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"A Comuna de Paris e a Associação Internacional dos Trabalhadores"



O Conselho Geral da AIT há muito alertava os operários quanto ao perigo de uma guerra franco-alemã, e quando o conflito subitamente estourou, o Conselho, quatro dias depois, em 29 de julho de 1870, lançou um manifesto chamando pela solidariedade internacional dos operários. Escrito por Marx, o manifesto colocou a culpa pela guerra nos governantes da França e Alemanha. Ao mesmo tempo em que colocava que a Alemanha fora posta em uma posição defensiva na Guerra, com a Rússia reacionária avançando sobre suas fronteiras ao leste, alertou aos operários alemães quanto ao perigo dessa guerra se transformar em uma guerra de conquista. Marx também colocou que, independentemente do resultado da guerra, esta marcaria o fim do Segundo Império na França, o que acabou de fato ocorrendo.


Em vários países, os operários demonstraram grandes qualidades internacionalistas. Na Alemanha, Liebknecht e Bebel votaram no parlamento contra os créditos de guerra e foram presos por isso (os lassallenianos, contudo, votaram a favor dos créditos). Grandes manifestações de operários alemães foram “felizes ao estender a mão aos trabalhadores da França”. Na França, um espírito internacionalista similar prevalecia, com os operários clamando por sua “solidariedade indissolúvel” aos operários da Alemanha. Também entre operários imigrantes nos Estados Unidos, o manifesto antiguerra do Conselho Geral circulou largamente, e reuniões conjuntas de operários alemães e franceses foram organizadas para protestar contra a guerra.


Enquanto isso, a guerra interrompia o avanço organizacional da Internacional. O próximo congresso havia sido marcado para ocorrer em Paris, em 5 de setembro de 1870; mas, em vista das perseguições políticas prevalentes na França, o congresso foi postergado e organizado para ocorrer em Mainz, na Alemanha. Com a eclosão da guerra, porém, essa mudança tivera de ser cancelada.


A guerra rapidamente caminhou para o clímax de mudança por parte das forças alemãs, mais bem preparadas. Os exércitos franceses sofreram derrotas catastróficas umas a­pós as outras. Após seis semanas, a etapa de batalhas terrestres da guerra foi encerrada. Em 2 de setembro de 1870, em Sedan, Bonaparte e seu exército se renderam incondicionalmente.


1. É fundada a República Francesa


Quando as notícias da derrota de Sedan chegaram a Paris, o povo se levantou e, em 4 de setembro de 1870, derrubaram o regime de Bonaparte e fundaram uma república. A nova assembleia, eleita em 8 de fevereiro de 1871, era composta, porém, por dois terços de monarquistas e um terço de republicanos burgueses, com alguns pequeno-burgueses radicais aceitos para tornar as coisas mais palatáveis à classe operária. Todo esse desenvolvimento empurrou os bakuninistas para a ação, e pelas próximas semanas, tentaram em vão conduzir insurreições em Paris, Lyon, Marselha, Brest e outras cidades contra o novo governo. Os blanquistas também se posicionaram a favor de uma insurreição. Por algumas horas, em 31 de outubro de 1870, Blanqui manteve Paris sob seu controle, mas teve de abandoná-la.


Em 9 de setembro de 1870, o Conselho Geral da AIT lançou outro manifesto, também escrito por Marx. Nesse documento, Marx apontou que a chamada guerra defensiva por parte da Alemanha se tornara definitivamente uma guerra de conquista, e que a determinação de Bismarck para anexar as províncias francesas Alsácia e Lorena se mostrou clara. Marx alertou que, caso isso ocorresse, levaria inevitavelmente a uma nova “guerra defensiva”, como de fato ocorrera em escala incomparavelmente maior em 1914. O manifesto conclamou os operários alemães a se opor à anexação proposta e reivindicar uma paz com a França. Alertou os operários franceses para se manterem em guarda com a traição da burguesia francesa e utilizarem cada oportunidade para fortalecerem suas próprias forças de classe. De forma geral, Marx e Engels sentiam que tal período era inadequado para uma derrubada revolucionária do governo republicano reacionário, algo pelo qual estavam lutando Bakunin e Blanqui.


