"Quando os comunistas impediram a entrada do Brasil na Guerra da Coreia"


O mês de junho de 2020 marca o 70º aniversário de eclosão da Guerra da Coreia, ou Guerra de Libertação da Pátria, como é chamada na República Popular Democrática da Coreia. E essa data traz à mente fatos que devem ser sempre lembrados pelo proletariado mundial em sua luta árdua através dos anos pela autodeterminação e paz. A Guerra da Coreia, iniciada em 1950, envolvia a República Popular Democrática da Coreia – país independente fundado pelo povo coreano em 1948 – e os EUA, juntamente com seu Estado fantoche na região, a República da Coreia (a parte sul). O interesse dos EUA na guerra era liquidar o Estado socialista da RPDC e alcançar objetivos políticos e estratégicos ao eliminar a Revolução (que rapidamente se espalhava pelo mundo) e conquistar territórios fronteiriços com a URSS e a China Socialista. Quando os EUA incitaram a Guerra da Coreia e o conflito se espalhou pela Península, os ianques convocaram todos os seus lacaios pelo mundo para participar do conflito ao seu lado. O Brasil não ficou de fora disso. Na época, o governo brasileiro do General Eurico Gaspar Dutra era muito afável aos americanos e o nossa nação ficou “do lado de cá” da cortina de ferro da Guerra Fria. Isso fez com que o presidente Dutra chegasse a apoiar em rádio nacional o envio de tropas brasileiras para a Coreia para lutar junto aos EUA. Acontece que o Brasil de 1950 já era um Brasil diferente de anos atrás. O Brasil havia acabado de lutar a Segunda Guerra Mundial com o envio da FEB – Força Expedicionária Brasileira – para a Europa, onde os Pracinhas lutaram contra os fascistas e contra o sistema político fascista de dominação e agressão. Muitos dos soldados brasileiros que lutaram na FEB eram comunistas orgânicos, membros do Partido Comunista do Brasil (PCB) ou simpáticos aos ideais comunistas. Os demais voltaram da Itália com pensamentos que foram entendidos no Brasil como “perigosos”, tendo inclusive acontecido uma proibição dos soldados desfilarem usando armas quando voltaram do teatro de operações europeu – tamanho era o receio do governo brasileiro de surgir uma insurreição popular. Além disso, havia no governo brasileiro de 1950 uma ala liberal (que achou boa a ideia do Brasil entrar na Guerra da Coreia) e uma ala nacionalista que desaprovava a possibilidade do país se envolver em tal conflito. Segundo o historiador Rainer Sousa, na época, um capitão nacionalista do Exército Brasileiro, chamado Humberto Freire de Andrade, chegou a escrever um artigo público criticando o governo ditatorial da Coreia do Sul de Syngman Ree e elogiando as medidas populares da Coreia do Norte de Kim Il Sung, como a reforma agrária, bem como sua autonomia, se colocando frontalmente contra a entrada do Brasil no conflito. Mas a verdadeira resistência à entrada do Brasil na guerra que acontecia do outro lado do mundo veio das ruas. Em 7 de setembro de 1950, durante o desfile militar do Dia da Independência no centro da cidade de São Paulo, um grupo de mulheres saiu da multidão que assistia ao festejos e começou a balançar uma faixa que dizia: "Nossos filhos soldados não irão para a Coreia". E fez isso bem em frente ao palanque onde autoridades militares e políticas estavam. As mulheres foram aplaudidas pelo público presente, que realmente não via sentido em enviar nossos soldados – trabalhadores, diga-se de passagem – para um conflito que nada tinha a ver com o Brasil ou seus interesses. Porém, a líder delas foi presa imediatamente e levada para uma delegacia do temido DOPS, que inclusive depois proibiu manifestações na cidade que envolvessem a temática. Seu nome era Elisa Branco e ela se tornaria um dos maiores símbolos da luta dos comunistas contra a entrada do Brasil na guerra. Comunista desde muito jovem, a costureira Elisa Branco era filiada ao Partidão PCB, sendo uma dirigente feminina de um dos destacamentos políticos, além de fazer parte da Federação das Mulheres de São Paulo; ela também mantinha grande admiração por Luís Carlos Prestes. Liderou alguns atos do PCB antes da sua mais famosa manifestação espontânea do 7 de setembro de 1950. Julgada por um Tribunal Militar e condenada a quase 5 anos de prisão por sua ação com a faixa, Elisa acabou despertando um movimento fora da prisão que exigia sua soltura e também era contra o envio de tropas brasileiras para a Coreia. Manifestações reunindo milhares de populares tomaram várias cidades do Brasil com slogans como “Os jovens não irão para a Coreia” e “Não vamos combater os coreanos que lutam por sua libertação”. Nesse próximo registro fotográfico, por exemplo, vê-se trabalhadores da Baixada Fluminense do Rio de Janeiro em um ato de rua em Niterói. Em Recife, no Estádio do Retiro, uma missa com 40 mil pessoas presentes pedia o fim da Guerra da Coreia. Acuado e surpreso com a reação extremamente negativa da sociedade, principalmente por conta da agitação dos comunistas contra a escalada global da guerra de agressão imperialista dos EUA na Coreia, o governo Dutra recuou e resolveu não enviar tropas para lutarem na Coreia, limitando-se a fornecer tímidos suprimentos alimentícios aos americanos no decorrer do conflito. A campanha para o Brasil não se envolver no conflito deu certo e Elisa Branco acabaria sendo liberada da prisão após um pedido de habeas corpus feito pelo advogado do PCB ser aceito pela justiça, que acabou inocentando a camarada em 1951. As ações de Elisa foram encaradas como heroicas, corajosas e inspiradoras por pessoas de todo o mundo, incluindo na Coreia Popular e na União Soviética. Em 1953, o governo soviético condecorou Elisa com o honroso Prêmio Stalin da Paz (posteriormente, Prêmio Lenin da Paz), feito alcançado por pessoas de todo o mundo que haviam lutado pela paz dos povos. Elisa recebeu o prêmio em mãos nos palácios do Kremlin, em Moscou, no mesmo ano, durante uma cerimônia que contou com crianças norte-coreanas refugiadas da guerra. No mesmo ano de 1953, em julho, o povo coreano provocou a primeira derrota do imperialismo estadunidense, obrigando os ianques a assinarem o armistício da guerra, que significou a preservação da República Popular Democrática da Coreia e da Revolução Socialista no país.

por Lucas Rubio, Lucas RubioPresidente do Centro de Estudos da Política Songun – Brasil

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