Construtivismo: a construção da arte na URSS



O Construtivismo foi um movimento de vanguarda artística que se difundiu principalmente após a Revolução Russa de 1917, que resultou na queda do regime czarista de Nicolau II, e depois do Governo Provisório, com a tomada do poder pelo Partido Bolchevique liderado por Lenin, caracterizando-se pelo desenvolvimento de uma relação entre arte e política.


O nome Construtivismo, tanto quanto o firmamento do movimento, deu-se em 1920, com a publicação do Manifesto Realista dos irmãos Gabo e Pevsner. A seguir um dos principais trechos e princípios do Construtivismo, onde os artistas se autodeclaravam autênticos proletários da arte:


Manifesto realista – Gabo e Pevsner, Moscou, 1920


Nós dizemos:

Espaço e Tempo renasceram hoje para nós.

Espaço e Tempo são as únicas formas sobre as quais a vida se constrói, e sobre eles, deve-se edificar a Arte.

Perecem os Estados e os sistemas políticos e econômicos; as ideias se derrubam sob a força dos séculos, mas a vida é forte; ela cresce e é imparável. O tempo prossegue no seu ritmo real. Quem nos mostrará formas mais eficazes que estas? Quem será o gênio que nos dê fundações mais sólidas que estas?

Que gênio nos contará uma lenda mais maravilhosa que a fábula prosaica que se chama vida?

O ato de nossas percepções de mundo em forma de Espaço e Tempo é o único objetivo da nossa arte plástica.

Não medimos nosso trabalho com a métrica da beleza e não o pesamos com o peso da ternura e dos sentimentos.

Com o fio de prumo na mão, com os olhos infalíveis como dominadores, com um espírito exato como uma bússola, edificamos nossa obra do mesmo modo que o Universo conforma a sua, do mesmo modo que o engenheiro constrói as pontes e o matemático elabora as fórmulas das órbitas. Sabemos que tudo tem uma imagem própria essencial: a cadeira, a mesa, a luminária, o telefone, o livro, a casa, o Homem. São mundos completos com seus ritmos e suas órbitas. Por isso, na criação dos objetos nós tiramos os rótulos do dono, totalmente acidentais e falsos, e saímos da realidade do ritmo constante das forças neles contidas.

1) Por ela, na pintura renunciamos à cor como elemento pictórico: a cor é a superfície óptica idealizada dos objetos; é uma impressão exterior e superficial; é um acidente que nada tem em comum com a essência mais íntima do objeto. Afirmamos que a tonalidade da substância, quer dizer, seu corpo material que absorve a luz, é a única realidade pictórica.

2) Renunciamos à ideia como valor descritivo: na vida não existem linhas descritivas; a descrição é um signo humano acidental nas coisas, não forma uma unidade com a vida essencial nem com a estrutura constante do corpo. O descritivo é um elemento de ilustração gráfica, é decoração. Afirmamos que a linha só tem valor como direção das forças estáticas e de seus ritmos nos objetos.

3) Renunciamos ao volume como forma espacial pictórica e plástica: não se pode medir o espaço com o volume, como não se pode medir um líquido com métrica; olhemos o espaço... O que é ele senão uma profundidade continuada? Afirmamos o valor da profundidade como única forma espacial pictórica e plástica.

4) Renunciamos à escultura enquanto massa entendida como elemento escultural. Todo engenheiro sabe que as forças estáticas de um corpo sólido e sua força material não dependem da quantidade de massa; por exemplo: uma via férrea, um pergaminho em forma de T, etc. Mas vocês, escultores de cada sombra e relevo, ainda se prendem ao velho prejuízo, segundo o qual não é possível desmembrar o volume da massa. Aqui, nesta exposição, pegamos quatro aviões e obtivemos o mesmo volume como se fossem quatro toneladas de massa. Por ela, reintroduzimos na escultura a linha como direção e nesta afirmamos que a profundidade é uma forma espacial.

5) Renunciamos ao desencanto artístico enraizado há séculos, segundo o qual os ritmos estáticos são os únicos elementos das artes plásticas. Afirmamos que nessas artes está o novo elemento dos ritmos cinéticos enquanto formas basilares de nossa percepção do tempo real. Estes são os cinco princípios fundamentais do nosso trabalho e da nossa técnica construtiva.

Tradução realizada por André Levy.



