Choro: As Bandas Militares e Anacleto de Medeiros


As Bandas Militares

A música sempre foi presente nos batalhões militares, isso não é nenhuma novidade. Sempre a garbo e ordenados, utilizadas desde os primórdios para animar suas tropas com hinos ufanistas, essas agremiações de músicos militares podem ser consideradas uma ala da música erudita, pelo menos em suas concepções “modernas”.

Sempre exerceram um papel fundamental em batalhas, da Guerra do Peloponeso a Revolução de Outubro de 1917, depreendendo um sentimento nacionalista nas tropas. Eloquentes e pomposas, animam seus soldados a seguir marchando e aterrorizando os seus inimigos; mas os músicos militares não se reservavam somente a isso. Com a transição do século XVIII para o XIX, a partir da revolução industrial, foram criadas as condições materiais necessárias para o avanço das forças produtivas, fazendo com que os exércitos se beneficiassem, logo, as suas agremiações de músicos também. Os músicos, devido a esse processo, acabaram se caracterizando como eruditos, inclusive em exércitos populares, à exemplo do coral do Exército Vermelho criado durante os anos da URSS, dos desfiles militares da RPDC ou das comemorações do Exército de Libertação Popular da China. Essas agremiações destacam-se por sua extrema organização, com cada nota sendo executada perfeitamente.

Mas como isso se relaciona com o choro e as bandas no Brasil? Feita essa sucinta e necessária introdução, apresentaremos a ligação do choro com as bandas militares brasileiras, fato esse que se deve a Anacleto de Medeiros e sua Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro.

De uma herança formada a partir dos primeiros séculos de colonização, as bandas militares são uma continuidade dos músicos de charamelas, que tocavam caixas e trombetas, como afirma o historiador José Ramos Tinhorão. Mas é somente com a chegada da corte portuguesa ao Brasil, em 1808, que essas bandas adquirem o devido prestígio. É observável que alguns desses músicos, por pertencerem a uma parcela da sociedade que descende dos escravos libertos, eram seguidores da “música de barbeiros”, sendo assim disseminadores da então em formação música brasileira no final do século XIX.

Com a "Independência" do Brasil em 1822, as bandas começam a obter benefícios através de leis e decretos promulgados pelas elites dominantes. Entretanto, é somente em 1831 que essas corporações de músicos militares passam a ser profissionalizadas e formadas de fato, pois é nesse ano, durante o período regencial, que a guarda nacional é criada, bem como a sua corporação de músicos, financiadas pelos grandes proprietários de terras por leis e decretos naquele mesmo ano. “... a vida das bandas militares principalmente as da guarda nacional, iria ser favorecida pelo sistema de financiamento de sua atividade na base de doações”, assevera Tinhorão.

O historiador ainda destaca o advento do carnaval à europeia de 1855, um marco na modernização do carnaval. Nessa data se inauguram as “Grandes Sumidades Carnavalescas”, chamadas de grandes sociedades, numa tentativa de superpor o estilo popular de divertimento que mais agradava a classe média. As bandas militares foram responsáveis pela música instrumental fornecida aos carnavais à europeia, come devido a isso eram favorecidas economicamente através de financiamentos. Com os avanços do Brasil a República, em 1889, o carnaval vai ganhando um caráter mais popular, até se configurar como hoje conhecemos os desfiles das escolas de samba.

Os músicos das agremiações militares pertenciam, em sua maioria, a pequena burguesia: tratavam-se de homens civis que, em busca de melhores condições de vida, eram atraídos para o exército. O fato de ser músico, “além de garantir dispensa de todos os serviços militares, ainda servia para desculpas até mesmo infrações graves”, conforme assegura Tinhorão. Essas corporações militares eram reprodutoras das músicas em voga naquele tempo: polcas, schottisch, valsas, mazurcas, músicas importadas da Europa, modernas, que atendiam aos interesses das novas camadas da pequena burguesia.

Em 1896 surge a banda mais importante desse tipo de agremiação: a Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, criada por Anacleto de Medeiros, mestre e grande compositor de choro. O Brasil vivia sua primeira experiência Republicana aos moldes da burguesia, na chamada República da Espada, e é exatamente no governo de Marechal Deodoro da Fonseca que essas bandas ganham maior atenção das autoridades e passam de agremiações isoladas do exército para divulgadoras da música popular.

