"A revolução de outubro na Rússia e o movimento operário na Itália"


A influência da Primeira Guerra Mundial sobre a Itália. A revolução socialista de outubro e o movimento operário italiano

A Itália pertencia ao grupo dos países vencedores da Primeira Guerra Mundial. Suas classes governantes obtiveram grandes lucros com a guerra. A ampliação da produção bélica durante os anos da guerra favoreceu a ulterior industrialização da Itália Acelerou-se o processo de concentração da produção e do capital. Graças ao fornecimento de materiais de guerra, cresceram e se enriqueceram os consórcios Ansaldo, Fiat, Breda e outros. De um atrasado país agrário, como o era ainda nos fins do século XIX, a Itália converteu-se, no período do pós-guerra, em industrial-agrário.

Apesar disso, a guerra custou muito caro à Itália. Perdeu nos campos de batalha 635.000 homens. Mais de meio milhão de soldados foram mutilados e durante a guerra e o país saiu da guerra completamente enredado em dívidas: ficou devendo aos Estados Unidos 1,5 bilhões de dólares, e à Inglaterra 2,5 bilhões de dólares. Cresceu também sua dependência de matéria-prima e de créditos estrangeiros.

Tal como anteriormente, na economia rural da Itália, conservaram-se numerosas sobrevivências feudais. A distribuição da propriedade da terra continuava muito desigual. 40 mil grandes proprietários, pertencentes em sua maioria à nobreza, possuíam 10 milhões de hectares de terra, enquanto que, para 2,5 milhões de economia dos camponeses, ficavam menos de seis milhões de hectares. Cerca da metade de famílias camponesas não possuíam terra alguma, vendo-se obrigadas a arrenda-la aos estancieiros e a outros latifundiários, mediante condições muito desfavoráveis. Na região meridional da Itália, subsistiam, em grau ainda maior, as sobrevivências feudais: gigantescos latifúndios, cujas áreas atingiam até 10 mil hectares e ainda mais, cumprindo notar que a maior parte destas terras eram incultas. Nessa região da Itália, a indústria era extremamente débil e a classe operária pouquíssima numerosa. O atrasado Sul agrário estava, de fato, reduzido ao estado de verdadeira colônia em relação ao Norte desenvolvido e industrial.

A pesada e prolongada guerra acentuou e aguçou as contradições de classe na Itália, favorecendo o crescimento da atividade política dos trabalhadores. A deserção em massa das fileiras do exército, as tentativas de comícios de soldados nas frentes de guerra, as greves e as demonstrações antibélicas na retaguarda, foram as expressões com que os trabalhadores manifestaram seu protesto contra a guerra. O ponto culminante do movimento maciço antibélico dos trabalhadores italianos foi a greve geral de Turim, que se transformou em rebelião armada (23/28 de agosto de 1917). Essa rebelião foi cruelmente reprimida, sendo mortas mais de quinhentas pessoas nos combates de rua de Turim.

O Partido Socialista Italiano manteve uma posição sumamente inconsequente com relação à guerra: condenou-a como guerra imperialista; porém, os elementos centristas predominantes no partido rechaçaram os métodos revolucionários de luta contra a guerra. A divisa do Partido Socialista era, assim, a seguinte: “nem tomar parte na guerra, nem sabotá-la”.

A classe operária e a camada intelectual avançada da Itália tinham recebido, com entusiasmo, a notícia do triunfo da Revolução Socialista de outubro. “É precisamente na Rússia onde está nascendo um mundo novo”, escrevia com exaltação Antonio Gramsci, o líder da ala esquerda do Partido Socialista.

Entre os trabalhadores da Itália, ganhou ampla popularidade a palavra de ordem: “fazer como na Rússia”. Os trabalhadores da Itália protestavam raivosos contra a intervenção antissoviética e lutavam decididamente contra ela.

O amadurecimento da crise revolucionária Ao terminar a guerra, a situação interna da Itália complicou-se ainda mais. A cessação das encomendas de guerra, por parte do governo, acarretou a queda brusca da produção industrial. Centenas de operários foram despedidos. Na economia rural reinavam a desordem, a desorganização e a ruína. Começou a inflação. De ano para ano, crescia o movimento grevista, aumentando o número de operários em greve, de um milhão, em 1919, para 2,2 milhões, em 1920. O campo achava-se em fermentação revolucionária. Os camponeses, especialmente na Itália meridional, apoderavam-se das terras incultas dos latifundiários e as cultivavam. Cresciam tumultuosamente as organizações operárias. O Partido Socialista Italiano aumentou o número de seus membros de 45 mil, em 1913, para 216 mil, em 1920. O número de filiados à Confederação Geral do Trabalho ascendeu, em 1920, a 2,3 milhões. Os velhos partidos burgueses, ao contrário, perdiam toda a influência sobre as massas. Os governos tornavam-se sumamente instáveis e se sucediam uns aos outros, com enorme frequência. A burguesia viu-se forçada a fazer concessões aos operários, tais como a jornada de trabalho de 8 horas.

