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Lima Barreto: "Sobre o maximalismo"



Em 11 de maio do ano passado, na revista A.B.C., dessa cidade, na qual durante muito tempo colaborei, tive ocasião de publicar um longo artigo – “No ajuste de contas” – que as bondosas pessoas que o leram tacharam-no logo de manifesto maximalista [1]. O artigo não tinha esse pomposo intuito, mas, sendo tomado por tal, eu deixei que ele assim corresse mundo e fui desde logo classificado e apontado como maximalista.


Quando houve o motim de 18 de novembro, estava no Hospital Central do Exército, havia perto de quinze dias; mas, assim mesmo, espantei-me que o trepoffismo da Rua da Relação não quisesse ouvir-me a respeito.


Desde esse artigo, muito de longe tenho tocado nessa questão de maximalismo; mas, lendo na excelente Revista do Brasil, de São Paulo, o resumo de uma conferência do eminente sociólogo argentino, Senhor doutor José Ingenieros, lembrou-me voltar à carga, tanto mais que os nossos sabichões não têm nenhuma espécie de argumento para contrapor aos apresentados pelos que têm meditado sobre as questões sociais e veem na revolução russa uma das mais originais e profundas que se tem verificado nas sociedades humanas. Os doutores da burguesia limitam-se a acoimar Lênin, Trótski e seus companheiros de vendidos aos alemães.


Há por aí uns burguesinhos muito tolos e superficiais, porém, que querem ir além disto; mas cuja ciência histórica, filosófica e cuja sociologia só lhes fornecem como bombas exterminadoras dos ideais russos a grande questão de tomar banho e a de usar colarinho limpo.


Estes meninotes, ad instar Eça de Queirós, repisam essas bobagens com ares petronescos de romanos da decadência que jantam no Novo Democrata, faltando-lhes até um bocadinho de energia viril para arranjar um emprego nos Correios.


Os ricaçozinhos que lhes repetem as sandices esquecem-se que, quando os pais andavam nos fundos dos armazéns e dos trapiches, a trabalhar como mouros para conseguir as fortunas que eles agora nem as gozar sabem, mal tinham eles tempo para lavar o rosto, pela manhã, e, à noite, os pés, para deitarem-se. Foi à custa desse esforço e dessa abnegação dos pais que esses petroniozinhos agora obtiveram ócio para bordar vagabundamente almofadinhas, em Petrópolis, ao lado de meninas deliquescentes. Hércules caricatos aos pés de Onfales cloróticas e bobinhas.


A argumentação dessa espécie de insetos ápteros, cujos costumes e inteligência estão à espera de um Fabre para serem estudados convenientemente, dá bem a medida da mentalidade deles.


Os que são ricos, de fato, e aqueles que se querem fazer ricos, à custa de um proxenetismo familiar qualquer, sentindo-se ameaçados pelo maximalismo, e tendo por adversários homens ilustrados, lidos, capazes de discussão, deviam, se tivessem um pingo de massa cinzenta no cérebro, procurar esmagar os seus inimigos com argumentos verdadeiramente científicos e hauridos nas ciências sociais. Não fazem tal, entretanto; e cifram-se em repetir blagues do Eça e coisas do popular Quo Vadis.


“Non ragioniam di lor, ma guarda e passa…”.


Deixemo-los, portanto; mas o mesmo não se pode fazer com o articulista de fundo do O País, que toda a gente sabe ser o Senhor Azevedo Amaral. Este senhor, de uma hora para outra, adquiriu, nos centros literários e jornalísticos do Rio de Janeiro, uma autoridade extraordinária sobre essas questões sociais. Não quero negar-lhe valor; ela, a autoridade, era justa até certo ponto; mas vai se tornando insolente, devido ao exagero dos admiradores e sicofantas da ilustração do Senhor Azevedo Amaral.


O Senhor Azevedo Amaral é hoje o assessor ilustrado do Senhor João Laje, no O País; é o seu consultor para as coisas de alta intelectualidade, que demandam leituras demoradas, o que o Senhor Laje não pode fazer, pois anda sempre atrapalhado com intermináveis partidas noturnas de poker e, de dia, com as suas manobras do gênero jornalístico, nacional e estrangeiro. É o Senhor Amaral quem fala pelo Senhor Sousa Laje a respeito da grande política, das questões econômicas e sociais; e fala com a segurança de sua fama, com a irresponsabilidade do anonimato e com o desdém pelos seus prováveis contraditores que só o podem atacar pelas pequenas revistas e jornais obscuros, aos quais ninguém dá importância. O Senhor Amaral escreve no O País, órgão da burguesia portuguesa rica do Rio de Janeiro, do Banco Ultramarino, do Teixeira Borges, que está sempre a navegar de conserva com as nossas esquadras, do Souto Maior & Cia., do visconde de Morais etc.; e, sendo todos os grandes jornais mais ou menos isso, isto é, órgãos de frações da burguesia rica, da indústria, do comércio, da política ou da administração, é bem de ver que um artigo maximalista não terá publicidade em nenhum deles.