1/10

"Um equívoco de 'Opinião' (ou a classe média sem cultura própria)"


"O sucesso do show Opinião, encenado no Rio de Janeiro em 1964 à base da interpretação de músicas por um nordestino (João do Vale), um compositor de extração popular (Zé Keti) e uma moça carioca de classe média (Nara Leão), veio revelar, juntamente com o interesse despertado pelo restaurante Zicartola e pela gafieira Estudantina, na mesma época, um curioso momento sociológico: o da apropriação da cultura popular pela classe média sem cultura própria.

Historicamente, essa apropriação nasce no início do século com as modernas camadas urbanas surgidas da multiplicação dos serviços públicos e das atividades técnicas, liberais e burocráticas, direta ou indiretamente ligadas ao advento da indústria do Rio de Janeiro.

Essas camadas de uma classe média necessariamente heterogênea (comerciantes, pequenos proprietários urbanos, donos de terras emigrados, funcionários públicos, militares, doutores e burocratas em geral) seriam os responsáveis pela instabilidade da política da primeira República, pela revolução de 1930 e, após a Ditadura, pela variedade das legendas de partidos, cuja inconsistência foi posta a nu pela concentração do poder, decorrente da concentração capitalista.

Até a década de 40, essa apropriação da cultura popular foi representada na música erudita pelos pastichos barulhentos de um antigo seresteiro de rua chamado Villa-Lôbos, na literatura pelo aproveitamento da tragédia pessoal dos nordestinos como tema de romances regionalistas e, na música popular, pela criação da marcha de carnaval e do “samba de rádio” – orquestrado e monopolizado por cantores de nome e compositores profissionais.

Fenômeno semelhante havia ocorrido nos Estados Unidos, onde a euforia econômica que ia terminar na grande crise de 1929 provocou – pela ânsia de diversão nas cidades – a valorização comercial da música dos negros do Sul, barulhenta e “curiosa”.

Em Nova Iorque surge o interesse pelo Harlem. A desmobilização, após a guerra de 1914-1918, enchera Nova Iorque de negros. A zona norte de Central Park crescia dia a dia, e logo se impunha por seu colorido para tema de revistas, como Lulu Belle, encenada no Belasco Theatre, em 1925, de romances como Nigger Heaven, de Carl Van Vechten. Um repórter da revista Variety pôde descobrir, então, em um porão do Black Belt, “numerosos brancos da cidade, todos sem trajo de noite”, gozando o sabor esquisito do ambiente negro do cabaré Small Paradise, animado pela música hot da Jhonson’s Band, do Crioulo Charley Jhonson’s.

No Brasil, a tomada de consciência dos valores nacionais, primeiro com a Exposição de 1908, comemorativa do centenário da abertura dos portos, depois com a Exposição de 1922, no centenário da Independência, levou a classe média urbana a descobrir o pitoresco da canção nordestina, ainda impregnada do folclore que traduzia a perpetuação de quatro séculos de dominação econômica do latifúndio.

Então, como por um passe de mágica, o poeta Catulo da Paixão Cearense (que nascera no Maranhão, passara a primeira juventude no Ceará e já era tão carioca quanto qualquer outro chorão no início do século) começou a escrever letras sertanejas para canções calcadas em melodias de um João do Vale da época – no caso, um João mesmo – o violonista João Pernambuco.

A classe média carioca, de formação ainda tão recente que não conseguira estilizar o ritmo dos negros (o que só aconteceria uma década mais tarde, com o aparecimento do samba), encantou-se com as emboladas, que se transformaram na grande moda musical.

Tal como aconteceu em 64 com o show Opinião – e embora em outro plano de intenções, como se verá – a onda de regionalismo, de “popular brasileiro”, refletiu-se também no teatro, que nessa quadra se resumia ao teatro de revistas da Praça Tiradentes.

Desde a peça Zizinha Maxixe, de Machado Careca, estreada no Teatro Eden Lavradio, em 1897, uma compositora da camada média, Chiquinha Gonzaga, já havia tentado a estilização de um ritmo popular com o corta-jaca denominado Gaúcho.

A despeito do sucesso da música, no entanto, a velha classe média vinda do Império ainda não tinha chegado ao estágio da “consciência nacional” capaz de interessá-la na descoberta. A época era ainda apenas a da exportação de produtos agrícolas e da importação de artigos manufaturados. Assim, era o cultivo de valsas, polcas e schottisches – importados da Europa juntamente com os próprios pianos – que indicava refinamento e bom gosto.

Por essa razão, o corta-jaca de Chiquinha Gonzaga ficou isolado na história da música popular, renovando-se, entretanto, o sucesso, de quando em vez: em 1901, com Mário Lino, no Eldorado, da Lapa; em 1904, na revista luso-brasileira Cá e Lá; e em 1914 na revista Corta-Jaca, de Zèantone – aproveitando, já agora, a voga do “folclórico”.

Seria, pois, a partir de 1915, com a burleta de Gastão Tojeiro, A Caboca de Caxangá, estreada no Teatro São José em 20 de Outubro de 1915, que o teatro começaria efetivamente a fornecer espetáculos à base de música nacionalista para consumo da nova classe média ansiosa de autoconfirmação. Como não podia deixar de ser, ontem, como hoje, a impressão foi de contraste.

