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"Recordações da vida íntima de Karl Marx"


Vi Marx, pela primeira vez, em fevereiro de 1865. Num comício do Saint Martin's Hall acabava de fundar-se a Internacional. Eu chegava de Paris para tomar conhecimento dos progressos da nova organização. M. Toloin, hoje representante do Senado burguês e um de seus delegados na Conferencia de Berlim, dera-me uma carta de recomendação para ele. Eu tinha, então, 24 anos. Jamais esquecerei a impressão que me causou, desde os primeiros momentos em que o vi. Nessa época, achava-se Marx debilitado fisicamente. Trabalhava no primeiro volume de O Capital, ainda que o mesmo só aparecesse dois anos depois, isto é, em 1867. Temia não poder terminar a obra e procurava receber cordialmente os moços, a quem dizia: "É preciso haver homens que continuem, depois de mim, a propaganda comunista". Marx é desses seres insólitos, que ocupam o primeiro lugar na ciência e na vida publica. De tal maneira confinava com essas duas atividades, que era difícil saber o que se projetava em primeiro lugar: se o homem de ciência ou o lutador socialista. Considerando que toda a ciência deve ser cultivada por si mesma e que nas investigações científicas não há resultados passageiros ou eventuais, era de opinião que se o homem de ciência não queria ocupar um plano secundário deveria participar incessante e ativamente da vida publica, sem fazer do seu gabinete um esconderijo, antes atirando-se às lutas sociais e políticas de sua época. "A ciência não deve significar apenas um prazer egoístico. Os que têm a sorte de consagrar-se aos estudos científicos deverão ser os primeiros a pôr sua ciência a serviço da humanidade". "Trabalhar pela humanidade" era sua divisa. Ainda que se comovesse profundamente com os sofrimentos das classes trabalhadoras, não fora uma ordem de considerações sentimentais que o levara até ao comunismo. Impelira-o até ai as conclusões de seus estudos históricos e econômicos. Entendia que todo espírito imparcial, não influenciado pelo interesse privado ou pelos preconceitos de classes, deveria chegar a essas mesmas conclusões. Se não levava ideias preconcebidas para o estudo da revolução econômica e política das sociedades humanas, ao escrever assumia, entretanto, a firme intenção de difundir o resultado de suas investigações como base científica do movimento socialista que, nessa época, se perdia entre as nuvens da utopia. Só se apresentava em publico em busca da vitória do proletariado, que tem por missão histórica instaurar o comunismo logo que possa apoderar-se do poder publico. O papel histórico da burguesia no poder foi, do mesmo modo, quebrar as correntes que a ligavam ao feudalismo, porque este se opunha ao desenvolvimento da indústria e da agricultura. Seu papel foi também, em consequência, o de estabelecer a livre circulação dos bens e dos homens, o contrato livre entre as empresas e os trabalhadores, a centralização dos instrumentos de produção e sua troca, sem se aperceber que, assim fazendo, preparava os elementos intelectuais e materiais da futura sociedade comunista. A atividade de Marx não dizia respeito apenas ao seu país de origem: "Sou cidadão do mundo — dizia — e trabalho onde me encontro". As perseguições, com efeito, que sofreu na França, na Bélgica e na Inglaterra, foram devidas à sua intervenção em acontecimentos locais. Vemos nele, contudo, menos que o agitador, o homem de ciência, aquele que pude observar num quarto do Maitland Park Road, local por onde constantemente passavam os soldados avançados do mundo civilizado, que vinham esclarecer-se com o pai do pensamento socialista. O aposento de Marx possui seu sentido histórico. Era preciso conhecê-lo para chegar-se à intimidade da vida intelectual de Marx. Estava situado no primeiro pavimento e o largo balcão, por onde penetrava abundante luz, dava para o parque. De um e de outro lado do fogão, frente à janela, estavam as estantes repletas de livros, pacotes de jornais e manuscritos. Diante do fogão, de um dos lados da janela, viam-se duas mesas com papeis, livros e jornais. No centro da sala, na parte mais clara, havia uma mesa singela, de um metro de comprimento por 17 centímetros de largura e uma poltrona de madeira. Entre esta e as estantes, via-se um divã de couro, que Marx utilizava para descansar, de quando em quando. Sobre o fogão, havia também livros misturados com cigarros e maços de tabaco, retratos de suas filhas, de sua companheira, de Wilhelm Wolff e de Engels. Marx era grande fumante. "O Capital, dizia-me, jamais me dará o que já gastei em fumo enquanto o escrevia". Estragava muitos fósforos. De vez em quando, o cachimbo ou o cigarro se apagavam. E, por isto, desperdiçava incrível quantidade de fósforos. Não permitia que ninguém lhe arrumasse — ou, melhor, lhe desarrumasse — os papeis. Na realidade, essa desordem era apenas aparente. Tudo estava no seu devido lugar. Encontrava sempre o livro ou o papel que necessitasse. No decurso de uma conversa, podia mostrar o trecho a que se referisse o tema em debate, exibindo-o imediatamente ao interlocutor. Estava tão identificado