Lenin: "Sobre a milícia proletária"


A conclusão que tirei ontem relativamente à tática vacilante de Tchkheídze foi hoje, 10 (23) de março, plenamente confirmada por dois documentos. O primeiro é um extracto, comunicado por telégrafo de Estocolmo ao Jornal de Frankfurt [1], do manifesto do CC do nosso partido, o Partido Operário Social-Democrata da Rússia, em Petrogrado. Neste documento não há nem uma palavra nem sobre o apoio ao governo de Gutchkov nem sobre o seu derrubamento; os operários e soldados são exortados a organizar-se em torno do Soviete de Deputados Operários, a elegerem representantes nele para lutar contra o czarismo, pela república, pela jornada de trabalho de 8 horas, pela confiscação das terras dos latifundiários e das reservas de trigo e, principalmente, pelo fim da guerra de pilhagem. É particularmente importante e particularmente atual a ideia perfeitamente correta do nosso CC de que para obter a paz são necessárias relações com os proletários de todos os países beligerantes. Esperar a paz de negociações e relações entre os governos burgueses significaria enganar-se a si próprio e enganar o povo. O segundo documento é uma notícia, comunicada também por telégrafo de Estocolmo a outro jornal alemão (Jornal de Voss [2], sobre uma reunião da fração de Tchkheídze na Duma com o grupo do trabalho (? Arbeiterfraction) e com os representantes de 15 sindicatos operários em 2 (15) de Março e sobre um apelo publicado no dia seguinte. Dos 11 pontos deste apelo o telégrafo só expõe três: o 1°, a reivindicação da república, o 7°, a reivindicação da paz e do início imediato de negociações sobre a paz, e o 3°, que reivindica “uma participação suficiente de representantes da classe operária russa no governo”. Se este ponto foi exposto com fidelidade, compreendo por que é que a burguesia louva Tchkheídze. Compreendo por que é que ao louvor dos gutchkovistas ingleses no Times, que citei atrás, se juntou o louvor dos gutchkovistas franceses no Le Temps. Este jornal dos milionários e imperialistas franceses escreve em 22/III: “Os chefes dos partidos operários, particularmente o Sr. Tchkheídze, empregam toda a sua influência para moderar os desejos das classes trabalhadoras.” De facto, reivindicar a “participação” dos operários no governo de Gutchkov-Miliukov é teórica e politicamente um absurdo: participar em minoria significaria ser um simples peão; participar “paritariamente” é impossível, pois não se pode conciliar a exigência de continuar a guerra com a exigência de concluir uma trégua e iniciar negociações de paz; para “participar” em maioria é preciso ter a força para derrubar o governo de Gutchkov-Miliukov. Na prática a reivindicação de “participação” é o pior dos louisblanquismos, isto é, o esquecimento da luta de classes e das suas condições reais, o entusiasmo pelas frases sonoras e ocas, a propagação de ilusões entre os operários, perdendo em negociações com Miliukov ou com Kérenski um tempo precioso que é preciso utilizar para criar uma força de classe e revolucionária real, uma milícia proletária capaz de inspirar confiança a todas as camadas mais pobres da população, que constituem a sua imensa maioria, de as ajudar a organizar-se, de as ajudar a lutar pelo pão, pela paz, pela liberdade. Este erro do apelo de Tchkheídze e do seu grupo (não digo do partido do CO, do Comité de Organização, porque nas fontes a que tenho acesso não há nem uma palavra sobre o CO) - este erro é tanto mais estranho quanto na reunião de 2 (15) de Março o correligionário mais próximo de Tchkheídze, Skóbelev, segundo informam os jornais, disse o seguinte: “A Rússia está em vésperas de uma segunda, de uma verdadeira (wirklich, literalmente: real) revolução.” Esta é uma verdade de que Skóbelev e Tchkheídze se esqueceram de tirar conclusões práticas. Não posso julgar daqui, da minha maldita distância, quão próxima está esta segunda revolução. Estando no local, Skóbelev pode ver melhor. Por isso não me coloco a mim próprio questões para cuja resolução não tenho nem posso ter dados concretos. Sublinho apenas a confirmação por uma “testemunha de