tange o povo negro, nossos problemas são agravados e assumem dimensões alarmantes devido à desumanização racial que estamos submetidos. Para compreender a relação da praga com o povo negro, devemos analisar os efeitos da exploração capitalista e da desumanização racista.

O hediondo e sádico programa de devastar a humanidade do povo negro que começou cerca de 400 anos atrás por Senhores de escravos sedentos por dinheiro e que continua inabalável até os dias atuais, deliberada e sistematicamente. Existe pelo motivo de justificar e facilitar nossa exploração. Já que a realidade da nossa existência objetiva pareceu confirmar as doutrinas racistas de superioridade branca e de sua antítese, a inferioridade negra, e já que falhamos no entendimento da nossa condição, internalizamos a propaganda racista dos nossos opressores. Começamos a acreditar que éramos naturalmente inferiores aos brancos. Estes sentimentos de inferioridade deram origem a um sentimento de autofobia que encontra expressão em padrões de comportamento autodestrutivos. A miséria do nosso sofrimento, a nossa sensação de impotência e o desespero criado dentro de nossas mentes criam uma pré-disposição para o uso de qualquer substância que produza ilusões eufóricas. Estamos inclinados a usar qualquer coisa que nos permita sofrer pacificamente. Desenvolvemos um complexo de escapismo. Este complexo escapista é autodestrutivo.

O imoral opressor capitalista-racista explora tais deficiências psicológicas e emocionais por tudo que lhes valha a pena. O opressor encoraja nossa participação em qualquer atividade que seja autodestrutiva. Nosso comportamento autodestrutivo e tendências escapistas constituem uma fonte de lucro para os capitalistas. Eles também, ao nos enfraquecer, nos dividir e nos destruir, reforçam a força do opressor permitindo que perpetue sua dominação.

A briga fratricida de gangues é uma manifestação direta de um padrão comportamental autodestrutivo. Também é uma forma de escapismo, na qual os jovens negros despejam sua raiva, frustrações e desespero ao invés de combater o verdadeiro inimigo. Religionismo patológico ou a devoção fanática em alguma religião é essencialmente escapista porque encoraja a vítima a concentrar sua atenção, energia e esperança de salvação e liberdade em cima de uma força duvidosa, mística. Desencoraja o confronto com as reais causas da nossa miséria e privação. Estimula o foco da nossa atenção em um castelo nas nuvens, ao invés de buscar mais conforto aqui no planeta Terra. Também serve como fonte de lucros para charlatões religiosos, pastores e pregadores que exploram isso.

O alcoolismo é, também, autodestrutivo e escapista. Também é outra fonte de enormes lucros para os capitalistas. O surpreendentemente elevado número de bares e lojas de bebidas nas comunidades negras testemunha este trágico fato. A indústria capitalista de bebidas pode prosperar só com os negócios que faz nos guetos negros.

III. O VÍCIO EM HEROÍNA

A atividade mais autodestrutiva e escapista para nós e uma das mais lucrativas para os capitalistas e, portanto, a mais encorajada por eles, é a dependência química, principalmente o vício em heroína.

Mais ou menos em 1898, um químico alemão descobriu diacetilmorfina, a heroína. Foi saudada como a droga perfeita para curar viciados em morfina. Mas logo se tornou visível que era mais viciante que a própria morfina. Em meados dos anos 20 existiam viciados que estavam injetando heroína diretamente em suas veias. A produção de heroína nos Estados Unidos foi interrompida e a droga não era mais usada como antídoto para dependência de morfina e como analgésico.

O vício em heroína, a praga, flagelo das colônias negras da Babilônia. A praga, cujo poder de destruição das capacidades espirituais, morais, psicológicas, físicas e sociais excedeu em muito a de qualquer doença já conhecida pela humanidade. A praga, ópio da Turquia, enviado para Marselha, convertido em base de morfina, em seguida, transformado em heroína, contrabandeado para a América, cortada, diluída, em seguida, colocada no gueto negro. A praga, venenosa, letal, substância em pó branco, vendida por feras imorais loucas por dinheiro, para jovens negros que estão desesperadamente procurando algo para relaxar, um meio, qualquer coisa que os ajude a torná-los alheios à sua miséria, à pobreza abjeta, doença e degradação que os traga sua existência diária.