A apropriação da cultura popular, sob a forma caricata da imitação da linguagem falada pela “gente rústica do sertão”, e o aproveitamento puro e simples das suas músicas, tornou-se ostensiva, a despeito do sucesso de peças como Morena, de Viriato Correia, em 1918, e Flor Sertaneja, de J. Miranda, em 1919.

Essa espécie de novo romantismo, estimulado pela novidade do estudo do folclore, invadia a literatura com os caboclos do paulista Valdomiro Silveira e do plano literário passava ao comercial, através da história de almanaque do Jeca Tatu, criado por Monteiro Lobato para o seu amigo fabricante de Biotônico Fontoura.

Ao iniciar-se a década de 1920 o desejo da classe média de encontrar um estilo “nacional” onde se pudesse enquadrar era tão grande, que o representante mais típico dessa tendência no Rio de Janeiro, o letrista e cantor de modinhas Catulo, tornou-se o convidado oficial de todos os salões elegantes. Tal como nos meados de 1960 passou a acontecer com Zé Keti, devendo-se substituir apenas a expressão salões por boates elegantes.

A diferença entre o ontem e o hoje reside apenas no fato de que, na década de 1920, como a classe média ainda possuía a ilusão de participação política nos governos, através do voto, os próprios presidentes da República prestigiavam essas manifestações de democratização da cultura, que lhes parecia o maior passo na conquista de um “caráter nacional”.

E eis como se explica que Catulo, artista da classe média, supostamente “o troveiro dos humildes”, como o chamaria um biógrafo, pôde ser recebido para cantar em palácio por quatro presidentes da República: Nilo Peçanha (1909-1910), Hermes da Fonseca (1910-1914), Epitácio Pessoa (1919-1922) e Artur Bernardes (1922-1926).

Basta atentar para as datas, e se verá claramente demarcado no interesse dos governos por Catulo os dois momentos de valorização nacional dos produtos regionais: o momento subsequente à Exposição da Praia Vermelha, de 1908, e o que coincide com a Exposição da Esplanada do Castelo, em 1922.

Acontece que, com o advento dos anos da Ditadura, a criação de Volta Redonda, o aparecimento de um novo surto industrial e as “oportunidades” geradas pela presença de capitais do chamado “esforço de guerra”, deslocaram o interesse dos governos diretamente para as novas camadas de trabalhadores urbanos, que passaram a representar o novo elemento decisivo na composição de forças político-econômicas. Foi criada uma Legislação Trabalhista para resolver as pendências surgidas nas relações até então inéditas entre patrões e empregados das áreas industriais. Essa legislação, entretanto, deixava no ar as relações das camadas médias, desde logo prejudicadas pelo centralismo dos serviços públicos do Estado que enquadrava antigas e honrosas profissões liberais, como a dos médicos, advogados, dentistas, engenheiros, etc. no quadro geral dos assalariados.

Desse momento em diante, todo o esforço das camadas mais elevadas da classe média desenvolveu-se no sentido do protesto e da oposição ao governo. Com a conhecida frase do Presidente Vargas em seus discursos: “Trabalhadores do Brasil!” – marcava-se oficialmente a distinção de classes que punha fim à ilusão do denominador de cultura representado pelas tentativas de incorporação dos motivos populares. Politicamente o resultado dessa evolução foi a queda do Presidente Getúlio Vargas, a instituição da Constituição conciliadora de interesses contrários de 1946 e a multiplicidade dos partidos, à volta dos quais gravitariam as massas trabalhadoras urbanas, no fundo manobradas através dos sindicatos pelo herdeiro do paternalismo getualiano, Sr. João Goulart.

Culturalmente, a nova fase deixou as classes populares na mesma, isto é, com os mesmos índices de analfabetismo e fiéis a mesma linha de evolução “folclórica”, enquanto a classe média – dividida por força de sua heterogeneidade – descambava para tendências as mais opostas.

Na verdade, finda a guerra, as camadas urbanas do Rio de Janeiro começavam a diversificar-se tão intensamente que todas as ideias e gostos se tornaram permitidos, menos – naturalmente – as ideias comunistas, que simbolizavam o perigo de aglutinação das forças das camadas de baixo.

Assim, enquanto a corrente dos literatos e intelectuais, divididos em acadêmicos e modernos, via nascer a geração dos herméticos, indiferentes à realidade circunstante, os grupos não letrados da classe média caíam simplesmente na alienação total, voltando-se de corpo e alma para a admiração do que representava o equivalente da sua classe nos países mais desenvolvidos.

Eis como, pelo fim da década de 1940 e início da de 1950, a classe média do Rio de Janeiro passou a uma forma de universalismo que podia ser traduzida na mania dos óculos ray-ban e das calças blue-jeans, no interesse pelo aprendizado da língua inglesa e na adesão a formas de músicas e danças internacionais: o fox-blue, o bolero, o swing, o be bop, o rock, o cha-cha-chá, o calipso, etc.