fora”, isto é, que não pertence ao nosso partido, por Skóbelev, da conclusão fatual a que cheguei na primeira carta, a saber: a revolução de Fevereiro-Março foi apenas a primeira etapa da revolução. A Rússia atravessa um momento histórico peculiar de transição para a etapa seguinte da revolução ou, segundo a expressão de Skóbelev, para a “segunda revolução”. Se queremos ser marxistas e aprender com a experiência das revoluções de todo o mundo, devemos esforçar-nos por compreender em que consiste precisamente a peculiaridade deste momento de transição e qual é a táctica que decorre das suas particularidades objetivas. A peculiaridade da situação consiste em que o governo de Gutchkov-Miliukov alcançou a primeira vitória com uma facilidade incomum graças às três importantíssimas circunstâncias seguintes: 1) a ajuda do capital financeiro anglo-francês e dos seus agentes; 2) a ajuda de uma parte das camadas superiores do exército; 3) a organização já pronta de toda a burguesia russa nos zemstvos [3], nas instituições urbanas, na Duma de Estado, nos comités industriais de guerra, etc. O governo de Gutchkov encontra-se metido num torno: amarrado pelos interesses do capital, ele é obrigado a visar a continuação da guerra de pilhagem e de roubo, a garantia dos monstruosos lucros do capital e dos latifundiários, a restauração da monarquia. Amarrado pela sua origem revolucionária e pela necessidade de uma passagem abrupta do czarismo à democracia, sob a pressão das massas famintas e exigindo a paz, o governo é obrigado a mentir, a manobrar, a ganhar tempo, a «proclamar» e prometer o mais possível (as promessas são a única coisa que é muito barata mesmo numa época de furiosa carestia), a cumprir o menos possível, a fazer concessões com uma mão e a retirá-las com a outra. Em certas circunstâncias, no melhor dos casos para ele, o novo governo pode adiar um pouco a sua queda apoiando-se em todas as capacidades organizativas de toda a burguesia e intelectualidade burguesa russas. Mas mesmo neste caso ele não é capaz de evitar a queda, porque não é possível escapar às garras do monstro horrível da guerra imperialista e da fome, gerado pelo capitalismo mundial, sem abandonar o terreno das relações burguesas, sem passar a medidas revolucionárias, sem apelar ao imenso heroísmo histórico do proletariado russo e mundial. Daí a conclusão: não poderemos derrubar o novo governo de um só golpe ou, se pudermos fazê-lo (em tempos revolucionários os limites do possível alargam-se mil vezes), não poderemos conservar o poder sem contrapor à magnífica organização de toda a burguesia russa e de toda a intelectualidade burguesa uma organização do proletariado igualmente magnífica, que dirija toda a massa imensa dos pobres da cidade e do campo, do semiproletariado e dos pequenos proprietários. Independentemente de se a “segunda revolução” já eclodiu em Petrogrado (disse que seria perfeitamente absurda a ideia de avaliar do estrangeiro o ritmo concreto do seu amadurecimento) ou de se foi adiada por algum tempo ou de se começou já em alguns lugares isolados da Rússia (parecem existir algumas indicações disso) - em qualquer caso a palavra de ordem do momento, tanto em vésperas da nova revolução como durante ela e no dia a seguir a ela deve ser a organização proletária. Camaradas operários! Realizastes prodígios de heroísmo proletário ontem, ao derrubar a monarquia czarista. Tereis inevitavelmente, num futuro mais ou menos próximo (talvez mesmo agora, quando escrevo estas linhas), de realizar novamente prodígios do mesmo heroísmo para derrubar o poder dos latifundiários e dos capitalistas, que travam a guerra imperialista. Não podereis obter uma vitória sólida nesta próxima revolução, a «verdadeira», se não realizardes prodígios de organização proletária! A palavra de ordem do momento é a organização. Mas limitar-se a isto seria ainda não dizer nada, pois, por um lado, a organização é sempre necessária, a simples indicação da necessidade de “organizar as massas” ainda não explica absolutamente nada, e por outro lado quem se limitasse a isso seria um acólito dos liberais, porque