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"Existencialismo, uma corrente em moda da Filosofia Burguesa"


A filosofia burguesa atual está cheia de pequenas correntes, de todos os matizes, cada uma se apropriando de um novo "ismo" qualquer para se diferenciar das outras. Tal fato não passa, porém, de um jogo escolástico. Esses novos "ismos" filosóficos aparentam apenas divergências superficiais, no fundo realmente insignificantes. O que Lenin dizia das pequenas correntes da filosofia burguesa, existentes em seu tempo, se aplica inteiramente aos "ismos" filosóficos atuais. Quando estava em moda o pragmatismo (também denominado filosofia da ação), constituindo a última palavra da filosofia americana, embora ainda hoje não esteja de todo posto de lado, Lenin mostrou que, apesar do pragmatismo se considerar como uma nova linha em filosofia, não apresentava, no fundo, nada de novo em relação ao machismo que anteriormente fizera razoável barulho. "Do ponto de vista do materialismo, escrevia Lenin, a diferença entre o machismo e o pragmatismo é tão ínfima e milesimal como a que separa o empirio-criticismo do empírio-monismo".(1) Quaisquer que sejam as diferenças verbais, é característico que as mil e uma correntes atuais da filosofia burguesa se tornem cada vez mais agressivas contra o materialismo e que o idealismo que professam seja cada vez mais reacionário e decadente, assemelhando-se, muitas vezes abertamente, com o clericalismo. As correntes atuais da filosofia burguesa são o reflexo ideológico, do capitalismo que apodrece e mostram a que grau se elevaram seus traços reacionários. Esses traços já foram definidos há muito tempo e é o misticismo cobrindo a realidade com o véu do mistério, deformando-a através do prisma das invenções idealistas; é o agnosticismo propagando a impossibilidade do conhecimento do mundo; é o furor cada vez maior da filosofia burguesa contra a ciência e, em particular, contra a ciência do desenvolvimento da sociedade, que prediz o fim inelutável do regime burguês. A filosofia idealista alemã do século 18 e princípios do século 19, que foi uma reação aristocrática contra o materialismo francês e a revolução francesa, fornece um terreno particularmente propício aos ideólogos filosofantes da burguesia. O misticismo e o agnosticismo de Kant; o idealismo subjetivista de Fichte, declarando que a consciência individual é a criadora do universo; a vontade obscura e inconsciente que Shelling considerava como primeiro fundamento do "absoluto"; a mistificação de toda a realidade — natureza e vida social — por Hegel; tudo isso foi aproveitado no arsenal da filosofia burguesa, modificado, reparado, tomando aspectos cada vez mais reacionários. A filosofia burguesa gerou um mundo de correntes que, sob o pretexto de defesa de um pretenso "conhecimento positivo", de uma "maneira positiva de pensar", cavaram um abismo para a ciência e abriram as portas para o fideísmo. Tais foram o machismo e o empirio-criticismo, denunciados por Lenin. Realmente, Lenin mostrou que o empirio-criticismo não é "senão uma forma refinada do "fideísmo" que permanece em armas, dispõe de imensas organizações e continua a agir sobre as massas, utilizando-se das menores hesitações do pensamento filosófico"'; que "a função objetiva de classe do empirio-criticismo é servir a fundo aos "fideistas" na luta contra o materialismo em geral e contra o materialismo histórico em particular".(2) A filosofia burguesa engendrou também correntes que se caracterizam por um misticismo desenfreado, não dissimulado. Tal é o irracionalismo ligado aos nomes de Schopenhauer e de Hartmann, cuja denominação basta para evidenciar a hostilidade à razão e cuja essência consiste em fazer assentar o mundo sobre uma base espiritual irracional, que se apresenta sob a forma de uma "vontade cega" do "inconsciente". Tal é a fenomenologia de Husserl que santificava a escolástica medieval dos pretensos realistas, que considerava o comum como um gênero ideal particular o ser e que, após ter declarado que esse comum se concebe diretamente pela chamada intuição intelectual, levantou a bandeira da luta contra a ciência e a pesquisa científica. Tal é o intuicionismo ligado ao nome de Bergson, que repelia o conhecimento intelectual, substituindo-o pelo chamado conhecimento intuitivo, que concebe o objeto sem nenhum raciocínio, mas com a ajuda de uma certa faculdade misteriosa, propriedade exclusiva de alguns eleitos, especialmente dotados. O fato dessas tendências filosóficas terem assumido um lugar de destaque na ideologia do fascismo alemão, como arma capaz de castrar