A corrida imobiliária criava o fenômeno do aproveitamento vertical do espaço urbano em Copacabana. Com o adensamento da população localizada na área além dos túneis do Velo e Novo, deslocavam-se os centros de diversão noturna da Cidade para a Zona Sul. A proximidade da praia, e o contato direto com os turistas estrangeiros de Copacabana revolucionavam os princípios da moral e, consequentemente, o estilo do vestuário. A relativa unidade econômica das famílias, determinada pelo preço médio de venda e do aluguel dos apartamentos, somada às condições singulares de convivência nos edifícios, fez surgir dentro da classe média no Rio de Janeiro um reduto de população todo particular.

De uma maneira geral, a geografia urbana dessas camadas médias da cidade pôde ser dividida, então, entre Zona Norte e Zona Sul: a primeira congregando uma maioria de famílias “antigas” e “tradicionais” até o Grajaú, e mais modestas na faixa suburbana; a segunda congregando, ao lado da massa heterogênea dos moradores do Flamengo, Botafogo e Pôsto 2, a maioria de famílias “novas”, da alta classe média dos Postos 4, 5 e 6, Ipanema, Leblon e Gávea.

O grosso das famílias do que se poderia chamar a elite da classe média “nova” ia localizar-se, pois, na parte mais valorizada de Copacabana, ou seja, do Pôsto 4 a Ipanema e Leblon.

Dessa primeira onda de moradores de apartamentos construídos durante o rush imobiliário iniciado ainda antes do fim da guerra, ia surgir toda uma geração de jovens agora entre 18 e 22 anos. Nascida e criada no mais novo e mais cosmopolita bairro do Rio, essa geração formava-se praticamente estranha ao espírito tradicional da Cidade, cujo segredo ficara com os depositários dos costumes das antigas classes populares, progressivamente empurrados do Centro para o Norte via Vila Isabel, Catumbi e Rio Comprido, de um lado, e pelos trilhos da Central e da Leopoldino do outro.

É de compreender, pois, que ao atingir a primeira juventude, no fim da década de 50, essa camada uniforme de jovens da alta classe média se encontrasse aberta a todas as influências e, de certa maneira, sujeita mesmo ao atordoamento.

Os resultados não se fizeram esperar. A disponibilidade intelectual, pela ausência da tradição, seguiu-se a sujeição aos padrões de cultura estrangeira, principalmente norte-americana, importada maciçamente através do rádio, do cinema, dos discos e da literatura (história em quadrinhos e pocket books). Ao atordoamento pela falta de objetivos em que fixar-se (a estrutura subdesenvolvida é escassa de oportunidades) seguiu-se a canalização das energias para as paixões violentas, os vícios ou a simples vagabundagem representada no que se convencionou chamar de “juventude transviada”.

No entanto, como ainda assim foi entre essa camada e nessa geração que se recrutou o maior número dos elementos que chegam aos cursos superiores, é evidente que dessa camada teriam de surgir as novas tendências, gostos e lideranças intelectuais e políticas.

Ingressada na economia geral do país, ao tempo do Presidente Kubitschek, em um ritmo acelerado de desenvolvimento industrial, seria, pois, ainda uma vez a classe média – e principalmente a da Zona Sul, pelos motivos citados – que iria traduzir no Rio de Janeiro o reflexo da nova fase, de uma maneira geral.

Como, porém, as contradições inerentes ao crescimento desordenado tornam impossível o encontro de um denominador comum (desta vez até para a própria classe médiam, apenas) ela se dividiu em grupos irredutíveis, que obedecem a tendências ligadas com o seu tipo de relações com a estrutura vigente no momento dado.

E eis como chegamos ao ponto de explicar, no plano da cultura, o curioso interesse de um desses grupos da classe média urbana carioca, predominantemente da Zona Sul, pelas manifestações de cultura popular representada no show Opinião e nos ambientes dos ensaios das escolas de samba, da gafieira Estudantina e do restaurante Zicartola. Esse interesse nasceu por volta de 1960, com a descoberta dos ensaios das escolas de samba como motivo de atração da chamada “gente bem”, que outra não é do que a alta classe média.

A corrida imobiliária, forçando pela elevação dos aluguéis a dispersão dos moradores das áreas valorizadas, provocou a concentração dos mais pobres nos morros, formando núcleos de população predominantemente negra nos redutos delimitados das favelas.

Ora, como eram exatamente esses elementos que guardavam o segredo da tradição de costumes populares mais genuinamente cariocas – que eram os costumes herdados dos negros escravos – a tendências foi para uma nova síntese de cultura popular.

Esse reencontro de elementos de uma mesma origem, até pouco diversos na convivência com elementos de vários níveis (casas de cômodos, cabeças-de-porco, albergues, cortiços, vilas, etc.), provocou o recrudescimento de velhas práticas. No campo da religião, a macumba reorganizou-se e, pelo sincretismo, ascendeu à forma evoluída da umbanda, originando a proliferação de tendas e terreiros que gozam até de pequenas dotações da União e do Estado. No campo das diversões e da música, os primitivos ranchos e cordões reapareceram sob a forma de associações recreativas carnavalescas chamadas escolas de samba.

Com a inco