Por que é importante estudar a obra "História das Três Internacionais"?



Desde setembro de 2020, as Edições Nova Cultura têm publicado mensalmente as primeiríssimas edições brasileiras dos volumes que formam a grande obra “História das Três Internacionais: Os movimentos socialista e comunista mundiais de 1848 até os dias de hoje”, publicada pela primeira vez no ano de 1955, nos Estados Unidos, e escrita por William Zebulon Foster, dirigente comunista de aço, revolucionário de primeiro calibre e grande líder do movimento operário estadunidense.


Por se tratar de um calhamaço de mais de seiscentas páginas dividido em quatro grandes partes, respectivamente referentes às histórias da Primeira, Segunda e Terceira Internacionais Comunistas (a quarta parte, denominada “O Avanço Histórico do Socialismo”, trata do período que se seguiu à dissolução da Terceira Internacional Comunista e à crise geral do sistema capitalista após o fim da Segunda Guerra Mundial no ano de 1945), as Edições Nova Cultura, por conveniência do estudo, decidiram publicar as quatro grandes partes sob o formato de quatro livros. Facilita o estudo de forma mais cronológica e concentrada, até mesmo pelo fato de os respectivos volumes tratarem de períodos históricos cronológicos. Portanto, todo aquele ou aquela que busca uma melhor compreensão da obra deve começar pelo Volume I, “História das Três Internacionais – Associação Internacional dos Trabalhadores (1864 – 1876)”, referente à história da Primeira Internacional fundada por Marx e Engels.


Sem a menor intenção de nos vangloriarmos, é necessário dizer que a publicação desta obra não tem quaisquer precedentes em nosso país. É algo inédito, nada semelhante foi feito ao longo de toda a história quase centenária da literatura socialista e comunista brasileira. Não estamos exagerando, pois até então, não havia entre a literatura brasileira qualquer obra que sistematizasse a história das três Internacionais Comunistas que organizaram o proletariado revolucionário do mundo em suas respectivas épocas. Mesmo durante o auge da literatura socialista e comunista brasileira, com a existência da Editora Vitória nos anos 1940, 1950 e 1960, mantida pelo então Partido Comunista do Brasil (PCB), nenhuma obra desta natureza foi publicada. Assim, a publicação da “História das Três Internacionais” constitui um mérito sem igual das Edições Nova Cultura e dos militantes da União Reconstrução Comunista.


Seriamos injustos, evidentemente, se chegássemos ao ponto de dizer que não havia, no Brasil, qualquer artigo, texto ou livro que tratasse em algum nível das respectivas histórias da Primeira, Segunda e Terceira Internacionais. Todavia, 1) nenhuma das obras até então existentes trataram de forma cronológica e sistematizada da história completa das três Internacionais Comunistas sob uma perspectiva Marxista-Leninista, ligando os respectivos desenvolvimentos das três Internacionais à história mundial e à situação política e econômica respectivamente prevalente em cada uma das épocas; 2) a esmagadora maioria das obras presentes na literatura brasileira acerca do tema tem um propósito exclusivamente acadêmico, não-militante. Devido à prevalência deste propósito puramente acadêmico, as obras existentes tratam das histórias das respectivas Internacionais de forma extremamente fragmentária, detalhando de forma excessiva recortes temporais muito curtos e impossibilitando, assim, uma compreensão global da história das três Internacionais. Pelo fato de a “História das Três Internacionais”, ao contrário, ter sido escrita por um grande dirigente operário e líder histórico do movimento comunista internacional, a obra possui um propósito profundamente militante e de formação política de quadros comunistas ou do movimento popular; 3) devido ao acesso precário dos pesquisadores brasileiros a materiais e fontes confiáveis sobre o tema, a grande maioria das obras no Brasil sobre cada uma das três Internacionais está mais ou menos permeada pelo anticomunismo ou concepções de mundo pequeno-burguesas ou revisionistas, quando não por falsificações completas. A “História das Três Internacionais”, ao contrário, foi escrita por um autor que liderou pessoalmente a construção de uma das Internacionais, a Terceira Internacional Comunista (Comintern), e tomou parte pessoalmente nos grandes acontecimentos que permearam a trajetória deste grande organismo do proletariado revolucionário do mundo. Para escrever esta obra, William Z. Foster não só participou pessoalmente dos acontecimentos, como acessou fontes de primeira mão e consultou pessoas e líderes que foram testemunhas oculares desta trajetória.


Embora haja muitos outros, somente estes fatos são suficientes para fundamentar o quão importante é esta obra. Sem mais delongas, respondamos à pergunta que dá título ao presente artigo.


