Cabral: "Os Insubstituíveis"



Devemos evitar a obsessão de alguns camaradas de que tudo estará estragado, que tudo irá acabar se eles deixarem a posição que estão. Ninguém é indispensável nesta luta; todos somos necessários, mas ninguém é indispensável. Se alguém precisar ir embora e acaba indo, e então a luta ficar paralisada, é porque essa luta era inútil. O único orgulho que temos hoje em dia, que eu tenho, é a certeza de que, depois do trabalho que tivemos, se eu tivesse que ir embora, ser parado, morrer ou desaparecer, existiriam aqueles aqui no Partido que poderiam continuar a tarefa do Partido. Se isso não acontecesse, então que desastre; nós não teríamos conquistado nada. Uma pessoa que tiver enquanto conquista algo que somente ela pode dar prosseguimento não fez nada ainda. Uma conquista vale a pena somente quando pode ser uma conquista de muitos e se existem muitos que conseguem tomar essa conquista e sustentá-la, mesmo que um par de mãos seja levado embora.


Mas existem camaradas que tem obsessões - de que se eles tiverem que sair de sua posição, tudo estará arruinado. Essa é uma obsessão que temos que combater, que devemos dar um fim. Isso sem mencionar os casos de outros camaradas que pensam que quando são transferidos irão morrer, porque eles já estabeleceram todas as condições de trabalho em um local e são chamados para atuar em outro. Que cegueira! Como se a nossa terra fosse apenas o seu cantinho! Isso demonstra a falta de consciência de uma razão real, dos objetivos e das características de nossa luta.


Devemos saber defender a verdade, dizer a verdade perante todos, sem medo, mesmo que a verdade implique algumas dificuldades. Devemos falar a verdade exata, cara a cara.


Os militantes não devem temer nenhum trabalhador responsável na estrutura do nosso Partido. Quem tem medo ainda não entendeu ou é covarde por natureza. Nosso Partido deu a todos a mesma força para não ter medo de ninguém. Já dissemos que lutamos para acabar com o medo entre os nossos povos da Guiné e de Cabo Verde. Não devemos ter medo de ninguém. O mais humilde militante não deve ter medo de ninguém, nem do Secretário-geral, nem de ninguém. Ele deve mostrar o respeito correto, pois isso é uma questão de respeito próprio.


Os trabalhadores responsáveis ​​não devem temer os militantes. Há trabalhadores responsáveis ​​dos quais os militantes e combatentes temem. Os primeiros são chefes bárbaros de outra época, não são dirigentes ou trabalhadores responsáveis ​​do PAIGC. Mas, às vezes, temem os militantes. Se ouvem militantes conversando, querem saber do que se trata, porque temem que os militantes lhes proporcionem dificuldades com a direção do Partido. Devemos acabar com isso.


A democracia revolucionária exige, com efeito, que trabalhadores e líderes responsáveis ​​vivam entre o povo, para o povo, atrás do povo. Eles devem trabalhar para o Partido com a certeza de que estão trabalhando para o povo de nossa terra. E devemos lutar para que, a todo custo, o povo sinta que é ele quem tem o poder de nossa terra em suas mãos. Até agora, eles não sentiram muito isso. Nas áreas libertadas, alguns camaradas usurparam esse poder de nosso povo. Devemos entregá-lo nas mãos de nosso povo. Ainda estamos em guerra e ainda é um pouco difícil. Mas, à medida que avançamos, temos de entregar o poder ao nosso povo para que tenham a certeza de que o poder é de fato deles.


Ninguém no Partido deve ter medo de perder o poder. Muitos países foram à ruína porque os governantes temiam perder a liderança. Não devemos ter medo de nada. Devemos dizer a verdade francamente ao nosso povo, aos nossos militantes, aos nossos camaradas. Se eles não estiverem felizes e puderem, eles nos dispensarão; nos jogarão fora. Mas nenhum de nós deve ter medo de nada, não devemos esconder a verdade para preservar nossa posição. Isso seria uma traição aos interesses de nosso povo, de nossa terra e de todos aqueles que confiam em nós.


Não devemos enganar o povo com palavras bonitas, com falsas promessas. Devemos dizer a eles francamente as dificuldades. Numa reunião em Boo, por exemplo, a população me disse: ”Mande-nos isso, aquilo. Queremos isso, aquilo, etc. na loja.” Eu respondi à população: ‘Não. Não podemos fazer isso e aquilo. O que estamos enviando já é um grande sacrifício. Se não ficar satisfeito, faça o que quiser, até saia do Partido, mas não estaremos enviando. Você deve se lembrar que você não é o único com necessidades. Outras pessoas em nossa terra também têm necessidades”. Aproveitei a oportunidade de estar com nossos apoiadores para ensiná-los, para conscientizá-los, para não mentir ou enganá-los com falsas promessas. Todos eles entenderam.


Como já disse, devemos avançar constantemente para colocar o poder nas mãos de nosso povo, para fazer uma mudança profunda na vida de nosso povo, até mesmo para colocar todos os meios de defesa nas mãos de nosso povo, para que o nosso povo defenda a nossa revolução. Isso é o que a democracia revolucionária será, de fato, amanhã em nossa terra. Qualquer um que governa seu povo, mas teme o povo, está mal. Nunca devemos temer o povo.


No marco da democracia revolucionária, como já disse, devemos trazer à tona os melhores filhos e filhas de nossa terra. O pior e o inútil devem ser deixados para trás. Nossa tarefa é preparar nossa enxada, nosso arado, nosso martelo, com os quais vamos construir o futuro de nosso povo em liberdade, progresso e felicidade. Melhoremos constantemente o nosso Partido, pois quanto melhor for o nosso Partido, mais certeza teremos de conseguir o que queremos para o nosso povo. Por isso devemos, como já dissemos, agir para que o nosso Partido pertença cada vez mais àqueles que o sabem fazer cada vez melhor.


Da obra “Amílcar Cabral – Unity and Struggle” (1979)


Do marxists.org


Tradução de Traduagindo

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