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Bebel: "A Mulher no Futuro"


Este capítulo será muito curto. Não conterá mais que as conclusões que se tiram do que foi dito acerca da mulher na futura sociedade, conclusões que cada leitor pode tirar por si próprio.

A mulher será completamente independente, no aspecto econômico e no social, não conhecerá sequer a sombra de domínio ou de exploração. Será livre, igual ao homem e senhora do seu destino. Será educada como ele, salvo nos casos em que é incontestável a diferença de sexos. Vivendo em condições naturais, ela poderá desenvolver as suas forças físicas e intelectuais conforme as suas necessidades; terá toda a liberdade para escolher a esfera de atividade que melhor corresponde aos seus anseios, inclinações e dotes e trabalhará em condições de igualdade com o homem. Uma parte do dia a operária ocupa-se em algo de prático, na outra parte dedica-se à educação dos jovens ou cuida dos enfermos, a terceira parte emprega-a em problemas de arte ou de ciência e, finalmente, no restante tempo cumprirá qualquer função administrativa. Dedica-se á ciência, trabalha, descansa e diverte-se em companhia de outras mulheres ou homens, conforme for seu desejo e sempre que tenha oportunidade.

Tal como o homem, a mulher gozará plena liberdade na escolha do seu companheiro. Elege-o ou é eleita e só se casará se o escolhido corresponder às suas inclinações. Esta união será, como era antes da Idade Média, um contrato privado, sem a intervenção das autoridades. O socialismo, aqui, nada cria de novo; a única coisa que faz é pôr a um nível cultural superior e em novas formas sociais o que era regra geral enquanto não se impôs na sociedade o reinado da propriedade privada.

O homem poderá dispor de si, sempre que a satisfação das suas necessidades não cause dano aos outros. A satisfação do instinto sexual é uma coisa tão pessoal do indivíduo como a satisfação de qualquer outra necessidade natural. Ninguém terá por esse fato que dar contas a outrem e ninguém deverá imiscuir-se no assunto, sem ser solicitado a fazê-lo. As minhas relações com pessoas de outro sexo, o meu modo de comer, de beber, de vestir e de dormir são coisas pessoais minhas. A inteligência, a instrução e completa independência do indivíduo são propriedades que, em virtude da educação e das condições da sociedade futura, serão naturais e protegerão cada um contra atos improcedentes. Os homens e as mulheres da sociedade futura possuirão um grau de desenvolvimento e de conhecimento de si mesmos muito mais alto do que possuem hoje. Já o fato de haver desaparecido toda a falsa vergonha e todo o medo ridículo de falar dos problemas sexuais, como se fosse algo de misterioso, tornará muito mais naturais as relações entre os sexos. Se entre duas pessoas que contraíram matrimônio surge indiferença ou antipatia, é moral desfazer a união, pois ela se tornou antinatural e, portanto, amoral. Ao desaparecerem todas as circunstâncias que atualmente condenaram muitas mulheres ao celibato ou à prostituição, os homens não poderão já fazer valer o seu predomínio. Por outro lado, as importantes mudanças ocorridas nas condições sociais suprimirão muitos obstáculos e causas de desorganização que hoje influem na vida conjugal e a tornaram por completo impossível e impedem a sua felicidade.

Os obstáculos, as contradições e o caráter antinatural da atual situação da mulher são conhecidos de todos e têm a sua expressão na literatura social, nas novelas quase sempre de forma infeliz. Nenhuma pessoa inteligente negará que o matrimônio atual corresponde, cada vez menos, à sua finalidade, mesmo aqueles que não se mostram conseqüentes na sua ânsia de modificar o nosso regime social, achem perfeitamente justo que o amor como o divórcio seja livre; estas pessoas opinam que só as classes privilegiadas devem ser livres nas relações sexuais. Vejamos, por exemplo, o diz Matilda Reichardt-Stromberg na sua polêmica contra os esforços da escritora Fanny Leward para conseguir a emancipação da mulher:

"Se Fanny Lewald reclama, para a mulher, a completa igualdade de direitos com o homem na vida social e política, George Sand tem também necessariamente razão nas suas reivindicações de emancipação, pois não pede mais do que aquilo que o homem de há muito possui. E não há qualquer motivo plausível para que, nessa igualdade de direitos, só possa participar a cabeça da mulher e não o seu coração - porque não há de ela ser livre para receber e dar, como o homem? Ao contrário, se a mulher, por força da sua natureza, tem o direito - não devemos enterrar o nosso talento - e o dever de levar as fibras do seu cérebro à máxima tensão para estar em condições de lutar contra os gigantes intelectuais do outro sexo, deve ter também o direito - como estes últimos — de recorrer aos métodos que lhe pareçam mais adequados para manter o equilíbrio e acelerar o bater de seu coração. Quando lemos, sem sentir o mínimo pudor, quantas vezes Goethe — para tomar um exemplo dos maiores — malbaratou, sempre com uma mulher diferente, o calor do seu coração e o entusiasmo da sua grande alma, qualquer pessoa sensata considera isto natural precisamente porque era difícil satisfazer a grande alma de Goethe; e só um moralista limitado pode censurá-lo. Porque rir então das "grandes almas" das mulheres?... Admitamos que todo o sexo feminino consta de grandes almas no estilo das descritas por George Sand, que qualquer mulher é uma Lucrécia Floriani (NR: protagonista de uma novela de George Sand), cujos filhos são todos filhos do amor, filhos que educa com tanto carinho automaticamente maternal, com devoção, sensatez e compreensão. Que aconteceria no mundo? Não há a menor dúvida de que o mundo continuaria a existir e a progredir como hoje e, quiçá, a sentir-se perfeitamente bem."

Mas, porque é que só as "grandes almas" podem ter direito a tudo isso e não as restantes, que não são tão "grandes"? Se a um Goethe e uma George Sand, para não referirmos mais que estes dois dos muitos que procederam e procedem como eles, se lhes permitia viver de acordo com as inclinações do seu coração, se acerca dos amores de Goethe se publicam bibliotecas inteiras que os seus admiradores e admiradoras devoram como devoto entusiasmo - porque se censuram nos demais aquilo que feito por Goethe ou George Sand é motivo de êxtase e entusiasmo?

Na realidade, a eleição livre do amor, na sociedade burguesa, não é possível, pretendemos nós demonstrar. Mas ponhamos todos nas condições sociais de que hoje desfrutam apenas uns tantos eleitos, no aspecto material e espiritual, e todos gozarão de igual liberdade.