"O Japão nos princípios do século XX"


A economia japonesa no começo do século

Depois da guerra com a China, o imperialismo japonês continuou a se desenvolver num ritmo mais acelerado do que anteriormente. A elevada indenização extorquida da China foi invertida na criação da indústria pesada. O crescimento da indústria caminhava paralelamente à sua concentração. Dois consórcios gigantescos - Mitsui e o Mitsubishi - são os que desempenham o papel de maior importância na vida econômica do Japão. A firma Mitsui, de origem remota, pois data do século XVIII, depois da revolução de 168 foi se transformando num grande consórcio que incluía bancos, minas de carvão, empresas de navegação, indústrias açucareiras, fábricas de tecidos e muitas outras empresas de natureza diversa. O consórcio Mitsubishi rivaliza com o Mitsui em riqueza e influência política.

Não obstante isso, ainda no século XX o Japão conservava inúmeras sobrevivências feudais. Antes de tudo, mantinha-se o arrendamento de terra nas condições de extorsão que já mencionamos. Conservavam-se igualmente alguns dos bárbaros costumes medievais. Os pais continuavam vendendo os filhos para o trabalho nas fábricas. A exploração dos trabalhadores pelo imperialismo japonês tinha um caráter tipicamente colonial. Como anteriormente, o principal instrumento de trabalho do camponês continuava sendo a enxada.

Nenhum outro país oferecia um contraste tão chocante entre a cidade e o campo como o Japão. Na cidade: fábricas, iluminação elétrica, edifícios de vários pavimentos. Na aldeia: o trabalho manual numa minúscula parcela de terra sobre a qual se curva, de sol a sol, toda a família camponesa.

O imperialismo japonês foi qualificado por Lenin de imperialismo militar-feudal, isto é, um imperialismo onde o capitalismo monopolista se achava envolvido numa emaranhada rede de relações feudais, pré-capitalistas. Apesar do crescimento das grandes empresas, a indústria japonesa encontrava-se ainda num nível técnico consideravelmente baixo. Um enorme papel continuava a ser desempenhado pelas empresas pequenas e médias.

No fundamental, o poder achava-se nas mãos dos samurais pertencentes aos clãs Satsuma e Chioshiu. Do seio desses clãs procediam a oficialidade do exército e uma parte considerável dos funcionários públicos, E, quanto ao grande capital, os samurais mantinham com ele o mais estreito contato, particularmente com os consórcios, tais com o de Mitsui e de Mitsubishi.

A política de conquista do imperialismo japonês a guerra russo-japonesa

Como decorrência da situação de miséria e de ruína em que viviam os camponeses e a massa fundamental dos operários das cidades, eram eles maus compradores para a produção industrial do Japão. Isso levava os imperialistas japoneses a lançar-se numa luta selvagem pela conquista de novos merca-dos no exterior. O imperialismo militar-feudal do Japão tomou firmemente o rumo da política de conquista. Seu mais ativo propulsor era o militarismo.

Tao logo terminou a guerra contra a China, o imperialismo japonês começou a preparar-se para a guerra contra a Rússia para disputar-lhe a influência sobre a Coréia e a Manchúria. Em 1900, o Japão participou no esmagamento da insurreição popular chinesa, conhecida com o nome de movimento dos boxers. Em 1902, e já em plena preparação da guerra contra a Rússia, concertou uma aliança com a Inglaterra.

Valendo-se da situação criada pela incúria do governo czarista, os espiões e agentes secretos japoneses invadiram literalmente as regiões do oriente da Rússia. Vinham na qualidade de prestigiadores, de vendedores ambulantes, de barbeiros, lavradores, etc.; infiltravam-se nas zonas fortificadas, procurando averiguar a situação das forças militares, das defesas, do movimento e do potencial combatente daquelas.

Um desses espiões, que se apresentou como prestigiador, conseguiu permissão para atuar perante os soldados de uma guarnição. Terminando a função, dirigiu-se ao oficial de guarda solicitando um certificado que atestasse a alta qualidade do espetáculo oferecido. O oficial entregou-lhe o atestado solicitado, depois de referendá-lo com selo da guarnição. Era, exatamente, de que o espião necessitava. Imediatamente remeteu ao serviço secreto japonês o relatório com os dados recolhidos e juntava como testemunho da fidelidade do referido relatório o documento em cujo timbre via-se claramente o nome da unidade a que se referia.

As atividades dos agentes de espionagem japoneses nos grandes centros da Rússia, durante a guerra, acham-se descritas por A. I. Kuprin em seu livro O Capitão de Estado-Maior Rybnikov.

Nos princípios de 1904, sem ultimato prévio, a frota de guerra japonesa atacou de surpresa o forte Port-Arthur e pôs a pique vários navios de guerra russos. Em segunda, transportou para a Manchúria um considerável exército, magnificamente equipado com a ajuda da Grã-Bretanha, iniciando a pressão sobre as tropas russas.

O Japão entrou na guerra estando perfeitamente preparado para ela; além disso contava com o apoio financeiro da Inglaterra e dos Estados Unidos. A Rússia, ao contrário, por culpa exclusiva do governo czarista, não estava nem remotamente preparada para uma guerra de tais proporções numa frente tão distante.