Inicialmente a praga faz apenas isso. Sob sua sinistra influência, a opressora, repugnante prisão do gueto é transformada em quase que um Valhalla negro. O usuário se torna insensível ao mau cheiro rançoso de masmorras de cortiços encharcadas de urina, não afetado pelos gritos penetrantes de angústia dos companheiros negros levados à beira da loucura por um sistema social sádico. Não afetado pelo grito ensurdecedor das sirenes dos carros dos porcos policiais enquanto estes rasgam as ruas do in­ferno negro, respondendo uma chamada de outro porco policial que está em um estado de sofrimento merecido. Não afetado pelas latas de lixo que carregavam o lixo decadente, portador de doenças que jogaram nas ruas do gueto.

Sim, sob sua influência em êxtase, o usuário se torna alheio à feia realidade. Mas tem algo em troca, uma trapaça cruel e monstruosa, uma traição mortal esperando sua jovem, ingênua vítima, pois, quando a beleza ilusória dos efeitos induzidos pela heroína começa a desaparecer, cor­respondentemente, esta imunidade temporária da realidade alcançada sob o seu trance químico desaparece. A realidade que a vítima patética lutou tão desesperadamente para fugir, novamente volta para engolí-la. O mau cheiro rançoso das masmorras dos cortiços encharcados de urina começa a atacar suas narinas. Os gritos negros de angústia parecem misturar-se com as sirenes dos carros dos porcos-policiais. Agora as escutam, em alto e bom som esteorofônico. E sente por debaixo dos pés aquele lixo que percorria as ruas, dos lixos não coletados.

A jovem vítima não demora para descobrir que apenas tomando outra dose, será capaz de encontrar seu refúgio daquela realidade hedionda. Cada pico da praga injetado em seu sistema sanguíneo o leva mais próximo da sua tumba. Logo está dependente, viciado. Psicologicamente e fisiologicamente dependente da praga. Tanto seu corpo quanto sua mente se tornaram viciados em heroína. Agora se tornara um membro de carteirinha, em tempo integral deste mundo das drogas. Seu corpo passa a assumir uma aparência destruída. A desconsideração descarada é evidente em suas roupas. Sua camisa está suja e seus sapatos sem sola, deixando-o a andar praticamente em seus pés nus, não importa. Que o seu corpo sujo agora emite um odor mais sujo o perturba, mas pouco. Que seus amigos não-viciados agora o evitam e olham para com desprezo, não importa, pois, os sentimentos são mútuos. Não têm mais nada em comum. Tudo não importa. Tudo, exceto a heroína, a praga.

Enquanto prossegue esse caminho, seu corpo começa a desenvolver uma imunidade à droga. Agora, a fim de atingir o anterior grau de êxtase, deve aumentar a sua dosagem. Isso significa que deve ter mais dinheiro. Agora, escravizado, deve fazer qualquer coisa para um “pico”. Mentir, roubar, enganar, furtar, não são nada para ele. Tudo que precisar fazer por um “pico”, ele fará, por ser um escravo da praga.

O ciclo vicioso tortura. Ele viola o que a classe dominante define como a lei para conseguir dinheiro para alimentar sua doença. Inevitavelmente será pego e preso. Vai para a cadeia, e após ter cumprido sua sentença, solto. A primeira coisa que ele quer é um pico. O ciclo segue.

E mergulha cada vez mais fundo no poço abismal da degradação. E lá, sempre lá e sempre dispostos, por um preço, é claro, para atender a demanda do viciado em drogas estão os traficantes, fornecedores de veneno, distribuidores de morte, sem piedade, canalhas assassinos, terríveis capitalistas, vendedores de morte no plano de parcelamento, os empurradores de narcóticos, o homem da praga.

IV. CAPITALISMO E CRIME

O tráfico de drogas é, sem dúvidas, um dos empreendimentos capitalistas mais lucrativos. Os lucros chegam aos bilhões. Internacional e nacionalmente, a venda e distribuição de heroína é controlado em última instância pela Cosa Nostra, a máfia.

Muito dos lucros acumulados dos comércios de drogas é usado para financiar comércios chamados de legítimos. Estes comércios legítimos que são controlados pela máfia também são usados para facilitar suas atividades de venda de drogas. Dado o fato que crime organizado é uma forma de comércio que se expande a cada ano, constantemente buscam novas áreas de investimento para aumentar seus lucros. Consequentemente, mais e mais lucros ilegais são canalizados em comércio legítimo. As parcerias entre a Máfia e “capitalistas com boa reputação” estão na regra geral do dia. Existe uma relação direta entre capitalistas legítimos e os ilegítimos.