com o ambiente de seu aposento, que os livros lhe obedeciam como partes do próprio corpo. Não ligava importância à estética. Volumes de todo tamanho, misturados a folhetos, confundiam-se pitorescamente. Não os arrumava de acordo com as dimensões, mas levando em conta o assunto. Para Marx, os livros representavam instrumentos de trabalho e não objetos de luxo. Afirmava: "Os livros são meus escravos e hão de servir-me de acordo com meus desejos e com toda a pontualidade". Sem levar e conta o formato ou a beleza gráfica, maltratava os livros, dobrava-os em ângulo, borrava-os e sublinhava as passagens históricas. Não era dado ao costume de anotar. Limitava-se a por um ponto de exclamação ou interrogação, quando o autor se desviava do verdadeiro sentido. Seu sistema de sublinhar permitia-lhe ir ao assunto sempre que julgasse oportuno. Tinha o costume de reler os livros, guardando os assuntos na memória. Exercitou esta desde a adolescência. Seguindo os conselhos de Hegel, decorava versos escritos em língua que desconhecia. Sabia de cor as obras de Heine e Goethe e citava, de memória, trechos desses autores. Lia as obras dos poetas europeus e, frequentemente, no texto original, relia Esquilo, a quem considerava, concomitantemente com Shakespeare, o gênio mais democrático de todos os tempos. Dedicou-se a estudar profundamente a obra de Shakespeare, por quem sentia admiração sem limites. Conhecia o caráter de todas as personagens criadas pelo dramaturgo inglês. Da sua devoção ao poeta de Hamlet compartilhava toda a família, tanto que suas filhas sabiam de cor os trabalhos de Shakespeare. Depois de 1848, querendo aperfeiçoar-se no conhecimento da língua inglesa, examinou e classificou as expressões de Shakespeare. Fez o mesmo com parte da obra do polemista inglês William Cobbert, a quem grandemente se afeiçoara. Entre seus poetas favoritos, contavam-se Dante e Robert Burns. Tinha verdadeiro prazer em ouvir as filhas recitarem-lhe fragmentos de sátiras ou madrigais do poeta escocês. Cuvier, esse infatigável trabalhador a serviço da ciência, instalara, no Museu de Paris, que dirigia, vários laboratórios para seu uso pessoal. Cada laboratório destinava-se a um fim especial e continha livros e instrumentos adequados. Quando Cuvier se aborrecia com determinada pesquisa, passava a outro laboratório, ai continuando outra classe de estudo. Esta simples troca de atividade representava para ele saudável repouso. Marx, trabalhador tão incansável quanto Cuvier, não dispunha de meios para instalar tantos laboratórios. Sua forma de descansar era passear pelo quarto. Seus passos como que estavam impressos no tapete, já desgastado, desde a porta à janela. De quando em quando, estirava-se no diva e lia uma novela. Às vezes, lia duas ou três de uma vez, andando de um lado para outro. Como Darwin, era grande ledor de novelas. Tinha preferência pelas do século XVIII, interessando-se, em particular, por Tom Jones, de Fielding. Os autores, seus contemporâneos, de que mais gostava, eram Paul de Kock, Charles Lever, Alexandre Dumas, pai, e Walter Scott. Considerava magistral a obra deste último Old Mortalitis. Admirava as narrações alegres e de aventuras. Cervantes e Balzac eram também autores de sua predileção. Em Dom Quixote via os derradeiros dias da cavalaria andante, que teve seus méritos transformados em objetos de chacotas e escárnio, por parte do mundo burguês. Sentia tal interesse por Balzac, que se propunha escrever uma obra crítica sobre A Comédia Humana, "logo que terminasse seus trabalhos sobre economia''. Balzac não foi só o historiador da sociedade de seu tempo, mas também o criador de tipos proféticos que, na época de Luis Felipe, existiam apenas em estado embrionário, só se desenvolvendo completamente ao tempo de Napoleão III. Marx lia com perfeição todas as línguas europeias e escrevia em três: alemão, francês e inglês, causando admiração aos donos dessas línguas. "Um idioma é arma em luta pela vida" — dizia muitas vezes. Tinha muita facilidade em adquirir conhecimentos de qualquer idioma. Aos cinquenta anos, começou a estudar o russo e, ainda que esta língua nada tivesse de comum com a etimologia das línguas que conhecia, em seis meses já lia trechos de escritores e poetas russos, como Gogol, Puchkin e Chtcherin. O que o levou a aprender o russo foi o desejo de ler diretamente os documentos oficiais que o Governo do Czar não permitia circulassem pelas espantosas revelações que continham. Os amigos enviavam essa documentação a Marx, que, seguramente, era o único economista da Europa ocidental que estava em condições de a conhecer. Além dos poetas e novelistas, interessava-lhe a matemática. A álgebra era para ele como um reconstituinte moral e serviu-lhe de refugio nos momentos mais difíceis e dolorosos de sua agitada existência. Durante o tempo da enfermidade da mulher, foi obrigado a afastar-se de seus trabalhos científicos. E o único meio que encontrou, para subtrair-se à impressão que lhe causava a doença da companheira, foi refugiar-se no árido campo da matemática. Nesse doloroso período, escreveu um trabalho sobre calculo infinitesimal, obr