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Século XX e o Choro em São Paulo



O século XX é marcado pelo avanço dos meios de comunicações no Brasil. O primeiro deles, essencial para a disseminação do Choro, é o Rádio, que se tornou cotidiano na vida dos brasileiros, sendo utilizado como entretenimento cultural e para fins políticos. Com o advento, emergiu-se um novo mercado de trabalho, fazendo-se necessária uma nova safra de músicos para suprir a demanda. A primeira transmissão ocorreu no Rio de Janeiro, em 1922 [1], simultânea a comemoração do centenário da “Independência”.


Na década seguinte, houve um salto qualitativo e quantitativo para a música popular, muito por efeito da Rádio Record, que projetou diversos artistas, entre eles muitos chorões, para São Paulo [2]. No entanto, os anos 30 é também marcado pelo surgimento da geração conhecida por compor a Época de Ouro do Rádio, concatenada aos chorões que montavam seus conjuntos e improvisavam nas pausas que ocorriam durante as transmissões ainda precárias das Rádios. Esses conjuntos, que levavam o nome de regionais por suas características serem determinadas por sua região de origem, eram a principal mão de obra dos programas de Rádio [3].


“O traço essencial da etapa histórica iniciado no Brasil com a Revolução de 1930 é o da aceleração no desenvolvimento das relações capitalistas e, consequentemente, no crescimento quantitativo e qualitativo da burguesia e do proletário [...]. O ritmo de desenvolvimento das relações capitalistas aumenta progressivamente, por força de acumulação [...]” [4]


O Rádio teve grande espaço entre os anos de 1940-50, por meio da grande Rádio Nacional, aurora das emissões para todo o país, veículo de propagação ideológica que “consiste na função predominante dos meios e das técnicas de cultura de massa” [5]. Um dos principais Regionais da Época de Ouro do Rádio foi o de Benedito Lacerda, que contava com Canhoto no cavaquinho, Dino no sete cordas e Meira no seis cordas, com o passar do tempo, Lacerda cede espaço e Canhoto fica com a batuta do Regional. Muitos chorões de magnitude histórica foram pilares para o avanço do Choro através do Rádio, lembramos aqui Luperce Miranda, Altamiro Carrilho, Abel Ferreira, o mestre Radamés Gnatalli e, talvez o mais importante deles, Waldir Azevedo, que com seu cavaquinho elevou o Choro a um “status” internacional. Surgia, então, “Brasileirinho”, “Delicado” e “Pedacinho do Céu”.


“Aceitando a nova realidade, o imperialismo instala-se no interior e disputa o mercado interno; a legislação que pretende reservar esse mercado à indústria nacional (confundida, a propósito, como indústria interna, isto é, instalada dentro, no interior) protege essa indústria estrangeira “[6]


Mas é em 1960 que o Brasil (e o mundo) presenciou a revolução no Choro, a seriedade e meticulosidade para com o gênero, a paixão e sabedoria do judeu Jacob Pick Bittencourt – que em referência e reverência a seu astuto instrumento leva o nome de Jacob do Bandolim –, “um escrivão de justiça, alto e de voz possante, que, mantendo a tradição dos chorões funcionários públicos, revolucionou o bandolim [...], considerado um dos maiores instrumentistas e compositores de choro de todos os tempos” [7]. Jacob odiava o termo Regional, termo que para ele representava um certo descaso com os grupos de Choro. Na década de 1960 organiza aquele que viria a ser um dos maiores grupos de Choro, o “Época de Ouro”, em atividade até os dias de hoje. Jacob do Bandolim era admirador dos velhos costumes, “organizava em sua casa em Jacarepaguá memoráveis rodas de choro, que considerava fundamentais para a perpetuação do gênero. “Estão faltando quintais”, sentenciava ele [8]. Contudo, pelo grande número de chorões que participaram da emancipação do gênero, alertamos que aqui apenas alguns foram mencionados.



