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Jango: como, quando e porque se depõe um Presidente



JANGO – Nacional. Direção de Silvio Tendler, com roteiro de Maurício Dias. Trilha sonora de Milton Nascimento e Wagner Tiso. Gênero: Documentário de longa-metragem. Ano: 1984.


Na primeira metade da década de 1980, ao passo em que irrompiam os movimentos de massa que clamavam pelo fim da Ditadura Empresarial-Militar de nosso País, o documentário Jango, de Silvio Tendler, resgatava as memórias dos grandes embates do povo trabalhador contra o regime fascista nos idos dos anos 1960. Antes disso, o roteiro remonta os primeiros passos de João Belchior Marques Goulart (o Jango) na política, desde quando fora eleito presidente do PTB em São Borja-RS, sua cidade natal, passando pelo momento em que aceitou o cargo de Ministro do Trabalho no governo de Getúlio Vargas, em 1953, chegando até a sua ascensão como vice-presidente, entre 1956 e 1961. E, obviamente, a narrativa acompanha de perto todos os acontecimentos políticos compreendidos entre a sua escalada à presidência da República, em 1961, até a preparação e arremate do Golpe Militar, em 1º de abril de 1964, que o depuseram.


A película, narrada pelo saudoso José Wilker e com trilha sonora dos mineiros Wagner Tiso e Milton Nascimento, ainda traz os valorosos depoimentos de Denize Goulart – filha de João Goulart –, de Gregório Bezerra, Francisco Julião e do jornalista Marcos Sá Corrêa – este último revela informações sobre a operação Brother Sam: a atestação do envolvimento ianque com o Golpe.


O slogan do filme à época – “Como, quando e por que se derruba um presidente?” – resume bem os intentos do diretor. O documentário constitui, de fato, o quadro de uma época: a partir de sua abordagem – a trajetória de Jango –, Tendler faz uma fidedigna análise da conjuntura política e econômica daquele Brasil. Ainda nos anos 1950, a pressão imperialista se avolumava desde quando Vargas, figura de expressão nacionalista, passou a esposar as teses de exploração estatal do petróleo. Via IPES (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais) e IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), o imperialismo colonizava as fontes de informação, fazendo com que boa parte da mídia burguesa, congressistas e acadêmicos, teleguiados por Washington, propugnassem por pautas desnacionalizantes e entreguistas – trocando em miúdos: armava-se o cenário pré-Golpe de Estado. A blitz publicitária contra Vargas tomou vulto e, depois do atentado contra Lacerda, como sabemos, o seu fim foi calamitoso. O suicídio de Vargas – ao menos – frustrou as tentativas de Golpe que se articulavam pelos rincões do Estado burguês-latifundiário brasileiro, o que serviu para reanimar velhos ânimos nacional-democráticos. Foi neste quadro que se deu a ascensão de João Goulart, que, primeiro como vice-presidente de JK, mostrou-se pró-políticas democratizantes e de maior participação do proletariado e do campesinato na vida política brasileira.


Depois da renúncia de Jânio Quadros, a caserna viu a oportunidade perfeita para rearticular o projeto de ruptura. João Goulart, vice de Jânio (por conseguinte, o primeiro na linha de sucessão presidencial), à essa altura estava na República Popular da China, em missão diplomática que contrariava, ao mesmo tempo, os reacionários brasileiros e o imperialismo estadunidense – pró-cerco ideológico e econômico contra os países socialistas. Estava posta a nova contenda: os militares se colocaram contra a posse de Jango, ameaçando inclusive derrubar o seu avião que retornava do Oriente; Brizola, então governador do RS, ao saber da ingerência verde-oliva, organizou uma resistência popular – conhecida como Campanha da Legalidade – em prol do cumprimento do que mandava a Constituição, a saber, a posse de Jango. Com poderes limitados, e cada vez mais sob a mira de baionetas, João Goulart assumiria a presidência daquele Brasil marcado por uma crise política sem precedentes.


E o resto é (triste) História: com parcelas do povo psicologicamente preparadas pela mídia reacionária, os militares voltaram à carga e, sob o pretexto de que Jango se aproximava cada vez mais do “comunismo” (anote-se: o presidente queria implementar reformas de base nos setores educacional, fiscal e agrário; reformas com anseios democrático-burgueses, que passavam ao largo de qualquer proposição socialista ou comunista, mas que se chocavam com os interesses de Washington), aplicaram um Golpe de Estado, à 1º de abril de 1964. Forçado ao exílio, Jango só pôde retornar ao País morto, dentro de um caixão, em 1976.


Silvio Tendler lançou mão de um manifesto político em forma de filme, uma vez que cravou na filmografia brasileira registro dos (ainda correntes) antagonismos – tanto entre o imperialismo e a nação oprimida quanto entre as classes sociais fundamentais de nosso país – que repontam a cada passo de nossa História, como repontaram durante os anos João Goulart. Um personagem que não fora um revolucionário, mas por levantar a bandeira de reformas estruturais de caráter democrático-burguês, foi golpeado pelas industriadas Forças Armadas, o que facultou ao imperialismo estrangeiro o domínio completo sobre a nossa nação. Numa apreensão crítica, a ausência de enfrentamento direto contra as forças reacionárias mediante a mobilização popular, por parte de João Goulart, deve ser entendida não como um “ato covarde”, e sim como a manifestação prática do caráter vacilante e inconsequente do nacionalismo burguês.

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