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A formação originária do Choro, sua etimologia e Joaquim Callado



Com a vinda da corte portuguesa ao Brasil, em 1808, forma-se uma elite luso-brasileira, cujo interesse cultural se caracteriza como contraditório em relação as expressões artísticas originárias aqui presentes. A exemplo da “música de barbeiros”, emergindo nas novas cidades e participando da vida citadina, do frevo nascendo na Bahia e do samba, aparecendo com as Tias Baianas, mães do originário gênero que depontava na praça onze do Rio de Janeiro, no início da República.


E quanto às origens do choro? Seria o choro um gênero musical burguês? Vamos analisar um pouco melhor isso.


O lundu é, talvez – junto a polca –, a maior influência na formação do choro; tem sua base na percussão por uma razão de ordem econômica: os instrumentos de percussão são de mais fácil manuseio artesanal. Sabe-se que é advindo dos negros da Angola e do Congo, e chega ao Brasil através dos negros escravizados, primeiro como uma dança, chamada não coincidentemente de “semba” por seus originários. Sua relação com o choro se dá com a modernização das principais cidades no Brasil, dinamizadas pela corrida do ouro, onde há um aumento populacional, fatores que proporcionaram o nascimento da “música de barbeiros”; assim, o lundu começa a adentrar na vida citadina se misturando às músicas europeias.


A polca foi o gênero mais explorado em terras brasileiras a partir do século XIX. Consistia num tipo de dança em que os corpos eram colados, por isso deu origem às primeiras marchinhas de carnaval, influenciando Chiquinha Gonzaga, que futuramente escreveria para o cordão Rosa de Ouro “Ó abre alas”. A polca cai em gosto popular, mais especificamente no Rio de Janeiro; o historiador André Diniz relata que a polca vem para deixar de lado os minuetos, quadrilhas e valsas da sociedade patriarcal, pois tem como base justamente sua dança de corpos colados.


A modinha é o gênero musical da época adotado pelo primeiro músico popular brasileiro, Domingos Caldas Barbosa, mestiço, que vai a Portugal para se tornar padre. Caldas Barbosa compunha modinhas e lundus de alta desenvoltura, diz o pesquisador Ary Vasconcelos. Ademais fora um sistematizador do gênero no final do século XVIII, relembra Diniz, relatando que os termos “modinha” e “chorinho” eram usados para designar a maneira de tocar as músicas em voga na época. Caldas Barbosa também é indispensável para entendermos o Choro atualmente, pois sua influência reverbera através do tempo. Vasconcelos afirma que somente em 1780 o lundu e a modinha se tornam populares, dando o “status” de vanguarda a Caldas Barbosa, que já compunha em Portugal há dez anos. Gilberto Freyre traz em seu livro Casa-Grande e Senzala relatos de modinhas que eram cantaroladas por mucamas, onde se notava a promiscuidade e os abusos patriarcal do sinhô-moço:


Meu branquinho feiticeiro,

Doce ioiô meu irmão,

Adoro teu cativeiro,

Branquinho do coração,

Pois tu chamas de irmãzinha

A tua pobre neguinha

Que estremece de prazer,

E vais pescar à tardinha

Mandi, piau e corvina

Para a negrinha comer.

A fofa, por sua vez, era um tipo de dança portuguesa. Vasconcelos cita Teófilo de Andrade para ressaltar que o samba nasce das fofas na Bahia, onde o gênero tem sua raiz mais forte. Relata também que a fofa executada na Bahia tem muito a ver com o fandango de Sevilha, além de possuir características muito parecidas com as chulas. Tinhorão, em História Social da Música Popular Brasileira, relata que os fandangos e as fofas eram as músicas das classes desfavorecidas de Portugal. Ao chegar ao Brasil, esses ritmos seriam adotados pelos brancos que mastigavam toda cultura europeia sem entender sua origem, não sabendo que, na verdade, estavam dançando o lundu. Como assevera Tinhorão “tal como o fandango e a fofa que, importados um da Espanha e outro do Brasil, se tornariam em Portugal 'dança nacional' das classes baixas, a estilização dos 'diversos movimentos do corpo' nos batuques de negros estava destinada a tornar-se a “dança nacional” dos brancos e pardos do brasil – sob o nome de lundu”.