A “História das Três Internacionais” permite preencher importantes lacunas em nossa formação política


Devido ao fato de só agora, em pleno 2020, ter sido publicada a edição brasileira da “História das Três Internacionais”, nós, militantes socialistas e comunistas, padecemos de importantes lacunas em nossa formação política. Isso é algo que vale tanto para os militantes que só recentemente se interessaram em conhecer o comunismo quanto para os militantes veteranos. É comum que até mesmo militantes veteranos não conheçam importantes correntes políticas que existiram – e existem – no movimento socialista e comunista, como o sindicalismo puro e simples, anarcossindicalismo, lassalleanismo, proudhonismo, bakuninismo, blanquismo e demais formas de socialismos burguês e pequeno-burguês contra os quais Marx e Engels tanto lutaram em suas respectivas épocas. Até mesmo muitos dos militantes mais experientes não conhecem as correntes políticas do revisionismo moderno como o bernsteinianismo, kautskismo, millerandismo, e inclusive as correntes políticas revisionistas que remontam já ao período da revolução e construção socialistas, como o trotskismo, bukharinismo, zinovievismo e outras.


Sempre que tentamos compreender os escritos de Marx e Lenin, deparamo-nos com referências a estas correntes políticas e aos indivíduos que estão mais ou menos ligados a elas. Sabemos que muitas das obras (senão a grande maioria) de Marx e Lênin foram polêmicas dirigidas contra estas correntes e seus representantes, escritas no calor dos respectivos períodos. Sem que conheçamos no que consistem tais correntes e como elas se formaram historicamente, nossa própria compreensão dos escritos de Marx e Lenin, bem como de outros líderes do movimento comunista internacional, serão bastante insuficientes.


A “História das Três Internacionais” fornece um resumo de toda a história mundial do século XVIII a 1955


Muito embora o objetivo da obra seja tratar da história das três Internacionais Comunistas, não é possível fazê-lo sem conhecer a cronologia e o desenrolar da História. William Z. Foster começa a tratar do desenvolvimento do capitalismo mais ou menos a partir da dissolução da velha economia de subsistência, típica dos períodos áureos do feudalismo, até os períodos das revoluções burguesas do século XVIII, passando pelas diferentes revoluções industriais nos diferentes países que assumiram a vanguarda do progresso capitalista neste mesmo período. Contudo, por não se tratar do objeto do livro, Foster trata apenas rapidamente das revoluções burgueses e da dissolução feudal, começando uma avaliação mais detalhada no período da revolução industrial, iniciada nos séculos XVIII e XIX, e prosseguindo em uma avaliação da história dos séculos XIX e XX, compreendendo como o desenvolvimento histórico resultou na conformação dos partidos comunistas nos diferentes países.


Ademais, conforme falamos acima, devido à posição marxista-leninista de seu autor, e por ter sido ele próprio um dirigente da Terceira Internacional Comunista de Lenin e Stalin, o leitor tem um acesso a uma avaliação verídica da história das Internacionais, seus erros, limitações e avanços.


Tal como falamos no tópico anterior sobre as consequências de não conhecermos as correntes do socialismo pequeno-burguês e do revisionismo, sabemos que Marx e Lanin fizeram uma série de avaliações cuja compreensão é dependente, também, de se conhecer a história do período determinado, quais eram os partidos políticos da época, os conflitos que estavam em desenvolvimento, etc. Será muito difícil, por exemplo, compreender a história da Comuna de Paris, bem como os escritos de Marx e Lanin sobre este acontecimento, sem compreender a história da Guerra Franco-Prussiana e a história das contradições entre as burguesias francesa e germânica. Nossa compreensão sobre a Revolução Russa de 1917 também será profundamente limitada sem compreendermos a história da Primeira Guerra Mundial, e assim por diante. O livro de Foster fornece esta bagagem histórica que nos falta.


A “História das Três Internacionais” é uma ilustração do método Marxista-Leninista para avaliar o desenvolvimento da História


Tal como estabelece o Marxismo, o desenvolvimento histórico resulta das transformações operadas na forma como os homens produzem seus meios de subsistência, nas relações que estabelecem entre si para produzir e reproduzir suas condições de vida (estrutura econômica), e na forma como as transformações destas relações econômicas se refletem na inteligência dos homens, na moral, costumes, valores, nas formas de Estado, no Direito, na política, e assim por diante (superestrutura política e ideológica). [1] Portanto, tratar da História mundial segundo os princípios do marxismo-leninismo implica estudar o fio condutor que a movimenta, isto é, as transformações operadas produção e as lutas entre as classes sociais no seio das relações de produção, de como a classe avançada de uma determinada sociedade triunfa sobre uma classe reacionária, resultando na transformação social revolucionária.


Pois bem, tal é o método empregado por William Z. Foster para estudar a história mundial nesta obra. Não há um único acontecimento mencionado pelo autor sem que este traga consigo todo o quadro econômico e político da época, as situações de crise e prosperidade do capitalismo e dos sistemas pré-capitalistas, as lutas de classes e os antagonismos entre a classe operária e a burguesia, o papel do campesinato, as lutas no seio das próprias classes reacionárias dos diferentes países, a relação entre as potências imperialistas e os países dominados, e assim por diante. Conhecendo a História segundo este método, não há dúvidas que o leitor terá em mãos, da mesma forma, uma grande ilustração sobre como empregar a Economia Política revolucionária-proletária para estudar os acontecimentos históricos.