os liberais querem precisamente, para reforçar a sua dominação, que os operários não vão além das organizações habituais, “legais” (do ponto de vista da sociedade burguesa “normal”), isto é, que os operários apenas se inscrevam no seu partido, no seu sindicato, na sua cooperativa, etc., etc. Com o seu instinto de classe os operários compreenderam que em tempo de revolução precisam de uma organização completamente diferente, não apenas da organização habitual, tomaram corretamente o caminho apontado pela experiência da nossa revolução de 1905 e da Comuna de Paris de 1871 [4], criaram o Soviete de Deputados Operários, começaram a desenvolvê-lo, alargá-lo e reforçá-lo atraindo deputados dos soldados e, sem dúvida, deputados dos operários assalariados agrícolas e depois (numa ou noutra forma) de todos os camponeses pobres. A criação de semelhantes organizações em todas as localidades da Rússia sem excepção, para todas as profissões e camadas da população proletária e semiproletária sem excepção, isto é, todos os trabalhadores e explorados, para empregar uma expressão economicamente menos precisa mas mais popular - tal tarefa é de primeiríssima importância, de importância inadiável. Antecipando-me, assinalarei que para toda a massa camponesa o nosso partido (espero falar numa das cartas seguintes sobre o seu papel particular nas organizações proletárias de novo tipo) deve recomendar particularmente sovietes dos operários assalariados e dos pequenos agricultores que não vendam trigo separados dos camponeses abastados: sem esta condição não se pode nem aplicar uma política verdadeiramente proletária em geral nem abordar corretamente uma importantíssima questão prática de vida ou de morte para milhões de pessoas: a correta contingentação do trigo, o aumento da sua produção, etc. Mas, pergunta-se, que devem fazer os sovietes de deputados operários? “Devem ser encarados como órgãos da insurreição, como órgão do poder revolucionário”, escrevemos nós no n.° 47 do Sotsial-Demokrat, de Genebra, de 13 de Outubro de 1915. Esta proposição teórica, deduzida da experiência da Comuna de 1871 e da revolução russa de 1905, deve ser esclarecida e desenvolvida mais concretamente na base das indicações práticas precisamente da etapa atual precisamente da revolução atual na Rússia. Necessitamos de um poder revolucionário, necessitamos (para um certo período de transição) de um Estado. É nisto que nos distinguimos dos anarquistas. A diferença entre os marxistas revolucionários e os anarquistas não consiste só em que os primeiros são pela grande produção comunista centralizada e os segundos pela pequena produção dispersa. Não, a diferença precisamente quanto à questão do poder, do Estado, consiste em que nós somos pela utilização revolucionária das formas revolucionárias de Estado para lutar pelo socialismo e os anarquistas são contra. Necessitamos de um Estado. Mas não da espécie de Estado que a burguesia criou por toda a parte, a começar nas monarquias constitucionais e acabar nas repúblicas mais democráticas. E é nisso que consiste a nossa diferença dos oportunistas e kautskistas dos velhos partidos socialistas, que começaram a apodrecer, que deturparam ou esqueceram as lições da Comuna de Paris e a análise destas lições por Marx e Engels. Necessitamos de um Estado, mas não de um como aquele de que a burguesia necessita, com organismos do poder separados do povo e opostos ao povo sob a forma da polícia, do exército, da burocracia (funcionários). Todas as revoluções burguesas apenas aperfeiçoaram esta máquina de Estado, apenas a transferiram das mãos de um partido para as mãos de outro partido. Mas o proletariado, se quiser defender as conquistas da revolução atual e avançar, conquistar a paz, o pão e a liberdade, tem de “demolir”, para usar as palavras de Marx, esta máquina de Estado “já pronta” e de substituí-la por uma nova, fundindo a polícia, o exército e a burocracia com todo o povo armado. Seguindo a via apontada pela experiência da Comuna de Paris de 1871 e da revolução russa de 1905, o proletariado deve organizar e armar todos os setores mais