Por volta de 1902, com o advento das gravações, a Banda do Corpo de Bombeiros de Anacleto foi a pioneira a gravar em cilindros de cera, em discos de setenta e seis voltas. São esses músicos populares do exército que começaram as primeiras gravações da Casa Edison, grande gravadora da época; “era preciso potência que cabia a essas bandas para que os registros nas ceras fossem mais precisos”, comenta o historiador André Diniz.

O homem

Em 13 de julho de 1866, na ilha de Paquetá, nascia o grande mestre da Banda do Corpo de Bombeiros carioca, Anacleto de Medeiros. Mestiço, filho de uma escrava liberta e de pai médico, tocava flauta e flautim desde os nove anos, tendo como seu mestre Antônio dos Santos Bocot, da companhia de mentores do Arsenal de Guerra. Quando adulto, já dominava instrumentos de sopro de variados tipos, até que, em 1884, entra para o Imperial Conservatório de Música, sendo ali reconhecido como compositor e mestre, dando seu toque brasileiro às músicas importadas da Europa.

Anacleto levou para o repertório das bandas as composições mais conhecidas do choro naquela época, bem como chorões da estirpe de Irineu Silva (professor de Pixinguinha), Candinho do Trompete, Luis de Souza, Irineu Pianinho, Casemiro Rocha, Edmundo Ferreira, Tute (com Anacleto se reservou a tocar pratos e bumbo, mas como integrante dos Batutas foi exímio violonista e revolucionou o choro introduzindo o violão de sete cordas), João Ferreira de Almeida e Albertino Pimentel Carramona. Os empreendimentos do mestre da Banda do Corpo de Bombeiros carioca carregava uma influência que mudaria os rumos da cultura “chorística”.

Por volta de 1890, portanto contemporâneo a formação do choro, surgia o jazz nos EUA, encabeçado por negros de Nova Orleans (por uma questão de classe, eram também em seu início de profissão barbeiros). Este gênero influenciou diretamente Anacleto que adotara então o saxofone como seu instrumento favorito, iniciando desta maneira a progressiva substituição da flauta de madeira pelas metálicas, de acordo com o músico e escritor Henrique Cazes.

Este importante difusor do choro, de exímio talento e influência para a música instrumental, partiu precocemente, falecendo aos quarenta anos de idade, em 1907.

“Era o maestro que aproveitava as melodias dos pássaros, dos apitos das fábricas, das cornetas dos tripeiros, do badalar dos sinos, dos toques de buzinas, dos automóveis, do trinar dos apitos dos guardas noturnos e de tudo que formasse uma nota boa ou semitonada. Por ele eram todos esses ritmos aproveitados para as suas sublimes composições” (Alexandre Gonçalves Pinto, 2014 p. 64).

Por essas e outras, as bandas militares foram determinantes na formação da cultura “chorística”; não apenas Anacleto de Medeiros e sua Banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro disseminaram o gênero, mas as agremiações continuaram a inspirar as próximas gerações de chorões. Joaquim Callado, o rei da flauta e considerado o “pai” do choro, foi filho de músico militar, bem como influenciou outros músicos do calibre de Villa Lobos (utilizando como tema central de seu monumental “Choros No.10” uma das composições de Anacleto: “Iara”), Paulo Mora, Severino Araújo e Radamés Gnatalli, entre tantos outros importantes personagens da primeira música popular brasileira urbana, o choro.

Por Caio V.Z. Orru

REFERÊNCIAS

BINDER, F. P. Bandas Militares no Brasil: difusão e organização entre 1808-1889 – volume 1-. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Música do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista – UNESP. São Paulo, setembro de 2006.

CAZES, H. Choro do quintal ao municipal. São Paulo: editora 34, 4. ed., 2010.

DINIZ, A. Almanaque do choro: a história do chorinho, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

FERNANDES, N. N. O Carnaval e a modernização do Rio de Janeiro. Revista geo-paisagem (online). Julho/Dezembro de 2003. Acesso em 21 de maio de 2020. Disponível em: http://www.feth.ggf.br/Carnaval.htm

Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), acesso em 30 de abril de 2020. Disponível em: http://www.pensario.uff.br/audio/1896-foi-criada-banda-corpo-de-bombeiros-rio-de-janeiro-pelo-maestro-anacleto-de-medeiros

PINTO, A. G. O choro: reminiscências dos chorões antigos. Rio de Janeiro: Acari Records, 3.ed., 2014.

TINHORAO, J. R. Música Popular: um tema em debate. São Paulo: editora 34, 3. ed., 1997.

TINHORAO, J. R. História Social da Música Popular Brasileira. São Paulo: editora 34, 2. ed., 2010.

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