1/10

Posfácio da edição portuguesa de "Como a Europa subdesenvolveu a África"



Haverá formas concretas de superar o subdesenvolvi­mento, de forma a atingir um estágio de economia desenvol­vida? Esta questão absorveu, na última década, os esforços de muitos estudiosos. Professores universitários, economistas de renome, as Nações Unidas e as suas agências, as agências de desenvolvimento, os ministros da economia etc., dedica­ram-se ao problema. Realizaram-se muitas conferências in­ternacionais, promovidas por diversas entidades, enquanto têm sido publicado volumes de resoluções, guias de ação, do­cumentos de esclarecimentos e outros. A resposta final a esta pergunta tem sido negativa. Os países subdesenvolvidos con­tinuam subdesenvolvidos, aumentando o seu atraso em rela­ção aos desenvolvidos.

A acuidade da questão permanece. Será que valerá a pena repetirmos a atividade realizada ao longo da década? Ao que parece, estamos no mesmo caminho. Com o mesmo zelo e alarde que acompanhou a Primeira Década Econômica, as Nações Unidas iniciaram a segunda. Fez-se o mesmo apelo aos países desenvolvidos no sentido de serem caridosos e contribuírem com “1 % do seu rendimento nacional” para aju­dar os países subdesenvolvidos, como se a população do mundo condenasse a pobreza de forma a suscitar a caridade dos ricos! Se continuarmos nesta década a encarar o pro­blema da mesma forma, teremos no final o mesmo desapon­tamento.


O que está, afinal, errado? Será a própria natureza do subdesenvolvimento que determinará a impossibilidade do desenvolvimento? Entre as muitas soluções apontadas — cul­turais, sociais, psicológicas e até econômicas, não há ne­nhuma que tenha produzido resultados encorajadores. De fato, quase todas elas tiveram resultados negativos, tornando as más situações ainda piores. Vamos continuar as mesmas experiências, à custa das populações que, sejamos claros, so­freram com essas experiências no decorrer da década? Este o ponto em que todos os países em vias de desenvolvimento, especialmente os africanos, devem concentrar as suas inter­rogações. E, quanto mais cedo o fizerem, tanto melhor, pois temos pouco tempo antes de as nossas economias ficarem definitivamente distorcidas e de, provavelmente, serem tam­bém destruídas por qualquer falsa reconstrução.


Neste livro muito esclarecedor, o dr. Walter Rodney fornece-nos uma estimulante perspectiva para o abrir da dis­cussão, que poderá levar ao encontro da solução correta. Co­loca as questões básicas fundamentais relativamente à natu­reza do subdesenvolvimento e ao atraso econômico. Diferen­temente de muitos outros trabalhos dedicados ao mesmo as­sunto, que nas intenções dos seus autores continham uma visão metafísica, ainda que camuflada com uma terminologia científica o dr. Rodney adota o método do materialismo his­tórico, que nos ensina: “Para conhecermos o presente, deve­mos olhar o passado e para conhecermos o futuro devemos olhar o passado e o presente”. Este é um método científico, em que teremos a certeza, mais não seja, que as conclusões não serão afetadas por subjetivismos.


Torna-se claro, especialmente após a leitura do livro do dr. Rodney, que durante a última década colocámos ques­tões incorretas em relação ao atraso econômico. Não “olhá­mos o passado para conhecer o presente”. Disseram-nos e aceitamos, que a nossa pobreza era causada pela nossa po­breza, segundo a famosa teoria do “ciclo vicioso da pobreza”, e andamos à deriva procurando meios e forma de quebrar esse ciclo. Caso tivéssemos colocado as questões fundamen­tais que o dr. Rodney levanta neste livro, não teríamos ex­posto as nossas economias à pilhagem dos “investimentos estrangeiros” efetuada pelos criadores da teoria do círculo. Na verdade, os investimentos estrangeiros são a causa, e não a solução do nosso atraso econômico.


Não estaremos agora subdesenvolvidos devido a ter­mos sido, no passado, colonizados? Não há outra explicação senão o fato de praticamente quase todo o mundo subdesen­volvido ter sido direta ou indiretamente colonizado pelas me­trópoles. E o que é o Colonialismo senão um sistema de “in­vestimentos estrangeiros pelas metrópoles?” Se no passado contribuiu para o nosso subdesenvolvimento, não estará ainda hoje a contribuir para a mesma situação, ainda que o poder político esteja nas nossas mãos? Apresentada desta forma a questão do subdesenvolvimento, vislumbra-se muito mais apreensível, mesmo para os iniciados. E esta é a forma como o dr. Rodney apresenta diretamente as questões.