O exército alemão estava às portas de Paris, já entran­do na cidade. Bismarck, porém, hesitou em atacar Paris, pois havia notícias sobre 200 mil tropas muito bem armadas ali (um exagero), e ele conhecia bem o espírito revolucionário de luta do proletariado de Paris. As tropas de Paris, em sua maior parte a Guarda Nacional, composta principalmente por operários, havia eleito um Comitê Central de 25 membros em 15 de fevereiro, que controlava em grande medida uma Paris sitiada. A Guarda Nacional estava em alerta especial contra um golpe de Estado por parte do governo de Thiers, que, temendo o proletariado revolucionário, estava disposto a entregar a cidade para os alemães. O governo assinou um armistício de capitulação em 26 de fevereiro, no qual aceitou entregar Paris.


2. Nascimento da Comuna


Para forçar a Paris revoltosa a se render, Thiers, às 3 horas de manhã de 18 de março, mobilizou as suas tropas sob a liderança do General Vinoy para retomar 250 canhões da Guar­da Nacional. O plano seguia com sucesso até que a Paris, cercada e faminta, entrou em ação. Com as mulheres na linha de frente, o povo, com ataques diretos e organizados, tomou a iniciativa. Por volta das 11 horas da manhã, as tropas de Thiers foram completamente derrotadas e a cidade estava nas mãos do povo. Dois governadores-gerais foram mortos em combate. A bandeira vermelha foi estendida sobre o Hotel de Ville, e o Comitê Central da Guarda Nacional estava agindo como governo provisório. “Os proletários de Paris”, declarava o Comitê Central, “em meio aos fracassos e traições das classes dominantes, compreendeu que a hora chegou para que controlem a situação e coloquem sobre suas mãos a direção dos assuntos públicos”.

As forças básicas organizadas que dirigiram a insurreição foram os blanquistas. Chegaram a organizar 4 mil homens armados organizado, com muitos simpatizantes. O próprio Blanqui foi preso pelo governo na noite anterior à insurreição, em 17 de março, e esteve na prisão ao longo de toda a duração da Comuna. Os internacionalistas marxistas, ainda poucos em Paris, não haviam se planejado para um levante, mas quando este iniciou, tomaram parte ativa nele.


Baseado no sufrágio universal masculino, a Comuna era um corpo legislativo e executivo. Todos os seus membros estavam sujeitos à lei. O modelo geral era Paris, e o plano revolucionário era conformar tais comunas em todas cidades e aldeias da França. Todas deveriam enviar representantes para a Delegação Nacional em Paris. Marx diz que este sistema “colocou pequenos camponeses sob direção intelectual das aldeias centrais em seus distritos, e confiaram aos operários a salvaguarda natural de seus interesses” – claro reconhecimento do papel revolucionário dirigente do proletariado.

A fraqueza fundamental da Comuna foi o fato de os o­perários não possuírem qualquer partido ou programa; a revolução e o governo que emergiram a partir da luta foram improvisados. O que haveria de ser feito pelo Comitê Central, já no seu 18º dia, era prender líderes do governo de Thiers, que estavam em Paris naquele dia, e – em nome do povo – marchar para Versalhes, onde estava localizado o governo reacionário. Aquelas forças do governo foram muito desmoralizadas pela insurreição, e Thiers posteriormente admitiria que, se um ataque fosse conduzido prontamente, não teriam condições de resistir. Infelizmente, contudo, tiveram tempo precioso para reorganizar suas forças, um fato que foi posteriormente desastroso para a Comuna. O Comitê Central hesitou e mantinha uma objeção consciente ao início de uma guerra civil, ao passo que os reacionários de Thiers já haviam de fato lançado uma guerra civil ao atacarem Paris. O Comitê Central, relutante quanto a sua própria autoridade, preparou-se para organizar eleições locais. Enquanto isso, insurreições de cur­ta duração estavam ocorrendo em outras cidades francesas – Lyon, Saint Etienne, Creusot, Marselha, Toulouse e Narbonne. Bakunin participou da revolta de Lyon e afundou-a.


As eleições de 26 de março, suplementada por novas eleições ocorridas em 15 de abril, elegeu 92 conselheiros, que constituíram a Comuna de Paris. Um Comitê Executivo de no­ve membros foi escolhido, e este se colocou à frente dos vários departamentos: Guerra, Finanças, Subsistência, Exterior, Trabalho, Justiça, Serviços Públicos, Informação e Segurança Geral. Os blanquistas e neojacobinos tinham maioria na Comuna; havia também um grupo considerável de proudhonianos, algo como dezoito marxistas internacionalistas, e alguns de opiniões difusas. A Comuna era baseada na aliança revolucionária entre o proletariado e a pequena burguesia urbana, com os operários como força dirigente. Nesse período, a mai­or parte da grande burguesia fugira da cidade, deixando fábricas paradas, com 300 mil operários desempregados.