Nos anos de 1970 o Choro sofre uma reviravolta. Em meio a ditadura, os instrumentos originários, como o violão sete cordas, o cavaquinho, o pandeiro... estavam esquecidos, muito por conta da adaptação aos moldes americanos que sofre a música brasileira. Incluindo a guitarra elétrica, entre outros instrumentos, a bossa nova, depois o movimento da Tropicália e a música engajada se sobrepuseram aos velhos chorões. O esquecimento dos antigos instrumentos e a adaptação aos novos não necessariamente configuram um movimento de não progresso na música, mas devemos salientar que há uma questão da hegemonia e do porquê dessa sobreposição.


“A cultura dominante se altera, não em sua formação central, mas em muitos de seus traços articulados. Mas então, em uma sociedade moderna, ela deve sempre mudar nesses moldes se quiser manter-se dominante, se ainda quiser ser sentida como realmente central em todas as nossas atividades e interesses” [9]


Muito dessa reviravolta, que entendemos também como uma ruptura, deveu-se ao aparecimento de jovens advindos da Bahia, cujo o resgate dos velhos instrumentos proporcionou atalhos para o choro novamente. Esses jovens carregavam o nome de “Os Novos Baianos”. Não só o grupo, mas os festivais que ali se iniciavam, com a “revelação de novos grupos e músicos talentosos, espelharam-se pelas principais cidades do País. O chorão virou pop star televisivo” [10]. Jornalistas cariocas de esquerda, cultivados na verdadeira música popular, abriram novamente o caminho para o choro.


“O espaço dado na imprensa carioca por diversos jornalistas de esquerda como o próprio Sergio Cabral, Lena Frias, Juarez Barroso, Moacir Andrade e José Ramos Tinhorão, entre outros, aos artistas da chamada música brasileira tradicional alimentava a redescoberta desses valores” [11]


Em 1975, o pianista Artur Moreira Lima regrava peças de Ernesto Nazareth, revivendo o choro originário. Nesse mesmo período, foi instaurada no MIS (Museu da Imagem e Som) a Semana Jacob do Bandolim. Seu organizador foi o exímio pesquisador Ary Vasconcelos, o choro então volta a se destacar pelos inúmeros Clubes do Choro que se enraizavam pelo Brasil [12].


Mas e o choro em São Paulo? Podemos citar o nome de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, que revolucionou a brasilidade nas músicas. Garoto nasceu em 28 de junho de 1915, na Vila Economizadora, uma área operária fundada em 1907, no bairro da Luz, junto ao rio Tamanduateí, e atual linha férrea da CPTM, vizinho do Brás e do Pari [13]. Ao lado de Carmem Miranda, torna-se reconhecido internacionalmente por seu solo de violão tenor na música “South American Way”. Foi prestigiado também pelo cineasta Woody Allen, que por sinal era clarinetista, e incluiu o solo de Garoto em seu filme Rádio Day; no Brasil, Chico Buarque e o poeta Vinícius de Moraes deram letra a sua composição “Gente Humilde”. Ao lado de Chiquinho do Acordeon compõe seu maior sucesso, “São Paulo Quatrocentão” [14].


“Garoto disputava com Jacob do Bandolim o título de melhor instrumentista de quatro cordas. Garoto era mais inventivo, e Jacob, mais detalhista [...] com o tempo, a importância de Garoto foi se revelando por completo. Revolucionou o choro, criou a moderna escola de violão brasileiro, foi o verdadeiro precursor da bossa nova (inclusive dando aulas a Carlos Lyra, pouco antes de morrer) [...] Garoto foi o precursor de Jacob [...] A música popular brasileira do século tem algumas pessoas seminais. Garoto foi uma delas. Era uma espécie de Mozart, no talento e na fragilidade. Intrinsecamente musical, como todo gênio tinha a falta de prática para a vida. Não fez carreira nos Estados Unidos porque sua primeira mulher sofreu discriminações de cor” [15]