O Manifesto, por si só, demonstra o ideal do Construtivismo: fundir ideologia e arte, explicitando a importância desta última, bem como de sua função social e política, que deveria ter seu papel prático, socialmente útil, se distanciando cada vez mais da tirania do indivíduo na arte e da concepção aburguesada de que a arte serve apenas como uma decoração, e não como demonstração de uma organização social.

Sua origem teve referências no Cubismo e Futurismo, outras vanguardas da época. Porém, colocava-se contra a arte burguesa como um todo, renegando uma produção artística cujo o fim é ela mesma, comprometendo-se com a arte aplicada, tornando-se o primeiro movimento artístico intimamente ligado à ideologia marxista e ao organismo comunista revolucionário.


A linguagem inovadora, que propunha em grande parte uma libertação dos estilos europeus vigentes, era visivelmente identificada pelos traços nas diagonais, uso de formas geométricas e cores primárias, contando com fotomontagens pensadas e elaboradas como uma construção, além de na arquitetura ser responsável por um estilo ousado e futurista, com edifícios pensados para a vivência coletiva e planejada.

Nesse sentido, muito do que se via na arte construtivista era fonte das preocupações dos artistas em entender qual o seu papel e qual a função da arte numa nova sociedade, que buscava a eliminação de uma hierarquia de classes. Por isso, para o movimento, a arte deveria se integrar à vida cotidiana, sair dos museus, teatros, palácios e salões; não mais fabricar para o luxo dos ricos, mas sim para a vida do povo, promovendo uma aproximação, tendo uma função precisa no desenvolvimento de uma nova cultura; promover a excitação revolucionária e consequentemente a potencialização das faculdades inventivas, conferindo um sentido criativo à revolução e dando ao povo provas concretas e visuais da revolução e da transformação do meio em que se vive, por exemplo, com às construções arquitetônicas realizadas nesse período.


O construtivismo não pretendia ser um estilo abstrato em arte nem mesmo uma arte, pense. Em seu âmago, era acima de tudo a expressão de uma convicção profundamente motivada de que o artista podia contribuir para suprir às necessidades físicas e intelectuais da sociedade como um todo, relacionando-se diretamente com a produção de máquinas, com a engenharia arquitetônica e com os meios gráficos e fotográficos de comunicação. Satisfazer às necessidades materiais, expressar às aspirações, organizar e sistematizar os sentimentos do proletariado revolucionário - eis o objetivo: não a arte política, mas a socialização da arte (SHARF apud CARTAXO, 1992, p.42).


Alguns dos mais conhecidos artistas desse período na União Soviética eram Malevich, Tátlin, Kandinsky, Ródtchenko e Maiakovsky, que a partir dos primeiros meses de 1918 dirigem e difundem a arte bolchevique. Um dos maiores desafios desses artistas-construtores era escapar do controle academicista da arte e do conservadorismo, promovendo uma arte do meio industrial que pudesse expressar o ritmo do tempo, dos novos tempos da cultura metalizada que se desejava. Maiakovsky fez uma bela observação sobre a diferença dessa vanguarda e das outras presentes pelo restante da Europa:


Pela primeira vez, uma palavra nova na arte, o construtivismo, não veio da França, mas da Rússia. É mesmo de causar surpresa que esse termo se encontre no léxico francês. Não o construtivismo dos artistas que transformaram o ótimo e necessário fio de ferro e a lata em estruturas inúteis. Mas o construtivismo que entende a elaboração formal do artista apenas como engenharia, como um trabalho indispensável para dar forma a toda a nossa vida prática. Isso os artistas franceses devem aprender na nossa escola. Nisso não valem as conjecturas cerebrais. Para construir uma cultura nova é preciso um terreno virgem. É preciso a vassoura de outubro. Mas qual é o terreno da arte francesa? O parquet dos salões parisienses (Apud CARTAXO, p. 40, 1992).


Esses artistas da vanguarda acreditavam que a arte deveria ter uma relação direta com a vida, sendo utilitária para a sociedade e, dessa forma, o movimento foi um grande precursor de inovações nos ramos da publicidade, tipografia e design, redirecionando a estética dos bolcheviques em suas propagandas partidárias na época e ainda hoje sendo de grande referência para os estudos nessas áreas.