Através de uma única via de Estrada de Ferro Transiberiana tinha que transportar, a uma distância de 14 000 quilômetros, suas tropas, os armamentos e os abastecimentos. Logicamente, desde os primeiros encontros ficou patenteada a preparação deficiente das forças russas. O Japão obteve uma ressonante vitória em Liao-Yang. A praça do forte Por-Arthur, que durante onze meses se mantivera em heroica resistência, foi entregue aos japoneses pelo traidor alemão General Stoessel, em janeiro de 1905.

Pouco depois, o exército czarista sofreu uma grande derrota em Mukden. Nos estreitos de Tsushima foi destruída a frota de guerra russa esquadra de Rodjestvenski). O absolutismo czarista, atemorizado pela ascensão do movimento revolucionário do país, apressou-se a assinar a paz com o Japão. De acordo com o tratado de Portsmouth, assinado em 1905, a Rússia renunciava a intervir nos assuntos internos da Coréia, de modo que o Japão passou de fato a ser o senhor daquele país. A Rússia entregou ao Japão Port-Arthur, situado na península de Liao-Tung; igualmente renunciou a seu domínio no sul da Manchúria e a seus direitos sobre a Estrada de Ferro Sul-Manchuriana. Ainda pelo tratado de Portsmouth, o Japão ficou de posse de metade sul da ilha Sakalina.

Nessa guerra não foram a Rússia nem o povo russo os derrotados, mas o podre regime czarista, que se mostrou incapaz de mobilizar os imensos recursos de que dispunha o país.

Em 1910, o Japão anexou definitivamente a Coréia. Começou uma intensa japonização o país: todos os postos administrativos foram ocupados por japoneses; colônias japonesas começaram a ser levanta-das no território coreano; os japoneses procederam a extirpação radical da cultura nacional coreana; proibiram o ensino da língua nacional; impuseram o “regime do sabre”; qualquer tentativa de protesto do povo era brutalmente reprimida.

O movimento operário no Japão

A situação dos operários japoneses no século XX continuava sendo extremamente penosa. Viviam amontoados em sujos e úmidos quartéis e barracões, submetidos a um regime carcerário e recebendo salários miseráveis. Muitas operárias viviam geralmente presas nos barracões. Certa vez, incendiando-se um desses alojamentos, das cinquenta jovens operárias que ai viviam, trinta e uma pereceram queimadas. Não existia no país qualquer legislação que protegesse os direitos dos operários.

Apesar desse regime de opressão carcerária, os operários japoneses pouco a pouco começaram a rebe-lar-se contra o despotismo dos patrões e do governo. Já durante a década de 80, tentaram organizar-se em sindicatos profissionais e, na década seguinte, o país se viu sacudido por uma onda de greves e de manifestações de rua. Naquele tempo, um revolucionário japonês - Sen Katayama - se entregava à tarefa de propagar as ideias socialistas e, em 1901 sob sua direção imediata, foi fundado o Partido Socialista, o qual, naturalmente, não podia ainda ser considerado como um partido revolucionário consequente. Contudo, o governo japonês apressou-se em promulgar uma lei para dissolvê-lo. Apesar porém das perseguições do governo, que encarcerava toda pessoa suspeita de pertencer a esse partido, surgiram também outras organizações operárias. O espírito revolucionário da classe operária foi crescendo dia a dia. É assim que, durante a guerra russo-japonesa, os operários japoneses transmitiram aos seus irmãos de classe russos uma mensagem em que condenavam a guerra imperialista. No congresso da Segunda Internacional, reunida em Amsterdã em 1904, Sen Katayama fez uma declaração na qual expressou a completa solidariedade do proletariado japonês com o proletariado russo.

Ao influxo da revolução russa de 1905, foi novamente organizado o Partido Socialista do Japão (Nikon Siaykaits). Bem depressa ficaram evidenciadas nele duas tendências, seno uma delas de caráter reformista. Seguindo o exemplo dos reformistas da Europa ocidental, os reformistas japoneses renunciaram a tática revolucionária e limitaram sua ação aos métodos parlamentares de luta. Os representantes da segunda tendência, a cuja frente se encontrava Kotoku, criticaram os reformistas, porém ainda que sua linha de luta fosse revolucionária, incorriam às vezes em erros de caráter anarquista. Para livrar-se de Kotoku, que tinha ganho uma grande popularidade entre os operários, o governo o acusou de conspirar contra a pessoa do imperador. Kotoku, sua esposa e seus camaradas mais íntimos foram presos e estrangulados na prisão. Os mais ativos militantes do movimento socialista foram também, em sua maioria, arrojados ao cárcere.

A repressão policial assestou um golpe tão rude no movimento operário japonês que ele foi temporariamente sufocado. Aproveitando-se dessa circunstância, o reformista Sutsuki Bruntsi fundou, em 1912, com ajuda dos capitalistas japoneses, a organização sindical reformista denominada Yuaikai, que agrupou em seu seio uma reduzida camada da aristocracia operária. A direção do Yuaikai freava o desenvolvimento do movimento revolucionário e abertamente apoiava de conquista do imperialismo japonês.

Trecho do livro História Contemporânea, escrito pelos historiadores soviéticos V. M. Jvostov e L. I. Zubok

Publicado no Brasil pelo Editorial Vitória, em 1961

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