espiritualmente os alemães e de cegá-los, levando-os a crer na intuição de Hitler, mostra seu caráter profundamente reacionário. As atuais correntes filosóficas burguesas tomam seu conteúdo de todos esses sistema reacionários e de outros que lhes são similares; além disso, às vezes procuram também outras fontes ainda mais distantes da mística medieval, fontes essas que já têm sido utilizadas por numerosos filósofos burgueses mais antigos. O que ficou dito sobre os principais traços característicos da filosofia burguesa contemporânea e das fontes onde ela se inspirou, se aplica igualmente à corrente atualmente em moda, da filosofia burguesa, que iremos estudar em seguida e que tem o nome de existencialismo. Os vínculos bastante estreitos que ligam o existencialismo ao irracionalismo, à fenomenologia de Husserl e ao intuicionismo, são particularmente característicos . Os existencialistas são também parentes próximos da mística medieval de Santo Agostinho. Em sua árvore genealógica figura igualmente Bernard Klervoski, religioso exaltado do século 12, de um misticismo delirante. Encontramos, em seguida, Maine de Biran, psicólogo e filósofo francês dos séculos 18 e 19, que pregava o voluntarismo e o misticismo. Os existencialistas respeitam particularmente Kierkegaard, escritor dinamarquês do século 19, que afirmava que "a subjetividade é a verdade" e hesitando entre a aceitação da vida e sua negação, pregava o medo à vida. Uma de suas obras tem o título de "Concepção do Medo — Pesquisa Psicológica do Problema Dogmático do Pecado Original". Em seguida, escreveu "Uma Doença Mortal"', no qual descreve os diferentes aspectos do desespero. Os motivos eróticos têm papel destacado nas obras de Kierkegaard. Sobre esse ramo da árvore do existencialismo, ramo coroado por Sartre, seu representante mais destacado, encontra-se também a filosofia de Nietzsche, que foi a bandeira da burguesia imperialista e precursora da ideologia fascista do ódio entre os homens. O mais próximo pai espiritual de Sartre foi o professor alemão Heidegger, discípulo de Husserl, que ocupava o cargo de reitor de universidade na Alemanha de Hitler. Tais são as origens da última moda da mais recente filosofia burguesa o existencialismo, que apareceu tão ruidosamente.

* * * O existencialismo é ao mesmo tempo uma corrente filosófica e uma corrente da estética burguesa moderna; sua peculiaridade consiste justamente no fato de encarnar as ideias filosóficas sob uma forma artística. Jean Paul Sartre, autor de uma série de obras filosóficas sobre o existencialismo (L’Etre et le Néant", "L'Existentialisme est un humanism", etc), e de romance e peças de teatro, acentua o fato de que o existencialismo é, antes de tudo, uma filosofia. "Para saber o que é o existencialismo, escreve ele, é necessário considerá-lo no plano estritamente filosófico". Qual é então o conteúdo dessa filosofia? O conteúdo dessa filosofia consiste em transformar a realidade numa subjetividade banal; em negar as leis objetivas que dirigem a atividade dos homens; em negar toda a moral comum; em negar o papel da consciência e dos sentimentos como motivos que incitam os homens a adotar determinada linha de conduta. Segundo o existencialismo, a atividade humana se desenvolve como se nada motivasse, como se estivesse isolada da realidade dos outros homens, como se não pudesse contar com o seu apoio, como se estivesse sem esperanças nem perspectvas. A filosofia do existencialismo propaga a falta de fé no sucesso da luta das forças do progresso contra as forças da reação; procura minar a coragem e a confiança dos combatentes da liberdade no triunfo de sua causa. Pelo conteúdo ideológico, o existencialismo é o fruto do mundo capitalista em decadência; em sua essência reflete o sentimento que a burguesia decadente e degenerada tem do mundo. O existencialismo destina-se a desarmar espiritualmente as forças da democracia e o progresso na luta pela instauração de regimes sociais de vanguarda, dignos da existência humana. A principal divisa filosófica do existencialismo é: “a existência precede a essência”. Daí sua denominação — "existencialismo'' . Nessa afirmação o existencialismo declara que a existência é privada de essência. Mas, que é essência? A essência é, em relação aos fenômenos, o mesmo que o conteúdo em relação à forma. A essência das coisas é o que se manifesta nelas sob deferentes formas, como seu conteúdo indispensável. A essência exprime a ligação orgânica interna entre os fenômenos; a relação de causa e efeito; a relação de necessidade comum e que não é regida por leis com as quais deve es