A conclusão inevitável é a de que os investimentos es­trangeiros não só contribuem para a deterioração da nossa economia, extraindo enormes benefícios como também pro­vocam danos mais sérios lançando a economia em um dese­quilíbrio que, caso não seja freado, se torna permanente. En­quanto continuamos, como fizemos durante séculos, a pro­duzir para o chamado “mercado mundiais”, que foi erguido sob o Colonialismo e a escravidão, a nossa economia conti­nuará a ser colonial. Qualquer desenvolvimento será mera­mente acidental, deixando a grande maioria da população completamente desligada da atividade econômica. Quanto mais insistimos nos ramos de exportação, de forma a atrair­mos o “mercado mundial”, mais distantes estaremos do de­senvolvimento do povo e, consequentemente, menos efetivo será o nosso esforço de desenvolvimento.


E, visto que este tipo de investimento não contribui para o desenvolvimento interno da base material e técnica, a nossa economia permanece elástica apenas para os interes­ses do mundo ocidental, não correspondendo às necessida­des do desenvolvimento interno. Esta é a razão pela qual, em­bora muitos dos nossos planos de desenvolvimento destinem fundos para os “projetos rurais”, estes retornam invariavel­mente aos projetos urbanos, acentuando a disparidade entre a cidade e o campo. Bairros de lata, desemprego, desajusta­mento social e, por fim, a instabilidade política, eis algumas das nossas mais marcantes características.

Quase que, sem exceção, os novos Estados indepen­dentes têm ignorado as necessidades fulcrais do desenvolvi­mento; em particular o fato de o processo de desenvolvi­mento, para ser realmente efetivo, tem de começar pela trans­formação da estrutura econômica colonial, unicamente virada para o aspecto externo, em uma economia centrada na dinâ­mica interna.


O nosso erro foi termos seguido cegamente as afirma­ções dos nossos exploradores. Essas afirmações podem ser brevemente resumidas da seguinte forma: o crescimento dos países subdesenvolvidos é entravado no crescimento insufici­ente das exportações, inadequados recursos financeiros in­ternos, sendo agravado pela “explosão populacional” nesses países. E a solução prescrita é: incrementem as exportações, aumentem a ajuda e os créditos dos países desenvolvidos e parem com o crescimento da população.


Nos anos da última década centrámos as mossas for­ças no cumprimento religioso da prescrição acima referida, e mesmo se a prática demonstra a incorreção, continuamos a aderir ainda mais fanaticamente a essa posição! A maior exi­gência parece ser um processo e descolonização mental, visto que, quer o senso comum quer a nossa experiência no campo econômico, contrariam fortemente essa perspectiva.


As experiências de outros países que optaram por ou­tra via, uma via de reconstrução econômica, nos educa imen­samente. Exemplifiquemos com a Coreia do Norte ou a Albâ­nia. Estes dois países eram subdesenvolvidos nos anos 50. Conseguiram atingir um brilhante progresso econômico por se terem afastado do chamado “mercado mundial”, diversifi­cando os recursos com o fim de criar uma forte base material e técnica.


O relatório “Associados no Desenvolvimento” elabo­rado pela cisão Pearson tem sido saudado, inclusivamente nos países subdesenvolvidos, como iniciador de uma nova era, uma espécie de ponto de viragem na cooperação interna­cional para o desenvolvimento. Mesmo se as suas recomen­dações fossem adoptadas e seguidas de imediato seria duvi­doso que trouxessem algum impacte para diminuir o fosso entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos. Isto, de­vido a ter evitado colocar a questão fundamental, nomeada­mente, “pode haver desenvolvimento quando a nossa produ­ção é determinada quase: exclusivamente pelo modo de pro­dução e consumo dentro da Europa capitalista e da América”?


Por outras palavras, o prejuízo da nossa economia, de­rivado da sua dependência face às exigências do mercado mundial, exigências nem sempre compatíveis com as neces­sidades do nosso próprio desenvolvimento, não irá afetar a nossa capacidade de possuirmos um crescimento autónomo, que é uma condição essencial para o nosso desenvolvimento?


Se colocarmos o problema desta maneira, é possível penetrarmos a cortina dos benfeitores internacionais e come­çarmos a compreender as causas reais do nosso subdesen­volvimento. Claro que seria esperar demasiado que pessoas como Pearson e outras de feição liberal, apresentassem a questão deste modo, considerado por elas como herético e subversivo.