Em 19 de abril, a Comuna publicou seu primeiro programa, que permanecia sob a perspectiva de uma revolução democrático-burguesa. O programa reivindicava “o reconhecimento e consolidação da República, e a autonomia absoluta da Comuna estendida para toda a França, assegurando assim a cada um a integridade de seus direitos, e para cada francês, o exercício completo de suas faculdades e aptidões enquanto homem, cidadão e produtor”. Prosseguia para os necessários direitos civis, dizendo que: “A unidade política, como deseja­da por Paris, é uma associação voluntária de todas as iniciativas locais, uma cooperação livre e espontânea de todas as energias individuais com o objetivo comum do bem-estar, liberdade e segurança do povo”. A ênfase sobre a autonomia local era, em parte, uma reação contra a crassa ditadura sob o Segundo Império e um reflexo parcial das ideias anarquistas (de Proudhon e Bakunin) que eram então generalizadas entre a classe operária francesa.


3. A I Internacional e a Comuna


Em seu manifesto de 9 de setembro de 1870, escrito por Marx, o Conselho Geral da AIT alertou os operários franceses da “tentativa desesperada” para derrubar a nova república burguesa. Mas quando a revolução ocorrera, Marx, um verdadeiro revolucionário, deu a ela todo apoio possível. Em carta a Kugelmann, escrita três semanas após o início da revolução, Marx declarou que “o atual levante em Paris – ainda que se esmagado pelos lobos e porcos da velha sociedade – é o feito mais glorioso de nosso Partido desde a insurreição de junho em Paris”. Ele declarou que os operários de Paris estavam “assaltando os céus”.


Muito tempo depois, Lenin comparou a atitude apoiadora de Marx com a de Plekhanov em uma situação similar. Plekhanov, que se opôs à revolução de 1905 na Rússia, declarou vergonhosamente que, após a heroica luta, “não deveriam ter recorrido às armas”. Mas Marx, ainda que tivesse se o­posto à revolta em um primeiro momento, deu a ela apoio militante quando começara. Em 30 de maio de 1871, dois dias após a queda da Comuna, elaborou uma declaração em nome do Conselho Geral em defesa da Comuna, uma das maiores obras marxistas de todos os tempos, A Guerra Civil na França. Este documento histórico foi endossado por todos os membros do Conselho, exceto Odger e Lucroft, líderes sindicais britânicos, que se recusaram a assiná-lo. Marx assinou-o co­mo Secretário Correspondente da Alemanha e Holanda, e Engels pela Bélgica e Espanha.


Sob a inspiração e direção diretas de Marx e Engels, as várias sucursais da Internacional deram todas as ajudas possíveis à batalha da Comuna. Em Paris, os internacionalistas eram muito ativos. Steklov enumera entre eles (todos membros eleitos da Comuna): Varlin, Malon, Jourdes, Avrail, Pindy, Assy, Duval, Theiss, Lefrancais, Frankel, Longuet, Serail e Johannard. Eles foram ativos não só nos comitês da Comuna, mas também na crescente guerra civil. Foram responsáveis por muitas das ações legislativas desenvolvidas pela Comuna. Muitos revolucionários exilados europeus em Paris também participaram ativamente e receberam altos cargos na Comuna. Dombrowski, um polonês, tornou-se um alto comandante militar em Paris.


Na Inglaterra, operários organizados saudaram a Comuna, ainda que seus líderes sindicais oportunistas no Conselho Geral, salvo Applegarth, tenham fechado os olhos para a grande luta revolucionária. Na Alemanha, tanto os eisenachianos quanto lassalleanos apoiaram a Comuna diante da forte oposição reacionária capitalista. Nos Estados Unidos, a Comuna recebeu apoio entusiasmado das massas trabalhadoras, a despeito de distorções feitas pela imprensa burguesa e das constantes tentativas do embaixador estadunidense na França, Washburn, de destruí-la. A Tribuna dos Trabalhadores e outros jornais operários imprimiram as declarações do Conselho Geral. Entre as figuras norte-americanas proeminentes que apoiaram a Comuna esteve o General Ben Butler, e em 15 de agosto de 1871, Marx disse ao Conselho Geral que Wendell Philips, abolicionista e amigo dos operários, havia se tornado membro da Internacional. Por muitos anos em diante, a memória da heroica Comuna de Paris esteve viva nas mentes dos círculos operários americanos.


