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A Ideia Juche e a Revolução Coreana



“Os revolucionários devem ter como máxima de suas vidas e de suas lutas, a verdade de que se confiam e se apoiam no povo, sempre se sairão vitoriosos, porém se são repudiados por ele, sofrerão mil derrostas.” Kim Il Sung

É necessário notar que, mesmo entre comunistas, pouco se comenta sobre a experiência socialista coreana. Soma-se a falta de informação com o preconceito ideológico das classes dominantes e muita coisa deixa de ser explicada corretamente. Não é difícil encontrarmos militantes socialistas e comunistas defendendo a posição ideológica do imperialismo, de que a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) vive sob uma “ditadura-monárquica” brutal. A experiência norte-coreana deve ser analisada à luz do materialismo-histórico, tendo em vista que a revolução coreana é parte da revolução proletária mundial e que representou um papel importante na luta transformadora do século XX. As forças revolucionárias precisam – urgentemente – recuperar sua autonomia ideológica, rompendo definitivamente com os preconceitos difundidos pela ideologia dominante do imperialismo. O que é Ideia Juche? A ideologia oficial do partido governante da RPDC, o Partido do Trabalho da Coreia (PTC), é a Ideia Juche. A Ideia Juche foi desenvolvida por Kim Il Sung, líder da revolução coreana e fundador do Partido do Trabalho da Coreia. De acordo com os comunistas coreanos a superioridade da Ideia Juche consiste no fato de que, indicando a posição e o papel do homem no mundo, esclarece-se de maneira mais científica a forma como o homem forja o seu destino. O problema fundamental da filosofia deixa de ser a relação entre o pensar e a existência e passa a ser entre o mundo e o homem. Segundo os atuais dirigentes comunistas coreanos, a Ideia Juche não é apenas o marxismo-leninismo adaptado à realidade coreana, mas sim uma nova ideologia, superior ao próprio marxismo. É o socialismo científico alçado a outro patamar. Nas palavras de Kim Jong Il, principal líder da RPDC:

“Se o marxismo criou pela primeira vez a concepção revolucionaria de mundo da classe trabalhadora, a ideia Juche a aperfeiçoou, desenvolvendo-a à uma etapa superior.”

Em suas memórias Kim Il Sung nos revela que durante a luta revolucionária “sua doutrina”, “seu credo” foi o chamado “iminwichon”, que significa considerar o povo como o centro de tudo. O principio básico da Ideia Juche é de que as massas populares são donas do mundo e de seu próprio destino. A RPDC foi fundada em um período de ascensão do movimento revolucionário, mais precisamente no ano de 1948, um ano antes da fundação da República Popular da China. Assim como as demais revoluções que triunfaram na Ásia a defesa da dignidade nacional estava em primeiro plano. Para os comunistas coreanos só poderia existir defesa da dignidade nacional se tal luta estivesse ligada organicamente com a luta pelo socialismo. Só quem viveu aquele sombrio período pode relatar com precisão o que era viver em um país ocupado pelo imperialismo japonês. As feridas deixadas pela invasão japonesa, e mais tarde, pela guerra promovida pelo imperialismo norte-americano ainda sangram e mexem profundamente com o emocional dos coreanos. Vale lembrar que o país asiático onde mais ocorrem protestos contra os Estados Unidos é justamente a Coréia do Sul.

Patriotismo, Nacionalismo e Comunismo: alguma contradição? Uma das grandes polêmicas que perduram dentro do campo das forças revolucionárias até os dias de hoje é o da possibilidade de relacionar ideais nacionalistas com ideais comunistas. As revoluções de libertação nacional, que eclodiram na Ásia e África, demonstraram empiricamente que a Questão Nacional é o elo que liga as massas populares dos países subjugados pelo domínio econômico e militar do imperialismo ao socialismo. Contudo, para não gerar confusão, acredito que seja necessário distinguir os dois tipos de nacionalismo; aquele professado pelos imperialistas, que legitima agressões, invasões e espoliações, e o nacionalismo popular das massas de países subjugados, que defende os interesses da nação contra os invasores e a exploração imperialista. Em suma, trata-se de dois conceitos diferentes de nacionalismo: o da burguesia e o das massas oprimidas. No texto, para compreender corretamente o Nacionalismo, Kim Jong Il chama a atenção e expõem a necessidade de se diferenciar o “verdadeiro nacionalismo” do “nacionalismo da burguesia”. Para ele o nacionalismo burguês se manifesta como “egoísmo nacional”, “exclusivismo” e “chauvinismo de grande potência”. Essa afirmação não é nenhuma novidade dentro do movimento comunista internacional, mas mesmo assim alguns países socialistas chegaram a cometer esse desvio. Para os comunistas coreanos os grandes clássicos do marxismo-leninismo não deram respostas suficientes a respeito do sentimento nacionalista, devido ao grande combate que a teoria revolucionária travou contra esta ideia, isso permitiu que não se tratasse corretamente esse aspecto da teoria. Kim Jong Il afirma que:

“O nacionalismo não está em contradição com o internacionalismo. Internacionalismo é ajuda apoio e solidariedade entre os países e nações (...) Para dizer a verdade, um internacionalismo à margem da nação e divorciado do nacionalismo não significa nada.” Outro exemplo clássico de junção de ideais nacional-patrióticos e comunistas é o caso do Vietnã. Ho Chi Minh, um dos maiores revolucionários da história, disse certa vez que teria sido o patriotismo, e não o comunismo, que o levou acreditar em Lenin e na 3ª Internacional. Levando em consideração que, em países subjugados pelo imperialismo, podem fazer parte do que chamamos de “massas populares” várias classes sociais diferentes (operários, camponeses, pequena-burguesia, burguesia nacional) é necessário que os comunistas compreendam que a sua concepção de nacionalismo e patriotismo se difere da concepção burguesa. Analisando o caso coreano, muitos setores da burguesia nacional acreditavam que após a libertação da pátria, o que deveria ser feito era a restauração da velha monarquia, ou alguns, nutrindo esperanças reformistas, acreditavam que o caminho correto a seguir era o da construção do capitalismo. Porém, os fatos demonstram que somente os comunistas poderiam levar a luta revolucionária do povo coreano até o fim, defendendo um nacionalismo-popular de caráter revolucionário. Os países asiáticos que realizaram revoluções socialistas e depois resistiram à queda do campo socialista não abriram mão de seu caráter internacionalista. É um principio de classe inerente à ideologia comunista, mas ao mesmo tempo não podem abrir mão de seus interesses nacionais, tendo em vista que o imperialismo ainda ameaça a independência dos povos no mundo e principalmente a soberania desses países. Basta analisarmos o apoio que os Estados Unidos deram, e ainda dão, aos separatistas tibetanos e Dalai Lama, na luta pela desestabilização da República Popular da China. Lembrando que a questão nacional se faz presente em amplos países do chamado “Terceiro Mundo” e não somente dos países socialistas que ainda existem. Acredito ser necessário abordar mais um problema, que nos leva a defender a ainda presente centralidade da questão nacional na revolução coreana. Devemos levar em consideração que a Coreia é um país ocupado e dividido. A RPDC sofre não somente um poderoso bloqueio econômico, mas também militar. O risco de uma possível guerra ainda é uma realidade na vida do povo. Após o término da guerra da Coreia, nenhum tratado de paz entre Estados Unidos e Coreia Popular foi assinado. Incentivar o sentimento patriótico é uma maneira de estimular o espírito das massas no combate ao imperialismo e na resolução do problema da reunificação da pátria. O problema da reunificação da pátria só será devidamente solucionado quando as tropas americanas deixarem o sul da península, para que o próprio povo coreano cuide dos problemas relevantes a sua reunificação nacional pacifica.

Movimento comunista coreano e a luta pela libertação da pátria O triunfo da Revolução de Outubro trouxe novos ventos para o mundo todo e na Ásia, obviamente, não foi diferente. Na época a Coreia se encontrava sob ocupação japonesa e a luta pela libertação nacional era a principal bandeira de luta dos progressistas coreanos. Foi nesse cenário que começou o surgimento de pessoas adeptas aos ideais comunistas, tendo em vista o declínio do nacionalismo burguês. Antes mesmo do triunfo da revolução russa, foi fundada na Coreia uma organização chamada ANC (Associação Nacional Coreana). Era uma organização clandestina que tinha como objetivo promover a libertação do país e construir um Estado “soberano” e “civilizado”. A