Contudo, como dirigentes dos países em vias de de­senvolvimento, temos de adoptar esta metodologia, visto que temos nos nossos ombros a responsabilidade de avançar na via de desenvolvimento, cujo sucesso ou êxito afetará, de um modo ou de outro, o bem-estar material de centenas de mi­lhões de homens que constituem mais de dois terços da hu­manidade. Durante demasiado tempo permitimos que a sua esperança fosse determinada por um modo de produção que não é baseado na satisfação das suas necessidades, mas sim virado para os interesses externos, devido à submissão às re­gras de oferta e procura do chamado mercado mundial. Pre­paramos a sua educação de um modo tal que os “cérebros” que temos aprenderam a servir os mesmos interesses do mer­cado mundial, em vez de centrarem os seus esforços na cria­ção de uma base material interna, do que resultou um distan­ciamento ainda maior, sob o ponto de vista tecnológico, em relação aos países desenvolvidos. Aceitámos timidamente a chamada divisão internacional do trabalho, em nome das massas, e ao fazê-lo as condenamos à especialização em pro­dutos primários, cuja produção não permite nem o desenvol­vimento das técnicas científicas nem a introdução da indús­tria pesada, requisitos para o nosso verdadeiro desenvolvi­mento econômico.


A importância do livro do dr. Rodney advém do fato de se dirigir, muito corretamente, para as massas e não para os dirigentes, e pensamos que será um guia para elevar as ações massivas do povo. Na ausência de governantes empenhados, muitos países africanos foram presos fáceis da exploração mi­litar, de forma a que hoje os generais constituem a maioria dos dirigentes africanos. Isto sucede naturalmente quando os dirigentes políticos perdem o sentido das realidades internas, quando por consequência, desistem de encontrar soluções para os problemas do povo e começam a acumular riquezas para seu benefício pessoal. Nessa altura, a direção política tende a tornar-se cada vez mais “dirigista”, no setor estatal. A lógica e a razão tornam-se subversivas. E quando os políticos se convertem em comandantes, tornam-se também supér­fluos, pois ninguém melhor que o exército é capaz de impor?


Temos de admitir com tristeza que, salvo raras exce­ções, a África padece de dirigentes empenhados. Quando a Ásia e a América Latina produzem gigantes, como Mao, Ho, Che, que inspiram e galvanizam a imaginação não só dos seus compatriotas, mas também do resto do mundo, a África ape­nas fez nascer um Nyerere e o manteve no poder, enquanto assassinámos Lumumba e derrubamos ou exilámos dirigen­tes como Ben Bella e NKrumah, como resposta aos desejos dos imperialistas — nossos benfeitores, credores, patrões, do­nos e parceiros comerciais.


Com todo o devido respeito, é difícil imaginar, com uma ou duas honrosas exceções, que algum dos atuais diri­gentes africanos seja capaz de lutar pelos genuínos direitos do seu povo, sabendo que esses direitos colidem diretamente com os interesses do Imperialismo. E essa perspectiva é im­prescindível se quisermos cumprir plenamente os nossos de­veres de dirigentes, pois caso contrário não teremos o direito de impor as nossas decisões ao povo. Quando a maioria dos dirigentes no continente não se preocupa em resolver os pro­blemas mais prementes do povo, quando não se importam com as misérias das massas, estas não podem ficar à espera. É por esta razão que esperamos que o livro do dr. Rodney seja lido pelo maior número de pessoas possível, pois aparece em um momento em que, mais do que nunca, é necessária ação.


Depois de lermos o conjunto interminável de brutali­dades da escravidão, da opressão e da humilhação, quando todas as civilizações foram esmagadas de modo a servir os interesses imperialistas do Ocidente; quando sociedades es­táveis foram desagregadas pela força das armas dos imperia­listas, de modo. a que os fazendeiros do “Novo Mundo” pu­dessem enriquecer, servindo assim a força de trabalho per­manente para construir aquilo que agora é a sociedade capi­talista mais avançada, torna-se perfeitamente claro que a única via para o nosso atual impasse é uma via revolucioná­ria, que corte completamente com o sistema responsável por toda a nossa anterior e presente miséria.


O nosso futuro político deve ser encarado dialetica­mente. Se para conhecermos o presente é necessário olhar­mos o passado, para conhecer o futuro é necessário conhecer o passado e o presente. A nossa ação deve basear-se na nossa experiência concreta, e não nos devemos deixar embalar por desejos e esperanças metafísicas; esperando que o monstro que sempre nos explorou venha algum dia a transformar-se em carneiro; ele não o fará. Como disse Engels, “a liberdade não consiste em sonhar uma independência face às leis natu­rais, mas no conhecimento dessas leis... A liberdade de que­rer, por conseguinte, apenas significa a capacidade de tomar decisões com conhecimento do assunto”.


Nós conhecemos o objeto demasiado bem, e sabemos que é um monstro. Não teremos a capacidade de tomar uma decisão — agora que o livro do dr. Rodney nos fornece um co­nhecimento global do assunto?


É ao povo a quem compete responder.


Dar es Salam, Tanzânia

Dezembro de 1971


por Abdulrahman Mohamed Babu (1924-1996), Ministro do Governo tanzaniano





31 visualizações
JORNAL-BANNER.png
WHATSAPP-CANAL.png
TELEGRAM-CANAL.png