4. O trabalho da Comuna


A Comuna de Paris sofreu muitas fraquezas e reveses, inclusive divergências internas entre várias frações e do seu isolamento do resto da França. A falta de um programa claro e de um sólido partido político organizado também agiu como uma forca no pescoço da Comuna desde o primeiro momento. Além disso, a Comuna, que resistiu por 72 dias, teve de trabalhar diante de uma guerra civil em desenvolvimento. Mesmo lutando desesperadamente para sobreviver, a Comuna ainda assim teve muitas conquistas positivas, suficientes para marcar seu nome para sempre na história revolucionária da classe operária mundial e para servir como uma grande tocha que ilumina os operários em seu caminho para o socialismo.


Entre as suas principais decisões políticas, a Comuna proclamou a separação entre a Igreja e o Estado; aboliu subsídios para a Igreja; aboliu o exército regular em favor das milícias populares; retirou da polícia seus atributos políticos e tornou todos os funcionários sob estrita responsabilidade do eleitorado, estabelecendo teto salarial de 6 mil francos anuais para todos os funcionários públicos. Ademais, estabeleceu e­leições e controle para todos os juízes e magistrados; estabeleceu a educação livre e geral; aboliu a guilhotina e derrubou a Coluna de Vendôme como símbolo do militarismo. Muitas medidas econômico-sociais foram também adotadas – abolição do trabalho noturno nas padarias; cancelamento de todas as multas nos locais de trabalho; fechamento de todas as empresas de penhora; reabertura de todas as fábricas fechadas, que seriam operadas por cooperativas de trabalhadores; organização de um fundo de ajuda aos desempregados; estabelecimento de um birô operário de estatísticas; também racionou suprimentos e deu assistência aos devedores. Todo esse trabalho foi inculcado com grande espírito de internacionalismo, e o Comitê deve como símbolo seu a bandeira vermelha do movimento revolucionário mundial.


Para além das suas conquistas, a Comuna padeceu de muitos erros e insuficiências. Um destes erros de maior importância, conforme mencionamos, foi o fracasso em conduzir de forma vigorosa uma guerra contra o governo reacionário de Versalhes. Outro erro foi uma atitude, por demais tolerante, diante do inimigo interno, o que entravou a repressão contra os espiões traidores e burgueses que abundavam em Paris, e deixou a porta aberta para muitas atitudes sabotadoras e traidores entre os corpos de soldados. A Comuna, também, não buscou de forma enérgica atingir outras partes da França, tampouco ganhar o campesinato para sua causa – um erro central. Outro erro foi o fracasso em publicar os arquivos secretos do Estado que datavam desde 1789 e expunham, diante da Comuna, toda a podridão e corrupção cometidas pela polícia secreta, diplomatas, capitalistas e seus políticos. Tal publicação seria um grande golpe contra a reação e um documento de valor imensurável.


Mas o erro mais curioso da Comuna foi o fracasso em confiscar os 3 bilhões de francos que estavam em mãos do Banco da França. Ao invés disso, líderes blanquistas e prou­dhonianos, deixando para trás suas próprias convicções e ignorando aqueles que queriam tomar o banco, lidaram de for­ma diplomática com os funcionários do banco em troca de empréstimos. Como dito, a liderança da Comuna possuía apenas 16,7 milhões de francos, 9,4 milhões dos quais pertenciam a Paris de algum modo, sendo o restante um empréstimo de 7,3 milhões de francos. A tomada do banco seria um golpe mortal sobre o fraco regime de Versalhes.


5. A Comuna é derrubada


No início de abril, a guerra civil seguiu. Os commu­nards, ou federalistas, travaram uma batalha corajosa, mas fadada à derrota. As forças de Thiers, com base em mentiras e distorções monstruosas, lograram colocar a maior parte da França camponesa contra a Comuna. Bismarck também libertou 100 mil camponeses franceses, prisioneiros de guerra, pa­ra ajudar o governo de Versalhes. Em 21 de maio, tropas de Versalhes entraram em Paris e, por oito dias, uma batalha sangrenta ocorreu, com os communards lutando de rua em rua diante de obstáculos enormes. Em 28 de maio, o último bastião da resistência foi varrido no cemitério Pere la Chaise, Belleville e vários outros distritos operários. A Comuna foi esmagada. Os próximos dias seriam de brutal derramamento de sangue. O General De Gallifet e seus açougueiros metralharam a sangue frio pelo menos 30 mil homens, mulheres e crianças da classe operária. Cerca de 45 mil foram presos, e destes, 15 mil foram executados ou condenados, e outras centenas enviadas para o exílio em Nova Caledônia.