São Paulo é sem dúvida um estado que respira, vive e dissemina o choro, também por causa de um despretensioso chorão, que em sua cidadezinha do interior paulista, chamada Santa Rita do Passo Quatro, soou acordes em um pacato baile e fez nascer “Tico-Tico no Farelo”, ou “Tico-Tico no Fubá”, parte do imaginário e da memória afetiva dos brasileiros. Todo brasileiro, alguma vez na vida, já escutou Zéquinha de Abreu. Com isso, as chacotas e desprezos vindos dos cariocas se esvaiu, “a qualidade e quantidade de nomes vindos de São Paulo fizeram desaparecer o descrédito há muitas décadas” [16].


Outros grandes nomes fizeram parte da rota “chorística” de São Paulo, o violonista Armando Neves, cuja história é deveras interessante, pois foi de ofício jogador de futebol. Nascido em Campinas defendeu os dois times da cidade, uma das maiores rivalidades do futebol brasileiro, Ponte Preta e Guaraní, quando na capital paulista, chegou a jogar no Corinthians, transferiu-se então para a música, e foi figura importante e marcante no choro paulistano [17]. Na década de 70, o ilustre Izaías Bueno montou seu regional e reverberou o choro nacional, Zé Barbeiro, Miltinho multi-instrumentista, Dudáh Lopes, Stanley, Marco Antônio, Nailor Aparecido Azevedo (Proveta), Jamil Caram, dentre outros tantos paulistanos, que montaram regionais ou seguiram carreira solo, ajudaram a fundar e alicerçaram o choro e o rádio paulistano.


Assim, o maior evento moderno de choro, megafestival realizado na terra da garoa, o festival Chorando Alto, realizado em 1996, 1997, 1998, e dirigido por Helton Altman, no SESC São Paulo, direcionou os rumos para o choro no século XXI. Ali, a presença marcante de Martinho da Vila fazendo homenagens ao conjunto da velha guarda, como Pixinguinha, Donga e João da Baiana [18], mostra-nos que os paulistanos caíram nas graças e nos encantos do choro.


Por Caio V.Z Orru


Referências

[1] - DINIZ, A. Almanaque do choro: a história do chorinho, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


[2] - CAZES, H. Choro do quintal ao municipal. 4. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.


[3] - Idem, Almanaque do choro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


[4] - SODRÉ, N. W Síntese de História da Cultura Brasileira. São Paulo: Ed. Difel, 1986.


[5] – Idem, Síntese de História da Cultura Brasileira. São Paulo: Ed. Difel, 1986.


[6] - Idem, Síntese de História da Cultura Brasileira. São Paulo: Ed. Difel, 1986.


[7] - Idem, Almanaque do choro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


[8] - Idem, Almanaque do choro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


[9] - WILLIAMS, R. Cultura e Materialismo. São Paulo: Ed. Unesp, 2011.


[10] - Idem, Almanaque do choro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


[11] – Idem, Choro do quintal ao municipal. 4. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.


[12] – Idem, Almanaque do choro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


[13] - AMARAL JR, J. A. Garoto: Uma Breve História Virtuosa. Revista do Choro. São Paulo, 4 de jun. 2015. Disponível em: https://revistadochoro.com/artigos/garoto-uma-breve-historia-virtuosa/. Acesso em: 7 de dez. de 2020.


[14] - Idem, Almanaque do choro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.


[15] – - NASSIF, L. O Gênio do garoto do banjo. Folha de São Paulo. São Paulo, 28 de mar. 1999. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi28039907.htm. Acesso em: 7 de dez. de 2020.


[16] - Idem, Choro do quintal ao municipal. 4. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.


[17] - Idem, Choro do quintal ao municipal. 4. ed. São Paulo: Editora 34, 2010.


[18] - Idem, Almanaque do choro. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.










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