O fado é também de origem lusitana. A partir do século XIX ganha desenvoltura e percorre as principais cidades do Brasil. Tem suas bases também na percussão, característica que se origina por ser influenciado pelo lundu e pelas modinhas. Vasconcelos lembra que o fado era uma palavra muito usada por Caldas Barbosa em suas composições. O autor resgata cirurgicamente em uma comédia brasileira de Martins Pena, de 1833, uma cena onde o dramaturgo carioca escreve: “Sr. Escrivão, ou toque, ou dê a viola a alguns dos senhores. Um fado bem rasgadinho...bem choradinho...”.


O tango brasileiro, que nada tem do argentino, tem sua etimologia no espanhol. Seria uma estilização do maxixe-polca. O primeiro compositor de tango brasileiro foi Henrique Alves de Mesquita, com sua composição “Olhos Matadores” (1871), mas é com Ernesto Nazareth que o gênero ganha volúpia e se populariza no Brasil Império, às vésperas da República. O tango brasileiro nada mais é do que uma forma de designar o que hoje conhecemos como choro. Em relação ao choro, gênero que nos interessa mais de perto, a citação de André Diniz é taxativa: "Era como se o tango brasileiro tivesse, aos poucos, se 'transformado' no choro. À medida que a palavra choro ganha um significado mais preciso, vai tomando o lugar da palavra tango”. Não à toa, Chiquinha Gonzaga, compositora do choro popularmente conhecido como “Corta-Jaca”, era por vezes denominada compositora de tangos. Contudo, pela ótica da revista “Zizinha Maxixe”, escrita em 1897, “Corta-jaca” era um maxixe-polca. Em entrevista reproduzida por Basílio Itiberê para o ensaio “Ernesto Nazareth na Música Brasileira”, o compositor diz que seu tango se originava das influências das polcas-lundus produzidas por Viriato, Callado e Sacramento.


Dito isso, é indispensável fazermos uma sucinta análise da etimologia da palavra choro. Existem inúmeras teorias. Vasconcelos, aponta que o termo deriva de uma corporação de músicos militares do início do Brasil Colônia, conhecida como choromeleiros, e com o passar do tempo o termo teria sido abreviado para choro. Uma outra aproximação etimológica é a do historiador José Ramos Tinhorão, onde este afirma que a origem da palavra designa a maneira de se tocar as baixarias das cordas do violão, sendo estas relacionadas à melancolia.


Para o pesquisador de choro Henrique Cazes, o termo usado tem ligação direta com a maneira com a qual os músicos populares da época tocavam as modas europeias; uma hipótese que se assemelha a de Tinhorão, apesar de Cazes não ver sentido nas questões das baixarias do violão, pois, naquela época, os violões não eram tão exuberantes em suas baixarias. Cazes lembra o folclorista Luís Câmara Cascudo, onde este afirma que o vocábulo vinha de xolo (festas organizadas por escravos), depois chamada de xoro, e à medida que a escrita avançava foi se acrescentando o ch, e por fim, escrita choro. Gilberto Freyre traz em livro um exemplo sobre a evolução da língua portuguesa: “O português do Brasil, ligando as casas-grandes às senzalas, os escravos aos senhores, as mucamas aos sinhô-moços, enriqueceu-se de uma variedade de antagonismos que falta ao português da Europa”.


Não se faz necessário dar continuidade à exposição dos outros inúmeros gêneros estrangeiros que formaram o choro, ou mesmo destrinchar em demasia a sua etimologia. Entendemos, pois, pelo o que foi apresentado até aqui e em consonância com a bibliografia especializada, que o choro é o pai de todos os ritmos urbanos brasileiros.


É importante dizer que o choro nasce do avanço das forças produtivas e das novas relações de trabalho. A estrutura no Brasil muda quando surgem as leis antiescravagistas e, consequentemente, a vida social e econômica do país. Isso nos traz fortes ventos liberais, e o Brasil se abre às grandes empresas, fazendo emergir novas classes sociais, além da produção de mercadorias nunca vistas pelos trópicos. É exatamente esse processo que irá formar os chorões, que se agrupavam em seus quintais para começar suas rodas à base de flauta, violão e cavaquinho. As interpretações musicais, ao sabor da cultura afro-carioca, eram o tempero para as audições nos “arranca-rabos” e cortiços das camadas populares, nos bailes de classe média.