Ao longo dos anos, vários políticos e embaixadores estrangeiros e capitalistas bem ricos foram presos neste país por atividades com drogas. Outros, por causa da sua riqueza e influência, foram capazes de evitar a prisão. No outono de 1969, descobriram que um grupo de importantes financistas de Nova York estavam financiando uma operação internacional de vendas de drogas. Nenhum dos acusados foi preso. Logo depois um grupo de grandes capitalistas da América do Sul foi preso em um Hotel de luxo em Nova York com cerca de $10 milhões em drogas.

Por conta da natureza voraz e predatória dos capitalistas, não deveria ser nenhuma surpresa que os ditos capitalistas legítimos estão profundamente envolvidos no tráfico de drogas. Capitalistas são motivados por uma sede insaciável por lucros. Farão qualquer coisa por dinheiro. As atividades de crime organizado e os “legítimos capitalistas” estão tão indissociavelmente ligados, tão completamente entrelaçadas, que a partir de nosso ponto de vista qualquer distinção entre elas é puramente acadêmica.

A legitimação da Máfia, sua ênfase crescente em investigar e estabelecer corporações, foi acelerada pelas penas mais duras sendo dadas à vendedores de drogas. Em Nova York, isto resultou no afastamento gradual da Máfia da sua posição de liderança do tráfico de drogas de Nova York. O tráfico em Nova York agora é dominado por exilados cubanos, muitos antigos militares e policiais no regime pré-revolucionário repressivo de Batista. Se igualam à Máfia em crueldade e ganância.

Estes novos chefões do tráfico criaram uma ampla rede internacional de operações de contrabando. Utilizam as rotas de mercado tradicionais e criam novas, como indica o aumento do número de confiscos do Narcotics Bureau de drogas vindo da América do Sul.

O conceito de Black Power influenciou o pensamento de cada segmento da comunidade negra. Passou a significar o controle negro das instituições e atividades que se centram na comunidade negra. Professores negros demandam o controle das escolas dos guetos pela comunidade negra. Comerciantes e capitalistas negros defendem a expulsão dos capitalistas brancos do gueto para que possam maximizar seus lucros. Bicheiros negros estão exigindo controle total dos jogos do bicho ali. E traficantes negros estão demandando o controle da heroína da comunidade. É trágico que em Nova York, os maiores lucros no âmbito da comunidade negra foram realizados por gangsteres, bicheiros e traficantes, os capitalistas ilegais negros.

Até uma 1967, era quase impossível achar um traficante negro que carregasse mais do que 3 quilos de heroína a qualquer hora. Ninguém ouvia falar de importadores negros independentes. Agora, existe toda uma classe de negros que se tornaram importadores, usando a lista da Máfia de fornecedores das conexões europeias.

A crescente e imediata taxa de lucros colhida da indústria de drogas poderia causar inveja para a U.S. Steel, General Motors e a Standard Oil. Do mais alto nível para o menor, os lucros são absurdos. Se o indivíduo é suficientemente ambicioso, astuto, implacável e cruel, pode se formar de vendedor ambulante de rua para grande traficante e distribuidor em um curto espaço de tempo.

Um aspecto típico da opressão de classe e racial é a política das classes dominantes de operar lavagem cerebral nos oprimidos para que aceitem sua opressão. Inicialmente, este programa é realizado ao implantarem medo nas mentes e plantando as sementes de inferioridade nas almas do oprimido. Mas a medida em que as condições objetivas e correlação de forças se tornam mais favoráveis para o oprimido e mais adversas para o opressor, se torna necessário para o opressor modificar seu programa e adotar métodos mais sutis e tortuosos para perpetuar seu domínio. O opressor tenta afetar o psicológico do oprimido combinan­do uma política de repressão brutal como gestos espetaculares de boa vontade e vontade de prestar serviços.

Como o povo negro abandonou as táticas não-funcionais e ineficazes da era dos “direitos civis” e agora resolveram alcançar sua libertação há muito esperada por quaisquer meios necessários, se tornou necessário para o opressor implantar suas forças de ocupação na colônia negra. O opressor, particularmente em Nova York, percebe que isto não pode ser feito abertamente, sem intensificar o fervor revolucionário do povo negro na colônia. Portanto, um pretexto é necessário para colocar mais policiais no gueto.

E qual o pretexto? Segue assim: líderes comunitários negros responsáveis nos informaram, e seus relatórios concordam com as conclusões da polícia, que a comunidade negra é devastada pelo crime, assaltos, roubos, assassinatos e caos. As ruas não são seguras, comércios são infestados por assaltantes a mão armada, os mercados não podem funcionar. A prefeitura concorda com os moradores negros que a principal causa para esta ter