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"A Comuna de Paris (1871)"



Em 18 de Março de 1871, estava Paris cercada havia seis meses, corriam mulheres e mães de madrugada a tomar o seu lugar nas filas para as poucas padarias onde ainda se podia comprar pão, ouviram-se tiros em Montmartre. Correram para lá, apenas para verem soldados franceses cumprindo as ordens dos seus oficiais, ordenando-lhes que levantassem da colina de Montmartre os canhões pagos com fundos recolhidos entre os operários de Paris e guardados por trabalhadores armados, membros da Guarda Nacional, armas que tinham defendido a cidade dos invasores prussianos.


As mulheres ajudaram a levantar os homens e reuniram o povo da cidade. O povo de Paris estava amargamente indignado. Tentar desarmar a Guarda Nacional quando Paris estava cercada pelos Prussianos e tirar aos defensores da cidade os seus canhões era um ato declarado de traição nacional.


Destacamentos da Guarda Nacional e do povo de Paris pegaram então em armas contra as tropas governamentais. Alguns dos soldados recusaram-se a disparar sobre os seus irmãos e passaram para o lado do povo, enquanto os restantes foram obrigados a retirar-se. A revolta popular alastrou imediatamente, envolvendo bairro após bairro. Por volta do meio-dia era evidente que o povo ganhara. Louis Adolphe Thiers, então chefe do governo, fugiu da cidade revoltosa numa carruagem com as cortinas descidas e escoltado por polícias montados. Uma bandeira vermelha foi hasteada na Câmara.


No dia seguinte, Domingo, dezenas de milhares de parisienses dos bairros operários encheram as avenidas, praças e ruas da cidade. Gargalhadas, canções e gritos de alegria encheram o ar nesse dia quente e soalheiro de Primavera. O povo tinha boas razões para se regozijar — pela primeira vez tinha-se tornado senhor do seu próprio destino.


Entretanto, os bairros ocidental e do sul da cidade que estavam mais próximos de Versalhes apresentavam um quadro muito diferente. Fervilhavam pessoas, cavalos e carruagens. Pilhas de bagagens estavam a ser atadas com cordas e içadas para carruagens cheias de malas, trouxas e sacos, pois os ricos, a aristocracia, os oficiais a cavalo e os seus relutantes homens empurravam-se uns aos outros cheios de pânico fugindo da capital.


Os soldados da Guarda Nacional e as mulheres e filhos dos pobres riram com gosto ao ver estes senhores, que ainda na véspera eram tão dignos e arrogantes como de costume, apressando-se a emalar os seus belos fatos antes de fugirem da cidade. Os operários e as suas famílias brindaram, contentes, por vê-los pelas costas. Sem eles, Paris era um lugar mais alegre e saudável — um novo capítulo da história da cidade tinha começado e era o povo que ia vivê-lo. Pela primeira vez na história a classe operária tomara o Poder nas suas mãos.


As Circunstâncias Históricas que levaram à Comuna de Paris


Esta vitória do proletariado de Paris em 1871 não foi um acontecimento fortuito. Acontecimentos políticos anteriores e a experiência da luta de classes dos operários desde a Revolução de 1789 tinham preparado o caminho para esta vitória.


O proletariado industrial tinha surgido com a introdução da maquinaria na indústria e aumentara com o desenvolvimento da produção capitalista. Foram as condições de vida, na prática intoleráveis, que levaram os operários a travar a luta de classes. Recebiam uma pequena quantia para a alimentação por trabalharem 14-16 horas por dia, o que significava que eles e as suas famílias estavam condenados a uma vida de fome e constantes privações. A luta que os operários vinham travando desde o início do século XIX era uma luta a que não podiam deixar de aderir — não se podiam reconciliar com a monstruosa existência que os seus senhores capitalistas os obrigavam a levar. No entanto, os operários, naquela fase, ainda tinham pouca experiência de luta de classes, não sabiam bem que métodos utilizar para transformar o injusto sistema social que lhes trouxe tanto sofrimento. Esta falta de consciencialização levou-os a cometer muitos erros e a sofrer frequentes derrotas.


Entretanto, esta experiência de reveses e derrotas trouxe consigo uma maior maturidade da consciência de classe. Um grande progresso fora já feito desde as primeiras e espontâneas expressões de ódio de classe no início do século XIX, quando os trabalhadores manifestaram a sua fúria destruindo máquinas, até à inauguração da primeira organização internacional de trabalhadores —