pobres e explorados da população, para que tomem eles próprios diretamente nas suas mãos os órgãos do poder de Estado, constituam eles próprios as instituições deste poder. E os operários da Rússia tomaram já está via na primeira etapa da primeira revolução, em Fevereiro-Março de 1917. Toda a tarefa consiste agora em compreender claramente qual é esta nova via, em avançar por ela com audácia, firmeza e tenacidade. Os capitalistas anglo-franceses e russos queriam “apenas” afastar ou mesmo “assustar” Nicolau II, deixando intacta a velha máquina de Estado, a polícia, o exército, o funcionalismo. Os operários avançaram e destruíram-na. E agora não só os capitalistas anglo-franceses mas também alemães uivam de raiva e horror ao ver, por exemplo, como os soldados russos fuzilaram os seus oficiais, como aconteceu com o almirante Nepenin, partidário de Gutchkov e Miliukov. Disse que os operários a destruíram, a velha máquina de Estado. Mais precisamente: começaram a destruí-la. Tomemos um exemplo concreto. A polícia foi em parte exterminada e em parte varrida, em Petrogrado e em muitos outros lugares. O governo de Gutchkov e Miliukov não poderá nem restaurar a monarquia nem em geral manter-se no poder sem reconstituir a polícia como organização especial, separada do povo e a ele oposta, de pessoas que se encontram sob o comando da burguesia. Isto é claro como a luz do dia. Por outro lado, o novo governo tem de ter em conta o povo revolucionário, de alimentá-lo com semiconcessões e promessas, de ganhar tempo. Por isso recorre a uma meia-medida: institui uma “milícia popular” com chefes eleitos (isto soa de modo terrivelmente decente! terrivelmente democrático, revolucionário e bonito!) - mas... mas, em primeiro lugar, coloca-a sob o controlo, sob as ordens dos zemstvos e dos órgãos urbanos de auto-administração, isto é, sob as ordens dos latifundiários e capitalistas eleitos de acordo com leis de Nicolau, o Sanguinário, e de Stolypin, o Enforcador!! Em segundo lugar, ao mesmo tempo que chama “popular” à milícia para deitar poeira aos olhos do "povo", de facto ele não chama todo o povo a participar nesta milícia e não obriga os patrões e os capitalistas a pagar aos empregados e operários o salário habitual pelas horas e dias que eles dedicam ao serviço social, isto é, à milícia. Aí é que está o gato. Eis por que via o governo latifundiário e capitalista dos Gutchkov e Miliukov procura que a “milícia popular” fique no papel e de facto seja reconstituída pouco a pouco, desapercebidamente, uma milícia burguesa, antipopular, inicialmente constituída por “8000 estudantes e professores universitários” (é assim que os jornais estrangeiros descrevem a atual milícia de Petrogrado) - é claramente um brinquedo! - e depois gradualmente pela velha e nova polícia. Não deixar reconstituir a polícia! Não largar das mãos o poder ao nível local! Criar uma milícia realmente de todo o povo, geral, dirigida pelo proletariado! - tal é a tarefa do dia, tal é a palavra de ordem do momento, que corresponde de igual modo tanto aos interesses corretamente entendidos da luta de classes ulterior, do movimento revolucionário ulterior, como ao instinto democrático de qualquer operário, de qualquer camponês, de qualquer trabalhador e explorado, que não pode deixar de odiar a polícia, os guardas, os polícias rurais, o comando dos latifundiários e polícias sobre homens armados que obtém poder sobre o povo. De que polícia precisam eles, os Gutchkov e os Miliukov, os latifundiários e capitalistas? A mesma que havia na monarquia czarista. Todas as repúblicas burguesas e democráticas burguesas do mundo organizaram ou reconstituíram, depois de brevíssimos períodos revolucionários, precisamente tal polícia, uma organização especial de homens armados separados do povo e opostos a ele, subordinados de uma ou de outra forma à burguesia. De que milícia precisamos nós, o proletariado, todos os trabalhadores? De uma milícia realmente popular, isto é, em primeiro lugar, constituída por toda a população, por todos os cidadãos adultos de ambos os sexos, e, em segundo lugar, de uma milícia que