Esses músicos pertenciam à pequena burguesia e ao proletariado urbano carioca – composto pelos primeiros operários das fábricas, pequenos comerciantes e funcionários públicos, formando novas classes sociais no Rio de Janeiro. Essa configuração social seria a responsável pelos avanços e pela consolidação do choro, “majoritariamente composta de afro-brasileiros, forneceu não só a mão de obra para o choro, mas também o público consumidor desse tipo de música” - conforme assevera Henrique Cazes.


No ano de 1870, com a morte de Marechal Solano Lopes, termina a guerra do Paraguai. Neste mesmo ano, surgiria no Rio de Janeiro o choro: aparecem os grupos instrumentais cariocas, levados por dois violões e um cavaquinho – uma evolução da música de barbeiros, aderindo depois a flauta e “constituindo-se aquilo que o Maestro Baptista Siqueira chamaria de quarteto perfeito ideal”. Mas para Cazes, o germe do que hoje conhecemos como choro, começou décadas antes. O autor diz: “não hesitaria em dar o mês de julho de 1845, quando a polca foi dançada pela primeira vez no teatro de São Paulo”.


Com o advento da República, em 1889, começa a florescer uma nova e genial geração de chorões. “A república importava, sem dúvida em dar alguns passos à frente na alteração de uma estrutura obsoleta”, afirma Nelson Werneck Sodré. Entre os anos de 1870 e 1919, segundo Vasconcelos, pode-se dizer que o choro vive, no Rio de Janeiro, a sua idade de ouro - muito por obra das Jazz-Bands ainda não terem irrompido em nosso cenário musical, com seus saxofones e baterias americanas.


Mas quem foi o primeiro chorão? Porque se delimita essa data de 1870? A historiografia aponta esta data-chave por conta de Joaquim Antônio da Silva Callado Jr, aquele que é considerado o “Pai” do Choro. Callado, nesse mesmo ano, teria montado o “Choro do Callado”, o primeiro conjunto de Choro do país. O “Rei” da flauta (como era chamado) foi da primeira geração de chorões; filho de um mestre de banda militar, nasceu em 1848, já respirando a música. Escolhe como sua companheira a flauta, e faz dela nascer uma nova maneira de entender a brasilidade nas músicas. Responsável pela introdução da flauta naquele tempo, Callado viveu no Brasil de Dom Pedro II. Aos quinze anos de idade compôs pela primeira vez, e, quando mais velho, tornou-se professor de conservatório. Em 1871, foi um dos primeiros a ler partituras nas rodas de choro, como nos conta Alexandre Gonçalves Pinto em seu livreto O Choro: Reminiscências dos chorões antigos. O Mestre Callado veio a falecer em 1880, devido a meningoencefalite, mas não sem antes deixar como o seu pupilo Viriato Figueira da Silva, aluno e amigo no conservatório de música. Quando também morre Viriato, a flauta ganha seu novo mestre e um dos grandes flautistas da música popular, Patápio Silva - um dos pioneiros nas gravações na Casa Edison.


Henrique Cazes, em seu livro Choro do quintal ao municipal, inicia a trajetória de Callado com a seguinte citação: “O desconsolo do deus Pã ao ver sua ninfa amada transformada em um caniço de bambu foi de tal ordem que, na falta de uma ideia melhor, ele resolveu soprar o tubo e acabou inventando a flauta”.


Por C.V.Z.O


Referências

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MARTINS, L. M. Em aproximadamente 1870 nasceu o Choro no Rio de Janeiro. Identidades do Rio. Rio de Janeiro: FAPERJ, 2020. Disponível em: http://www.pensario.uff.br/audio/1870-aproximadamente-1870-nasceu-choro-rio-de-janeiro. Acesso em: 20 de jun. 2020.

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TINHORÃO, J. R. Música Popular: um tema em debate. 3. ed. São Paulo: Editora 34, 1997. ______. História Social da Música Popular Brasileira. 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.

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______. Raízes da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Rio Fundo, 1991.

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