O massacre foi muito maior que aquele que ocorrera após a derrota da insurreição de junho de 1848 em Paris. Dezenas de milhares de communards tiveram de fugir para a Suíça, Inglaterra e, sobretudo, para os Estados Unidos. Fornecer apoio a esses exilados foi um trabalho de maior envergadura para a AIT na Europa. Foi um dos exilados communards, Eugene Pottier que, em junho de 1871, escreveu as imortais palavras que seriam a grande canção de batalha da classe operária mundial, “A Internacional”.

Por detrás das barricadas, na luta sangrenta e nos tribunais políticos espetaculares que a seguiu, as mulheres devem ser cobertas de glória especial. Louise Michel e Elisabeth Dmitriev foram duas notórias combatentes entre milhares de heroínas. Diante dos tribunais, Michel declarou orgulhosamente: “Eu pertenço inteiramente à revolução e assumo responsabilidade por todos os meus atos”. Condenada, ela permaneceu dez anos em uma prisão do exílio.


Os governantes reacionários da Europa se exaltaram diante dos massacres generalizados em Paris. Fizeram mensagens de congratulações ao monstro Thiers, e tomaram em seguida medidas repressivas para varrer o socialismo de seus próprios países. Na França, em particular, diz Lenin: “A burguesia estava satisfeita. ‘Agora varremos o definitivamente o socialismo por um bom tempo,’ dissera seu líder, o açouguei­ro Thiers, após o banho de sangue que ele e seus generais conduziram contra o proletariado de Paris. Mas os cachorros burgueses latiram em vão. Seis anos após a destruição da Comuna, quando muitos combatentes ainda estavam na prisão ou no exílio, um novo movimento operário nasceu na França.


6. Papel histórico da Comuna


A Comuna de Paris ensinou grandes lições à classe o­perária mundial, que permanecem válidas até os dias de hoje. Mais que todos, Lenin compreendeu e aplicou tais lições qua­se que completamente. A mais importante delas é a necessidade indispensável dos operários de todos os países construírem um partido comunista forte, disciplinado e de ampla visão, conforme Marx insistia grandemente, e liderar o restante da classe operária pelo caminho longo e difícil para o socialismo. Mesmo em uma situação tal, na qual o governo capitalista estava tão podre a ponto de o poder ter caído nas mãos dos operários praticamente sem uma luta, como ocorrera em Paris em 18 de março de 1871, ainda assim operários não poderiam seguir adiante sem uma forte organização política. Eis uma das lições decisivas da Comuna, que repudiou completamente a noção de Bakunin que um partido político não era necessário e a espontaneidade das massas seria suficiente.


Outra lição elementar da Comuna foi que ela conformou a forma básica da nova sociedade que substituiria o capitalismo, conforme Marx indicou. A forte relação entre a for­ma organizacional da Comuna e os futuros sovietes russos era inegável. Ainda assim, quase que por meio século, o verdadeiro significado da Comuna foi perdido completamente de vista, mesmo pelos marxistas, até que Lenin finalmente retomou seu significado.


De importância fundamental, também, foi a demonstração clara dada pela experiência da Comuna de Paris que, após os operários terem derrotado os capitalistas e conquistado o poder político, deveriam construir seu próprio Estado, ainda que de novo tipo, pela força armada, para derrotar a repressão das forças contrarrevolucionárias do capitalismo e organizar a base da nova sociedade. A Comuna também ensinou que o “definhamento do Estado” seria um processo mui­to mais prolongado que aquele frequentemente contemplado pelos marxistas, ainda que tal lição também tenha sido praticamente ignorada por décadas. Era particularmente aguda a contradição do absurdo anarquista de Bakunin, que dispunha que a mera espontaneidade proveria uma organização suficiente a partir da queda do capitalismo.