combine em si a função de exército popular com as funções de polícia, com as funções de órgão principal e fundamental da ordem pública e da administração estatal. Para tornar estas proposições mais compreensíveis tomarei um exemplo puramente esquemático. Nem é preciso dizer que seria absurda a ideia de elaborar qualquer “plano” da milícia proletária: quando os operários e todo o povo se lançarem verdadeiramente em massa ao trabalho de modo prático, elaborá-lo-ão e organizá-lo-ão cem vezes melhor do que quaisquer teóricos. Não proponho um “plano”, quero apenas ilustrar a minha ideia. Em Petrogrado há cerca de 2 milhões de habitantes. Destes mais de metade têm de 15 a 65 anos. Tomemos metade - l milhão. Subtraiamos mesmo um quarto de doentes, etc., que não participam no momento atual no serviço social por causas justificadas. Restam 750 000 pessoas, que, trabalhando na milícia, suponhamos, l dia em cada 15 (e continuando a receber salário dos patrões durante este tempo) constituiriam um exército de 50 000 pessoas. É este o tipo de “Estado” de que precisamos! É esta a milícia que seria de fato, e não apenas em palavras, uma “milícia popular”. É este o caminho que devemos seguir para que não seja possível reconstituir nem uma polícia especial nem um exército especial, separado do povo. Tal milícia seria constituída em 95% por operários e camponeses, exprimiria realmente a inteligência e a vontade, a força e o poder da imensa maioria do povo. Tal milícia armaria e ensinaria realmente a arte militar a todo o povo, salvaguardando, não à maneira de Gutchkov, não à maneira de Miliukov, contra quaisquer tentativas de restauração da reação, contra quaisquer maquinações dos agentes czaristas. Tal milícia seria o órgão executivo dos “sovietes de deputados operários e soldados”, gozaria do respeito e confiança absolutos da população, porque ela própria seria uma organização de toda a população. Tal milícia transformaria a democracia de bela etiqueta encobrindo a escravização do povo pelos capitalistas e o escárnio do povo pelos capitalistas em verdadeira educação das massas para a participação em todos os assuntos estatais. Tal milícia incluiria os jovens na vida política, ensinando-os, não só pelas palavras mas pelos atos, pelo trabalho. Tal milícia desenvolveria as funções que, falando em linguagem científica, dizem respeito à “polícia do bem-estar”, a vigilância sanitária, etc., recrutando para esse trabalho todas as mulheres adultas. E sem incluir as mulheres no serviço social, na milícia, na vida política, sem arrancar as mulheres ao seu ambiente embrutecedor da casa e da cozinha, não é possível assegurar uma verdadeira liberdade, não é possível constituir sequer a democracia, para já não falar do socialismo. Tal milícia seria uma milícia proletária porque os operários industriais e urbanos obteriam nela uma influência dirigente sobre a massa dos pobres tão natural e inevitavelmente como natural e inevitavelmente ocupou o lugar dirigente em toda a luta revolucionária do povo tanto em 1905-1907 como em 1917. Tal milícia asseguraria uma ordem absoluta e uma disciplina baseada na camaradagem e observada sem reservas. E ao mesmo tempo ela, na dura crise vivida por todos os países beligerantes, daria a possibilidade de lutar de modo verdadeiramente democrático contra esta crise, de realizar correta e rapidamente ao contingenciamento do trigo e dos outros víveres, de aplicar o “trabalho obrigatório geral”, a que os franceses chamam agora “mobilização cívica” e os alemães “serviço cívico obrigatório”, e sem o qual não é possível - verificou-se que não é possível - curar as feridas que a guerra bandidesca e terrível causou e continua a causar. Será que o proletariado da Rússia derramou o seu sangue apenas para receber belas promessas apenas de reformas políticas democráticas? Será que ele não vai exigir e conseguir que cada trabalhador veja e sinta imediatamente uma certa melhoria da sua vida? Que cada família tenha pão? Que cada criança tenha uma garrafa de bom leite e que nenhum adulto de uma família rica ouse consumir leite extra enquanto as