O Monumento mais famoso idealizado pelos construtivistas, mais especificamente por Tátlin, fora o Monumento a III Internacional, onde ele subvertia a ideia da escultura como uma forma fechada. Criando uma valorização do vazio por onde circula o ar, ele tinha como princípio “materiais reais no espaço real” que orientaria sua criação para que a obra de arte fosse inserida de forma prática na sociedade, sendo o Monumento – que, infelizmente, não fora construído – um grande símbolo do dinamismo que se buscava para a vida pós-revolução.



Monumento à III Internacional. Tátlin, 1920.

A arquitetura soviética moderna baseia-se principalmente no sólido método materialista. Não contém niilismo algum e em qualquer caso realça as exigências da expressão formal, mas fundamenta-se por completo nas particularidades funcionais do seu objeto em conjunto e de cada um dos seus elementos. A nossa frente de arquitetura moderna assenta no princípio de uma obra arquitetónica acabada, como qualquer outra coisa autenticamente moderna, não é um objeto que possua valor estético acrescentado, sem um objetivo concreto, organizado, racionalizado e sistematizado, cujo método de organização incorpora as máximas possibilidades da sua expressão. A nossa frente de arquitetura moderna baseia-se nos princípios sãos do Construtivismo, num método de pensamento funcional, um método que assinala ao arquiteto o rumo da sua atividade de modo preciso e lhe dita uma ou outra forma para a sua tarefa, dependendo das condições reais que se apresentam em frente dele (GINZBURG apud BRITO, p. 21, 2018).


Tátlin e Ródtchenko defendiam abertamente que os artistas deveriam se tornam técnicos, direcionando suas energias diretamente em benefício do proletariado. A partir dessa ideologia que inspirou o construtivismo, fora criado o “objeto construtivista”, que nada mais era que uma resposta ao fetichismo da mercadoria descrito por Marx, com o intuito de racionalizar o desejo do consumidor e sua relação com o produto. A ideia era levar os artistas às indústrias e promover uma aproximação, por meio da arte, das relações de produção e relações pessoais decorrentes destas. O “objeto construtivista”, que era produzido em grande escala, pode ser bem exemplificado pelas influências de Stepanova na moda, onde além de buscar uma androginia nas vestimentas, promovia roupas mais confortáveis e com materiais mais facilmente conseguidos na época.

O construtivismo, primeiro movimento artístico com reivindicações marxistas que se propunha a aliar arte e política, fora desautorizado em meados de 1930, após a morte de Lênin e a respectiva ascensão do Realismo Soviético. Porém, todas as contribuições dos construtivistas refletem ainda hoje, não se perdendo com o tempo, e ainda são um exemplo inconteste da tentativa de usar a arte para uma Nova Cultura.


Referências



BRITO, Miguel Ângelo Pintado de. Desconstrutivismo : da origem à ação. Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura, Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa. Lisboa : [s.n.], 2018.

CAPPELLARI, Moara Feola. O construtivismo russo na cenografia do teatro de vanguarda: Uma análise do espetáculo “O cornudo magnífico”. São Paulo, 2016.

CARTAXO, Zalinda Elisa Carneiro. Concretismo brasileiro: a singularidade do movimento construtivo nacional. Rio de Janeiro, UFRJ, EBA, 1992.


CUNHA, Gabriel Rodrigues da. A arquitetura russa nos primeiros anos da revolução: O Construtivismo e a noção do condensador social. USP- São Carlos. s/ano.


GABO, Naum. PEVSNER, Antoine. Manifesto realista - versão em inglês. Moscou, 1920. Disponível em: <https://391.org/manifestos/1920-realist-manifesto-naum-gabo-antoine-pevsner/>. Acesso em: 05 de março de 2021.


GABO, Naum. PEVSNER, Antoine. Manifesto realista - versão em espanhol. Moscou, 1920. Disponível em: <http://obrarealista.blogspot.com.br>. Acesso em: 05 de março de 2021.

LEITE, Tamires Moura G. KANAMARU, Antônio Takao. O Experimento da Roupa Construtivista na União Soviética. XXIX Simpósio Nacional de História. 2017.

NASCIMENTO, Marisa. Mudança de perspectiva - O grande expoente do construtivismo contribuiu para nova visão da arte e da imagem. Jornal Laboratório do Curso de Jornalismo - PUC-SP. Abril, 2011.

VITTA, Thaís de Angelis. Revolução e Revelação: Ideologia e Poética de Composição na Fotografia e no Cinema do Construtivismo Russo. ARTEREVISTA, n. 6, ago./dez. 2015, p. 91-106.


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