A Comuna também deixou claro que o caminho para o poder para os operários da Europa, nas circunstâncias desde então, se daria pela derrubada forçada dos regimes políticos ultrarreacionários prevalentes, que negavam aos operários qualquer semblante de democracia. Mas Marx não fez deste importante fato um dogma. Ele também reconheceu, como in­dicamos no Capítulo II, que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, onde havia tipos mais avançados de democracia burguesa, havia possibilidade naquele período (isto é, no período pré-imperialista) para que os operários fizessem um avanço pacífico para o socialismo.


A Comuna também ensinou que a burguesia não hesitaria em trair a nação em prol de seus próprios interesses de classe. Tal como os reacionários feudais juntaram forças com os inimigos para lutar contra a França revolucionária na gran­de Revolução Francesa de 1789, também o fizeram os burgueses reacionários de 1871 que se uniram a Bismarck contra a Comuna.


Outra lição da Comuna, muito enfatizada por Marx e, posteriormente, por Lenin, foi o fato de que os operários, uma vez no poder, não poderiam adaptar o Estado burguês para suas próprias necessidades revolucionárias. Em sua carta a Kugelmann, de 17 de abril de 1871, disse Marx: “Se você ler o último capítulo de meu livro O Dezoito Brumário, você verá que eu sustento que a próxima tentativa da Revolução Francesa não mais consistirá, como antes, na mera transferência da máquina burocrático-militar de uma mão para outra, mas no esmagamento dela. Isso é essencial para qualquer verdadeira revolução popular na Europa continental”. Isso foi precisamente o que a Comuna fez na construção deste novo tipo de Estado Operário. A conclusão geral seria, posteriormente, de grande importância na luta contra oportunistas, que acreditavam que os operários poderiam transformar o regime capitalista de pouco a pouco em socialismo.


Uma lição ainda mais vital ensinada pela Comuna de Paris foi a demonstração prática que dera sobre a ditadura do proletariado. Nessa questão, a Comuna foi uma demonstração brilhante da justeza da posição de Marx, que já no Manifesto do Partido Comunista, 24 anos antes, delineou de forma geral a ditadura revolucionária do proletariado. Pela mesma noção, a Comuna repudiou as intrigas dos anarquistas, que eram inimigos convictos da dominação da classe operária, que é a ditadura do proletariado.


A Comuna não era composta exclusivamente por trabalhadores. Na verdade, como apontam Lissagaray e Jaeckh, com a concordância de Lenin: “a maioria do governo era formado por representantes da democracia pequeno-burguesa”. Mui­tos deles eram intelectuais revolucionários. Dos 92 membros da Comuna, apenas algo como 25 eram operários, e nem todos eram membros da Internacional. Ainda assim, a clas­se operária de Paris assumiu plena iniciativa, e a influência do proletariado predominou. Assim Marx coloca a situação: “A maioria de seus membros eram naturalmente trabalhadores, ou representantes experientes da classe operária”.


A Comuna também não tinha, como colocamos antes, um programa socialista definido. Marx diz: “Sim, senhores, a Comuna tinha a intenção de abolir a propriedade de classe que faz do trabalho de muitos a riqueza de poucos. Buscava a expropriação dos expropriadores”. Ele também coloca que suas medidas “carregavam um caráter especificamente proletário”. Lenin também caracterizou a Comuna como “um governo popular dos operários” e declarou que “a Comuna tentou conduzir aquilo que hoje chamamos de ‘programa mínimo do socialismo’”.


A Comuna foi, de fato, uma ditadura do proletariado. Marx disse: “Foi essencialmente um governo da classe operária, produto da luta dos produtores contra a classe expropriadora, a forma política mais recentemente desvendada que trabalhou pela emancipação econômica dos operários” e que “a gloriosa revolução dos trabalhadores de 18 de março tomou um caminho ascendente em Paris”. Posteriormente, Engels, referindo-se aos “filisteus sociais-democratas”, defendeu: “Muito bem, senhores. Querem saber como é uma ditadura? Vejam a Comuna de Paris. Aquilo foi a ditadura do proletariado”.


A Comuna de Paris, a despeito de sua derrota final, foi a primeira revolução realmente vitoriosa da classe operária mundial. Marcou o primeiro sinal de queda do sistema capitalista, que a grande Revolução Russa, meio século depois, seguiria por meio de uma derrubada vasta e irreversível dos muros do capitalismo mundial. Lenin diz que, mesmo com todos os seus erros, a Comuna foi “o maior exemplo do maior movimento proletário do século XIX”.


De William Z. Foster, da obra “História das Três Internacionais”, editada em quatro volumes pelo selo Edições Nova Cultura


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