Engels: "Carta a Franz Mehring"


Só hoje venho agradecer-lhe a Lessing-Legende [Lenda de Lessing] que amavelmente me mandou. Não queria enviar-lhe uma indicação de recepção do livro simplesmente formal, mas dizer-lhe também, ao mesmo tempo, algo sobre o conteúdo dele. Daí o atraso. Começo pelo fim — pelo apêndice Über den historischen Materialismus, onde V. reuniu o principal excelentemente e, para qualquer [pessoa] imparcial, convincentemente. Se encontro algo a censurar é que V. me atribui mais mérito do que me cabe, mesmo se eu entrar em conta com tudo o que possivelmente eu teria encontrado autonomamente — com o tempo —, mas que, porém, Marx, com o seu rápido coup d'oeuil e visão de conjunto [Uberblick] mais ampla, muito mais depressa descobriu. Quando se teve a sorte de, durante quarenta anos, trabalhar juntamente com um homem como Marx, habitualmente, não se é tão reconhecido, durante a vida deste, quanto se crê que se merece; mas, uma vez morto o maior, facilmente o mais pequeno é superestimado — e parece-me ser agora, precisamente, o meu caso; a história porá finalmente tudo isto em ordem, mas até lá, felizmente, desaparecerei e não saberei mais nada de nada. Aliás, só falta ainda um ponto que, porém, também não foi suficientemente posto em relevo regularmente nas coisas de Marx e minhas e em relação ao que nós os dois temos igual culpa. Designadamente, nós os dois pusemos — e tínhamos de pôr —, primeiro, o peso principal na dedução [Ableitung] das representações ideológicas — políticas, jurídicas e outras —, e das ações [Handlungen] mediadas por essas representações, [a partir] dos fatos econômicos fundamentais. Ao fazê-lo, negligenciámos o lado formal relativamente ao do conteúdo: a maneira como essas representações, etc, acontecem. Isto deu, pois, aos adversários a bem-vinda oportunidade para mal-entendidos ou distorções, de que Paul Barth é um exemplo flagrante. A ideologia é um processo que, com efeito, é completado com consciência pelo chamado pensador, mas com uma consciência falsa. As forças impulsionadoras [Triebkräfte] propriamente ditas que o movem permanecem-lhe desconhecidas; se não, não seria, precisamente, processo ideológico nenhum. Ele [o pensador] imagina, portanto, forças impulsionadoras falsas ou ilusórias. Porque o [processo] é um processo de pensamento, ele deduz tanto o seu conteúdo como a sua forma do puro pensar, quer do seu próprio quer do dos seus antecessores. Ele trabalha com mero material de pensamento [Gedankenmaterial], que, sem dar por isso, toma como produzido pelo pensar e, aliás, não investiga mais [se ele tem] uma origem mais afastada, independente do pensar; e, com efeito, isso é para ele evidente, porque, para ele, todo o agir [Handeln], porque mediado pelo pensar, parece também em última instância fundado no pensar. O ideólogo histórico (histórico [historisch] deve simplesmente estar aqui, resumidamente, por político, jurídico, filosófico, teológico, em suma, por todos os domínios que pertencem a sociedade e não meramente à Natureza) — o ideólogo histórico tem, portanto, em cada domínio científico uma matéria [Stoff] que se formou autonomamente a partir do pensar de gerações anteriores e que fez um ciclo de desenvolvimento próprio, autônomo, no cérebro dessas gerações sucessivas. Sem dúvida que fatos exteriores, que pertencem ao próprio domínio ou a outros, podem co-determinantemente ter atuado sobre este desenvolvimento, mas esses fatos são, segundo o pressuposto tácito, eles próprios, por sua vez, meros frutos de um processo de pensamento e, assim, permanecemos ainda sempre na esfera do mero pensar, que aparentemente digeriu com felicidade mesmo os fatos mais duros. E esta ilusão [Schein] de uma história autônoma das constituições do Estado, dos sistemas do Direito, das representações ideológicas em cada domínio particular, que, antes de tudo, cega a maioria das pessoas. Se Lutero e Calvino «triunfam» [uberwinden] da religião católica oficial, se Hegel «triunfa» de Fichte e Kant, se Rousseau com o seu Contrat social republicano "triunfa" indiretamente do Montesquieu constitucional, isso são processos que permanecem no interior da Teologia, da Filosofia, da Ciência do Estado, representam uma etapa na história desses domínios de pensamento e não saem fora do domínio do pensamento. E, desde que a ilusão [Illusion] burguesa da eternidade e última-instancialidade [Letztinstanzlichkeit] da produção capitalista foi acrescentada, mesmo o triunfo [Überwindung] dos fisiocratas e de A. Smith sobre os mercantilistas passa por uma mera vitória do pensamento; não pelo reflexo no pensamento [Gedankenreflex] de fatos econômicos alterados, mas pela penetração [Einsicht] correta, finalmente alcançada, nas condições efetivas sempre e por toda a parte existentes; se Ricardo Coração de Leão e Filipe Augusto tivessem introduzido o livre-câmbio, em vez de se terem enredado em cruzadas, ter-nos-iam sido poupados quinhentos anos de miséria e de estupidez. Este lado das coisas, que eu aqui apenas posso indicar, negligenciámo-lo nós, creio eu, mais do que ele merecia. É a velha história: no começo, a forma é sempre negligenciada relativamente ao conteúdo. Como disse, eu fi-lo igualmente, e o erro sempre só me apareceu post festum. Estou, portanto, não só muito longe de, de algum modo, lhe censurar isso — como co-culpado mais velho disso não tenho nenhum direito de o fazer, pelo contrário —, mas gostaria, contudo, de, para o futuro, lhe fazer notar este ponto. Com isto se prende também a representação disparatada dos ideólogos de que, porque denegamos