Desencadeou-se, então, sobre a Itália, uma profunda crise revolucionária. O poder da burguesia na Itália foi mais quebrantado do que em qualquer outro país da Europa ocidental. Entretanto, os trabalhadores italianos careciam de uma direção revolucionária marxista. O Partido Socialista Italiano, que gozava de grande influência sobre o povo, era do tipo centrista, que, com frases esquerdistas, fazia uma política oportunista. O papel dominante no partido era desempenhado pelos chamados maximalistas (variedade italiana do centrismo). Em palavras, os maximalistas lutavam pelo socialismo; entretanto, não orientavam a classe operária italiana na luta pelo poder e pelo estabelecimento da ditadura do proletariado; negavam-se obstinadamente a romper com a direita, que mantinha abertamente uma linha antioperária contrarrevolucionária. O único grupo autenticamente marxista dentro do Partido Socialista, na Itália, era o dos socialistas de esquerda, unidos em torno do jornal Nova Ordem (Ordine Nuovo), publicado em Turim, desde maio de 1919. O organizador e dirigente desse grupo era o destacado marxista-leninista italiano Antônio Gramsci, o primeiro que estabeleceu no movimento socialista italiano – e que fizera sua propaganda entre as massas – a ideia da ditadura do proletariado como a principal característica do marxismo-leninismo. Companheiro de lutas, mais próximo de Gramsci, foi o não menos conhecido Palmiro Togliatti, atual dirigente do Partido Comunista Italiano.

A ocupação de fábricas e usinas. A formação do Partido Comunista Italiano Grande, pela amplitude da ação revolucionária do proletariado, nos anos do pós-guerra, foi o movimento que teve por expressão a ocupação de fábricas e usinas, no período de agosto/setembro de 1920. O motivo imediato para tal ação foi o lockout anunciado na indústria metalúrgica. Os operários de Milão, Turim e outras cidades do norte da Itália replicaram ao lockout com a ocupação das fábricas e usinas. Tomaram parte nessa ação mais de 600 mil operários. Os estabelecimentos permaneceram nas mãos dos operários pelo espaço de quase três semanas. De maneira completamente independente e autônoma, os operários organizaram o trabalho nas empresas, sob a direção de seus próprios conselhos. Para a defesa, foi organizada a Guarda Vermelha. A ocupação das fábricas e usinas aproximou a classe operária da luta imediata pelo poder. Entretanto, os líderes reformistas do Partido Socialista e das associações profissionais manifestaram-se contra a tomada do poder pelos operários. Mais ainda: persuadiram os operários a desocupar os estabelecimentos que se achavam em suas mãos.

Ao liquidar o movimento de ocupação das fábricas e usinas, os líderes reformistas das associações gremiais e do Partido Socialista assestaram um sério golpe à classe operária italiana. Os operários viram-se repentinamente desorganizados. O movimento revolucionário no país foi decrescendo. A reação burguesa refez-se e passou à contra-ofensiva.

A traição aberta aos interesses da classe operária pelos líderes do Partido Socialista e das associações profissionais tornou inevitável uma cisão entre os elementos revolucionários do movimento operário e os reformistas. Em novembro de 1920, reuniu-se, na cidade de Imola, uma conferência dos socialistas de esquerda da Itália, sendo criada então a fração comunista do Partido Socialista Italiano. No Congresso do Partido Socialista, realizado em janeiro de 1921, na cidade de Livorno, tanto os elementos de direita como os maximalistas rechaçaram “as 21 condições” para o ingresso na Internacional Comunista. Os delegados comunistas, tendo à frente Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti, abandonaram o recinto do congresso e, reunidos com seus adeptos, no teatro de São Marcos, proclamaram a criação do Partido Comunista Italiano Esse acontecimento histórico teve lugar no dia 21 de janeiro de 1921.

Com a criação do Partido Comunista, foi colocada a pedra fundamental de uma estrutura capaz de assegurar o triunfo da ideologia marxista-leninista no movimento operário italiano. Entretanto, durante os primeiros anos de sua existência, o Partido Comunista Italiano era muito débil e cometia erros de caráter sectário.

O crescimento do perigo fascista Em 1919, o aventureiro político Benito Mussolini tinha empreendido a formação de bandos, a que denominava de fasci (feixes, molhos; daí , fascismo, fascistas). As associações fascistas tinham caráter semimilitar. Seus membros, uniformizados (Camisas Negras), estavam armados e sob o comando de ex-oficiais do exército. Os fascistas atacavam os comícios e as demonstrações operárias, assassinavam socialistas e comunistas, destruíam as redações dos jornais de esquerda, etc. Os grandes industriais, os banqueiros e os latifundiários prestavam ampla ajuda financeira a Mussolini. Pensavam destruir, por meio dos fascistas, o movimento revolucionário de massas do país. Por outro lado, os fascistas não poupavam promessas aos trabalhadores: manifestavam-se a favor do controle operário da produção, da cessão de terras aos camponeses, etc. Mediante essas promessas demagógicas, conseguiram atrair as camadas atrasadas do operariado.

Os melhores elementos do Partido Comunista, encabeçados por Antonio Gramsci, lutavam obstinadamente pela criação de uma frente única antifascista. Mas os líderes reformistas do Partido Socialista e das associações profissionais recusavam a unidade de ação com os comunistas e, inclusive, sabotavam as demonstrações antifascistas.

Em 1º de agosto de 1922, começou, por iniciativa dos comunistas, a greve geral, política, antifascista, dela participando a totalidade do operariado da Itália. Entretanto, os líderes reformistas do Partido Socialista e das associações profissionais, atemorizados pela amplitude da luta, deram ordem, aos seus filiados, de cessar a greve. E, assim, se fez fracassar a última ação das massas dos trabalhadores italianos contra a ameaça fascista. O caminho para o estabelecimento da ditadura fascistas na Itália estava, assim, aplainado.

Trecho da obra História dos Tempos Atuais, escrita pelo historiador soviético V. G Revunenkov

Publicado em português no Brasil pelo Editoral Vitória, do Partido Comunista do Brasil (PCB), em 1962.

NOVACULTURA.info

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