William Z. Foster foi um Marxista-Leninista contumaz e grande líder do movimento comunista internacional


William Z. Foster nasceu em 1881 no condado de Bristol, estado de Massachusetts, nos Estados Unidos. De ascendência irlandesa, seu pai era um socialista feniano irlandês que rodou os Estados Unidos difundindo as ideias fenianas entre os operários irlandeses e demais migrantes. Já no ano de 1894, com apenas treze anos de idade, Foster, metalúrgico de profissão, ingressou nas fileiras do movimento operário. Filiou-se ao antigo Partido Socialista da América (PSA) fundado no ano de 1901, embora sempre tivesse mantido uma postura de crítica às concepções racistas do antigo PSA. Também insatisfeito com o peleguismo praticado pelo partido no movimento operário dos Estados Unidos, após ter militado no PSA por oito anos, Foster tornar-se-ia “cada vez mais vermelho”, de acordo com suas próprias palavras. Após romper com o PSA, aderiu à Internacional operária IWW (Industrial Workers of the World, ou Operários Industriais do Mundo).


Leitor contumaz, apoiou a revolução de outubro de 1917, na Rússia, e aderiu às ideias Marxistas. Em 1919, Foster lideraria uma das mais importantes lutas de sua vida e da história do movimento operário estadunidense, a famosa Greve do Aço, que logrou mobilizar a esmagadora maioria dos trabalhadores das usinas de aço do país e unificar os vinte e quatro grandes sindicatos da categoria em um único comitê grevista que arrancou da burguesia monopolista ianque uma vasta gama de demandas. Neste mesmo ano, Foster participaria da fundação do Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA), que em poucos anos se filiaria ao Comintern, a Terceira Internacional Comunista, fundada no ano de 1919 por Lênin e outros grandes revolucionários proletários. Em 1920, fundou a Liga Educacional Sindical (LES), e em 1921, a LES se filiou à Internacional Sindical Vermelha (Profintern), tornando-se, na prática, a sucursal estadunidense do Profintern.


Durante as eleições dos anos de 1924, 1928 e 1932, Foster foi candidato à presidência dos Estados Unidos pelo CPUSA, ocasiões nas quais o partido adotou uma plataforma anti-monopolista, de reivindicação da reforma agrária para os negros, autodeterminação para a nação negra, e cooperação com a União Soviética. Encabeçando o CPUSA, Foster conduziu uma dura luta contra os setores fascistas da burguesia monopolista estadunidense, e dirigiu o movimento operário estadunidense no sentido de pressionar o governo de seu país a se colocar contra o fascismo na arena internacional.


Em 1932, Foster sofreu um terrível ataque cardíaco, ocasião na qual, em razão de sua saúde precária, a liderança do CPUSA passaria para seu companheiro Earl Browder. Alguns anos depois, porém, principalmente no período durante e após a Segunda Guerra Mundial, Earl Browder seria um dos principais expoentes da corrente revisionista conhecida como “browderismo”, que atribuía ao capitalismo monopolista estadunidense um caráter “excepcional”, isto é, as leis gerais do sistema capitalista não se manifestariam – ou pelo menos não integralmente – nos Estados Unidos. Este país havia chegado a um nível de desenvolvimento no qual não mais sofreria de crises econômicas e que, em virtude do elevado grau de monopolização, seria possível promover um desenvolvimento racional e harmonioso das forças produtivas neste país. Por conseguinte, as lutas de classes também não se manifestariam e os operários estadunidenses, em razão do padrão de vida relativamente alto conquistado durante as décadas de 1940 e 1950, não seriam proletários no sentido estrito do termo. Foster e outros dirigentes conduziram uma luta ideológica contra o browderismo que resultou na expulsão de Browder do CPUSA no ano de 1948 e na nova ascensão de Foster à condição de secretário-geral do partido. Foster e seus camaradas também foram responsáveis por grandes lutas ideológicas contra as tendências trotskistas que se manifestam nas fileiras partidárias, tendências estas cujo principal expoente era o dirigente Jay Lovestone.


Este breve extrato biográfico permite que concluamos que William Z. Foster era um comunista de enorme experiência prática e teórica. Estudar a “História das Três Internacionais” implica ter contato com parte de sua gigantesca experiência prática e com seu método de escrita. Ademais, outros grandes líderes comunistas dos Estados Unidos, tal como Harry Haywood – autor da obra “Libertação Negra”, cuja primeira edição brasileira foi também recentemente publicada pelas Edições Nova Cultura –, tiveram em Foster um grande camarada que forneceu críticas e informações para que escrevessem outras importantes obras.


Não há dúvidas que a “História das Três Internacionais” deve se tornar o livro de cabeceira de todo comunista militante que se preocupa com os destinos da revolução brasileira.



NOTAS


[1] Também devemos incluir aqui, evidentemente, a forma como a superestrutura política e ideológica acelera ou desacelera as transformações operadas nas relações de produção, cumprindo, em determinadas ocasiões, até mesmo uma função determinante.

NOVACULTURA.info

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