às diversas esferas ideológicas que desempenham um papel na história um desenvolvimento histórico autônomo, lhes denegamos também toda a eficácia histórica [historische Wirksamkeit]. Está aqui subjacente a representação não-dialética ordinária de causa e efeito como pólos rigidamente contrapostos um ao outro, o absoluto esquecimento da ação recíproca. Os senhores esquecem, frequentemente, quase de propósito, que um momento histórico, logo uma vez posto no mundo por outras causas, finalmente econômicas, reage também sobre aquilo que o rodeia [Umgebung] e pode mesmo retroagir sobre as suas causas. Assim, por exemplo, Barth, acerca de sacerdócio e religião, na p. 475 de V. Alegrou-me muito a maneira como V. se desembaraçou deste rapaz, contra todas as expectativas, pouco profundo. E fizeram do homem professor de História em Leipzig! Havia lá, no entanto, o velho Wachsmuth, que também era pouco profundo de crânio, mas tinha um sentido muito grande para os fatos, um tipo inteiramente diferente! Quanto ao resto, só posso repetir acerca do livro aquilo que repetidamente disse acerca dos artigos quando apareceram na N[eue Z[eit]: é, de longe, a melhor exposição da gênese do Estado prussiano que existe; bem posso mesmo dizer que é a única [exposição] boa, que desenvolve corretamente as conexões, na maioria das coisas, até aos pormenores. Apenas se lamenta que V. não tenha podido também incluir todo o desenvolvimento ulterior até Bismarck e, sem querer, espera-se que V. o faça de uma outra vez e exponha a imagem de conjunto com conexão, desde o príncipe eleitor Friedrich Wilhelm até ao velho Wilhelm. V. fez já os estudos preparatórios e como que já terminou, pelo menos, o principal. E isso tem que ser feito antes que o baú rebente; a dissipação das lendas monárquico-patrióticas, se não é, precisamente, um pressuposto necessário da eliminação da monarquia que esconde a dominação de classe (uma vez que uma república burguesa, pura, na Alemanha foi ultrapassada, antes de ter sido posta de pé), [é], porém, no entanto, uma das alavancas mais eficazes para isso. V. terá, então, mais espaço e oportunidade para expor a história local prussiana como peça da miséria alemã no seu conjunto. É este o ponto em que, aqui e ali, eu me desvio alguma coisa da concepção de V., nomeadamente, na concepção das condições preparatórias da fragmentação da Alemanha e do fracasso da revolução burguesa alemã do século XVI. Quando eu chegar a elaborar de novo a introdução histórica à minha Bauernkrieg, o que, como espero, acontecerá no próximo Inverno, poderei, então, desenvolver aí os pontos relativos. Não é que eu considere os [pontos] indicados por V. como incorretos, mas eu acrescentaria outros e agrupá-los-ia de modo algo diferente. No estudo da história alemã — que, por certo, expõe uma única miséria contínua — sempre achei que só a comparação com as épocas francesas correspondentes dá a medida correta, porque lá acontece precisamente o contrário do que entre nós. Lá, o estabelecimento do Estado nacional a partir dos disjectis membris do Estado feudal, precisamente quando entre nós [há] o maior declínio [Hauptverfall]. Lá, uma rara lógica objetiva em todo o curso do processo; entre nós, desolada e cada vez mais desolada incoerência. Lá, na Idade Média, o conquistador inglês, com a sua intervenção a favor da nacionalidade provençal contra a [nacionalidade] do Norte de França, representa a intervenção estrangeira; as guerras contra a Inglaterra representam, por assim dizer, a Guerra dos Trinta Anos[N210], que, todavia, termina pela expulsão da intervenção estrangeira e pela submissão do Sul pelo Norte. Vem, depois, a luta do poder central com o vassalo borgonhês que se apoia em possessões estrangeiras — o qual desempenha o papel do Brandenburg-Prússia — mas que termina pela vitória do poder central e opera definitivamente o estabelecimento do Estado nacional. E [isto] precisamente no momento em que, entre nós, o Estado nacional se desmorona completamente (na medida em que se possa chamar ao «reino alemão» no interior do Sacro Império Romano[N186] um Estado nacional) e começa a pilhagem do território alemão em grande escala. É uma comparação em sumo grau vergonhosa para os alemães, mas, precisamente por isso, é tanto mais instrutiva; e, uma vez que os nossos operários colocaram de novo a Alemanha na primeira fila do movimento histórico, podemos engolir algo mais facilmente o opróbrio do passado. Muito particularmente assinalável para o desenvolvimento alemão é ainda que nenhum dos dois Estados parciais que finalmente partilharam entre si toda a Alemanha é um [Estado] puramente alemão, mas ambos são colônias em território eslavo conquistado: a Áustria uma [colônia] bávara, Brandenburg uma colônia saxônica; e que eles só adquiriram poder na Alemanha porque se apoiaram em possessões estrangeiras, não-alemãs: a Áustria na Hungria (para não falar da Boemia), o Brandenburg na Prússia. Na fronteira oeste, mais que todas ameaçada, nada disto teve lugar; na fronteira norte, confiou-se aos dinamarqueses que protegessem a Alemanha dos dinamarqueses, e no Sul havia tão pouco para proteger que os guardas da fronteira, os suíços, puderam mesmo separar-se eles próprios da Alemanha! Mas, lancei-me num amontoado de considerações dispersas [Allotria] de toda a espécie — que este palavrório, pelo menos, sirva a V. de prova de como o seu trabalho atuou sobre mim de um modo estimulante. Uma vez mais, agradecimentos cordiais e saudações do seu F. Engels

14 de Julho de 1893

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