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"Cultura pré-hispânica e raças"



Estas generalizações preliminares obrigam, ainda que de forma sintética, a aflorar dois problemas: o das culturas pré-hispânicas e o da pressuposta inferioridade do índio americano, fator humano importante na composição étnica da América Latina.


Existem sérias presunções sobre a origem mongólica das raças americanas pré-colombianas e sobre a época relativamente aproximada em que tais migrações se produziram, durante o período interglacial. Essas migrações posteriores explicam o atraso puramente cronológico que os colonizadores portugueses e espanhóis encontraram. As raças indígenas do período da conquista, num grau de desenvolvimento histórico inferior – que foi comparado, ainda que o fato esteja sujeito a controvérsias, com o desenvolvimento dos gregos na época de Homero – mostram notáveis testemunhos de sua capacidade para a cultura. Não foi a superioridade racial do europeu a causa do seu domínio, porém a sua proeminência econômica, cultural e militar. Entre essas culturas pré-colombianas e as da antiguidade asiática e europeia, foram encontrados paralelismos surpreendentes. A América, no século XV, encontrava-se num estágio determinado da civilização humana, mas não paralisada, apesar da misteriosa decadência maia. Em estado de ativo desenvolvimento histórico, sobretudo pela então recente garantia que o império dos astecas oferecia, povo masculino num aparato de brilhante civilização. Tais analogias foram verificadas na organização econômica, política e militar, enquanto a arte ciclópica incaica e asteca atesta essa contribuição para uma civilização superior. A escrita lhes era conhecida, outro exemplo digno das altas civilizações. O desenvolvimento tecnológico não era desprezível, uma vez que na engenharia e nas matemáticas aplicadas era assombroso. Os incas conheciam os caracteres matemáticos e a balança, à exceção do México. A astronomia estava muito evoluída. O calendário solar maia era mais exato do que o gregoriano. As teogonias indígenas são equivalentes às asiáticas e europeias arcaicas. Mitos como a expulsão do paraíso ou de um salvador encontram-se entre os guaranis, etc. Há quem sustente que além do grego e do latim, o guarani é o idioma que mais contribuiu para a nomenclatura científica da botânica e o valor da farmacopeia vegetal indígena é reconhecido pela ciência moderna.


O pretenso atraso cultural da América provém de uma equívoca comparação com o século XVI europeu, ou seja, que os povos da América criaram as suas civilizações dentro de sua temporalidade, em atraso com relação à Ásia e à Europa, que já haviam deixado para trás essas fases históricas. Para os egípcios da época de Homero, os gregos eram bárbaros, e como tal os viam. Em nosso tempo, o exemplo do Japão e sua passagem vertiginosa do feudalismo para a industrialização refuta essas teorias associadas ao preconceito da superioridade ou inferioridade das raças humanas. Não há raças superiores, senão em graus diferentes, dentro da evolução histórica. Não é uma raça que vence a outra, como a seu tempo sustentava Gumplowicz, porém culturas mais avançadas do que outras. Os testemunhos dos séculos XVI e XVII, quando o Paraguai era uma nação cultural, posteriormente arrasada durante o século XIX por uma guerra impiedosa, todos são coincidentes sobre as virtudes desse povo mestiço, no setor militar e étnico, etc., ou sobre a limpeza e qualidades domésticas de suas mulheres. O próprio Azara destacou a magnífica vida comunitária dos paraguaios e correntinos. Como recorda Natalício González, quase todos os paraguaios sabiam ler e escrever. Depois da guerra da Tríplice Aliança, o Paraguai caiu na categoria de um dos povos mais atrasados da América Latina. E isto invalida qualquer teoria racista. A cultura é um desenvolvimento no tempo, não uma predeterminação positiva ou negativa de ordem biológica. Os processos eletrônicos, na atualidade, usados pelos russos para decifrar os hieróglifos maias existentes em Madri e Oresden, mostraram a altura dessas grandes civilizações. Tão importante é a civilização incaica que um racista como Klemm teve de reconhecer nos incas as características de uma raça superior. E as célebres investigações de Karl Pearson podem ser resumidas em suas próprias palavras: “A mim, pessoalmente, o resultado da presente investigação convenceu-me de que há pouca relação entre o físico exterior e o caráter psíquico do homem”. As investigações modernas, livres de preconceitos, repelem o conceito racial. Não existem, também, argumentos favoráveis à inferioridade de raças misturadas, certos de que não existem raças puras. Este mito do século XIX foi uma arma ideológica que serviu à divisão imperialista do mundo. Sob esse pretexto, justificaram-se as reivindicações nacionais em povos, como a Alemanha, preteridos no saque colonialista.


Na América Espanhola, as classes elevadas, que são as que abraçaram essa tese da inferioridade do índio em não poucos países, são mestiças. Este sentimento anti-indígena por parte de uma superioridade racial é de origem econômica, convertido em valorização política de classe a fim de justificar a exploração social das massas. As chamadas raças inferiores assim o são tendo em vista a posição que ocupam na escala social. O maior grau de civilização de um povo com relação a outro nada prova com referência à pressuposta desigualdade das raças humanas, pois a civilização de um povo não é um produto racial, mas, ao contrário, a raça é um produto cultural. As mesmas características físicas, quer dizer, antropométricas, variam com as condições ambientais. Os japoneses e judeus de Nova Iorque confirmam o fato. Assim como a degeneração físicas de certos aborígenes não é racial, mas social, provocada pela alimentação e pela exploração infra-humana do trabalho. E Boas pôde dizer: “É impossível predizer quais seriam as realizações do negro se ele pudesse viver em termos de absoluta igualdade com os brancos”. Em suma, os conflitos raciais, na América Latina de hoje, são formas encobertas da luta de classes. Os impérios asteca e incaico desmoronaram-se, mas não as comunidades que lhes deram origem. E tais comunidades, ontem como hoje, difundem o seu espírito como uma energia vasta e difusa nos poros da cultura hispano-americana. Mais adiante, ao falar sobre as condições da revolução latino-americana, voltar-se-á a este assunto.


Trecho da obra “O que é o Ser Nacional?” (pgs. 145-148), publicada originalmente em Buenos Aires (Argentina) no ano de 1963.


Escrito por Juan José Hernandez Arregui

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