crianças não estiverem abastecidas? Que os palácios e bairros ricos, abandonados pelo czar e pela aristocracia, não fiquem desocupados mas deem abrigo às pessoas sem casa e sem posses? Quem pode realizar estas medidas senão uma milícia de todo o povo em que as mulheres participem necessariamente em igualdade com os homens? Tais medidas não são ainda o socialismo. Elas dizem respeito ao contingenciamento do consumo e não à reorganização da produção. Elas não seriam ainda a “ditadura do proletariado” mas apenas a “ditadura democrática revolucionária do proletariado e do campesinato pobre”. Do que agora se trata não é de as classificar teoricamente. Seria o maior dos erros tentar meter as tarefas práticas complexas, urgentes e em rápido desenvolvimento da revolução no leito de Procusto de uma “teoria” estreitamente entendida em vez de ver na teoria antes de mais e acima de tudo um guia para ação. Haverá na massa dos operários russos suficiente consciência, firmeza e heroísmo para realizar “prodígios de organização proletária” depois de ter realizado na luta revolucionária direta prodígios de coragem, iniciativa, espírito de sacrifício? Não sabemos, e seria ocioso pormo-nos a adivinhar, pois só a prática dá as respostas a essas perguntas. Aquilo que sabemos com certeza e aquilo que nós, como partido, devemos explicar às massas é, por um lado, que existe um motor histórico de enorme força, que gera uma crise sem precedentes, a fome, calamidades incontáveis. Este motor é a guerra, que é travada pelos capitalistas de ambos os campos beligerantes com fins de pilhagem. Este «motor» levou toda uma série das nações mais ricas, mais livres e mais instruídas à beira do precipício. Ele obriga os povos a pôr em tensão até ao extremo todas as suas forças, coloca-os numa situação insuportável, coloca na ordem do dia não a realização de quaisquer "teorias" (nem sequer se pode falar disso, e Marx sempre preveniu os socialistas contra isso) mas a aplicação das medidas mais extremas praticamente possíveis, pois sem medidas extremas é a morte, a morte de fome, imediata e certa, de milhões de pessoas. Nem é preciso demonstrar que o entusiasmo revolucionário da classe avançada pode muito quando a situação objetiva exige medidas extremas a todo o povo. Este aspecto da questão é claramente observado e sentido por todos na Rússia. É importante compreender que em tempo de revolução a situação objetiva muda tão rápida e bruscamente como corre rapidamente a vida em geral. E nós devemos saber adaptar a nossa tática e as nossas tarefas imediatas às particularidades de cada situação. Antes de Fevereiro de 1917 o que estava na ordem do dia era a propaganda revolucionária internacionalista corajosa, o apelo às massas para a luta, o seu despertar. Nas jornadas de Fevereiro-Março exigia-se o heroísmo da luta abnegada para esmagar quanto antes o inimigo imediato - o czarismo. Agora estamos a viver a transição desta primeira etapa da revolução para a segunda, do “embate” com o czarismo para o “embate” com o imperialismo gutchkoviano-Miliukoviano, latifundiário e capitalista. Na ordem do dia está a tarefa da organização, mas de modo nenhum no sentido estereotipado do trabalho com organizações apenas estereotipadas, mas no sentido da atração de massas de uma amplitude sem precedentes das classes oprimidas para uma organização e do cumprimento por esta própria organização de tarefas militares, estatais e econômicas. O proletariado abordou e abordará esta tarefa original por diferentes vias. Numas localidades da Rússia a revolução de Fevereiro-Março põe-lhe nas mãos quase um poder completo; noutras começará talvez a criar e a alargar a milícia proletária de maneira “usurpadora”; numas terceiras procurará provavelmente conseguir eleições imediatas na base do sufrágio universal, etc., para as dumas urbanas e zemstvos, para criar a partir deles centros revolucionários, etc., enquanto o crescimento da organização proletária, a aproximação dos soldados dos operários, o movimento no seio do campesinato, a desilusão de muitos e muitos em relação à validade do governo de Gutchkov e