Gorki: "Um Apelo para o Mundo"


A guerra está terminada, o Imperialismo Alemão é derrotado e é forçado a submeter-se a uma pesada punição por sua política de pilhagem. O proletariado alemão, torturado pela guerra, esgotado pela fome, é obrigado a pagar caro por ter se submetido à política de sua classe governante. Os vencedores, que ontem mesmo declararam ao mundo que causaram a ruína de milhões de seres humanos para obter a vitória do direito universal e da felicidade, obrigam agora o povo alemão a submeter-se a um armistício dez vezes mais duro que o tratado de Brest-Litovsk - um armistício que ameaça a Alemanha com a fome inevitável. Cada dia que passa, o cinismo da política desumana dos imperialistas torna-se mais evidente e ameaça cada vez mais os povos da Europa com novas guerras e novos massacres. O Presidente Wilson, ontem o eloquente defensor da liberdade dos povos e dos direitos da democracia, equipou um poderoso exército "para a restauração da ordem" na Rússia revolucionária; onde o povo já goza de direitos soberanos, onde tomou o poder em suas próprias mãos, e onde está se esforçando, na medida do possível, para lançar as bases de um novo edifício de Estado. Não desejo negar que este trabalho construtivo tenha sido muitas vezes acompanhado por uma destruição inútil. Mas o trabalho cultural criativo do Governo Popular Russo, trabalhando sob as mais difíceis condições, e ao preço de esforços heróicos, está assumindo um escopo e uma forma até então desconhecidos na história da humanidade. Isto não é um exagero. Ultimamente eu era um adversário do Governo e ainda discordo dele em relação a seus métodos de trabalho. Mas sei que os futuros historiadores, ao estimar o valor do trabalho realizado pelos trabalhadores russos no decorrer de um ano, não deixarão de admirar a magnificência de seu trabalho criativo no domínio da cultura... Sim, é verdade que ao lado deste trabalho, que é de importância mundial, foram cometidas grandes falhas, foram causadas algumas dificuldades desnecessárias, mas de que importância são esses erros e dificuldades quando comparados com o terrível crime da guerra; provocado pelo choque do Imperialismo Alemão e Inglês? Não foi justamente esta guerra que despertou "o animal", em todos os países europeus e no coração das nações? Não foi esta guerra que matou a consciência dos homens - ainda tão fracamente desenvolvida - e o lento crescimento do conhecimento do valor da vida e do verdadeiro respeito pelo trabalho? Será em nome de uma deficiência de cultura na Rússia revolucionária, será em nome das ofensas cometidas pela revolução russa contra a humanidade, será em nome de uma falta de generosidade dos trabalhadores russos para com seus inimigos de classe - será em nome de tudo isso que os imperialistas da Europa e da América irão atacar a Rússia revolucionária? Não, a posição não é tão complexa, não é tão idealista quanto os escritores das revistas Imperialistas da Inglaterra, França, América e Japão nos querem fazer acreditar. É muito mais simples. Os Imperialistas dos três continentes estão tentando criar e consolidar condições e instituições políticas que lhes assegurem poder sobre a vontade dos povos. Graças às condições pelas quais uma minoria insignificante pode decidir, sem controle, sobre a vida e a morte da maioria, foi a tal minoria que liderou esse insensato e sangrento massacre. Pareceria que todos os homens sensíveis e honestos em todo o mundo deveriam agora compreender com perfeita clareza a profundidade da escuridão, as crueldades, os egoísmos, a hipocrisia e a estupidez que rebitam os alicerces da estrutura capitalista do mundo. Pareceria tempo, que todos os homens pensantes e honestos deveriam tomar conhecimento do fato de que o capitalismo perdeu sua faculdade criativa, é uma feia relíquia do passado e um obstáculo para o desenvolvimento da cultura do mundo, que ele incita à inimizade e ao ódio entre indivíduos, famílias, classes e nações, e que o nobre sonho de fraternidade entre os povos não pode alcançar a realidade. Não nego os serviços prestados pelo capital à parte trabalhadora da humanidade, ou que dentro da pele e do sangue deste sistema social criou-se as condições preliminares para uma transição a novas formas, uma mais completa, mais justa vida de comunidade - para a transição ao Socialismo. Mas agora a sentença de morte do capitalismo é pronunciada, pois esta guerra lançou a luz do dia sobre a incapacidade, a falta de humanidade, as crueldades do antigo sistema, cuja estupidez e podridão fora demonstrada a todos. Nós, russos, somos um povo considerado muito justamente como atrasado; um povo sem tradições, e por conta disso mais ousado e rebelde, não acorrentado ao passado; nós somos os primeiros resolutamente a limpar para nós mesmos o caminho que leva à destruição do Estado capitalista. Estamos convencidos de que neste trabalho memorável podemos apelar para a simpatia e o apoio ativo das classes trabalhadoras do mundo, e para todos aqueles que antes da guerra criticaram severa e justamente as condições sociais sob as quais os povos viviam. Se estas críticas tinham um significado real, então todos os homens honestos na Europa e na América devem reconhecer nosso direito de dirigir nossas vidas à nossa própria maneira. Se qualquer parte da classe trabalhadora intelectual está realmente interessada na solução da grande questão social, eles devem colocar-se corajosamente contra aqueles que tentam restabelecer a velha ordem das coisas, contra aqueles que desejam afogar a Revolução Russa em sangue, e que esperam subjugar e saquear a Rússia assim como, antes da guerra, saquearam a Turquia e a China, e como agora se preparam para saquear a Alemanha. Este é o verdadeiro desejo do Imperialismo - esta é sua missão sagrada. O líder da campanha contra a Rússia é Woodrow Wilson. Vladimir Lenin segura a tocha da Revolução Russa firmemente em suas mãos, e ela lança sua luz por todo o mundo. O proletariado e os trabalhadores intelectuais devem escolher e decidir entre os defensores da velha ordem, os representantes do sistema de governo da minoria sobre a maioria, o velho sistema sem futuro e destruidor de toda cultura, e o principal iniciador dos novos ideais e sentimentos sociais que personifica para todos os trabalhadores as ideias de felicidade, de trabalho livre, e a fraternidade dos povos. Venham e caminhem conosco em direção a uma nova vida para cujo nascimento nós trabalhamos sem um pensamento para nós mesmos, não poupando nem homens nem coisas. Em nossas andanças e em nossos sofrimentos, na grande alegria de nosso trabalho e na esperança apaixonada de progresso, deixamos todos os nossos atos para o julgamento honesto da história. Venham conosco em nossa luta contra a velha ordem, em nosso trabalho para a criação de uma nova ordem. Avante pela liberdade e pelo esplendor da vida. The Call, 6 de fevereiro de 1919 Escrito por Máximo Gorki

Traduzido pela Equipe de Traduções do Nova Cultura

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