Miliukov não aproximar a hora da substituição pelo “governo” do Soviete de Deputados Operários. Não esqueçamos também que bem perto de Petrogrado temos um dos países mais avançados, de facto republicanos, a Finlândia, que de 1905 a 1917, a coberto das batalhas revolucionárias na Rússia, desenvolveu a democracia de forma relativamente pacífica e conquistou a maioria do povo para o lado do socialismo. O proletariado da Rússia assegurará à República Finlandesa a completa liberdade, incluindo a liberdade de separação (agora dificilmente haverá um só social-democrata que vacile a este respeito, num momento em que o democrata-constitucionalista Róditchev tão indignamente tenta arrancar em Helsingfors pedacinhos de privilégios para os grão-russos [5] - e precisamente com isso conquistará a completa confiança e ajuda fraterna dos operários finlandeses à causa proletária de toda a Rússia. Numa obra difícil e grande são inevitáveis os erros - também nós lhes não escaparemos; - os operários finlandeses são melhores organizadores, eles ajudar-nos-ão neste domínio, eles farão avançar à sua maneira a instauração da república socialista. Vitórias revolucionárias na própria Rússia - êxitos organizativos pacíficos na Finlândia a coberto destas vitórias - passagem dos operários russos às tarefas organizativas revolucionárias a uma nova escala - conquista do poder pelo proletariado e pelas camadas mais pobres da população - estímulo e desenvolvimento da revolução socialista no Ocidente - tal é a via que nos conduzirá à paz e ao socialismo.

11 (24) de Março de 1917. Escrito por V. I. Lenin De Obras Completas de V. I. Lenin, 5ª ed. em russo, t. 31, pp. 34-47. Notas [1] Frankfurter Zeitung (Jornal de Frankfurt): jornal diário, órgão dos grandes bolsistas alemães; publicou-se em Frankfurt de 1856 a 1943. Recomeçou a publicar-se em 1949 com o nome de Frankfurter Allgemeine Zeitung. [2] Vossische Zeitung (Jornal de Voss): jornal liberal moderado alemão publicado em Berlim de 1704 a 1934. [3] Zemstvos: órgãos eleitos de auto-administração na Rússia, introduzidos em 1864. Tratavam de questões de instrução, saúde, construção de estradas, etc. O sistema eleitoral assegurava o domínio dos latifundiários. A esfera da atividade e os direitos dos zemstvos eram controlados pelo Ministério do Interior e eram constantemente cerceados pelo governo. Foram suprimidos em 1918. [4] Comuna de Paris: primeira experiência de criação de uma ditadura do proletariado da história. O governo revolucionário da classe operária criado em Paris em consequência da insurreição de 1871 manteve-se 72 dias - de 18 de Março a 28 de Maio. A Comuna de Paris, que era um órgão simultaneamente legislativo e executivo, separou a Igreja do Estado e a escola da Igreja e aplicou uma série de medidas para melhorar a situação econômica dos operários e dos pobres da cidade, etc. Contudo, o medo de nacionalizar o Banco de França, a indecisão na liquidação das forças contrarrevolucionárias de Paris, a táctica da defesa passiva e a subestimação da importância da aliança com o campesinato apressaram a queda da Comuna de Paris. Em 21 de Maio de 1871 as tropas do governo contrarrevolucionário de Thiers lançaram uma repressão feroz contra os operários parisienses. Os communards lutaram nas barricadas até 28 de Maio. [5] Nos primeiros dias da sua existência o Governo Provisório nomeou o outubrista M. Stakhóvitch general-governador da Finlândia e o democrata-constitucionalista F. Róditchev ministro (ou comissário) para os assuntos da Finlândia. Em 8 (21) de Março foi publicado o Manifesto sobre a Ratificação do Grão-Principado da Finlândia e sobre a Sua Plena Aplicação. Era reconhecido à Finlândia o direito à autonomia, com ratificação pelo governo da Rússia das leis adotadas pela Dieta finlandesa. As leis impostas aos finlandeses durante a Primeira Guerra Mundial e que contradiziam a sua legislação foram mantidas em vigor durante todo o tempo da guerra. O Governo Provisório procurou que a Dieta incluísse na constituição um ponto sobre a igualização dos cidadãos russos com os finlandeses nos aspectos do comércio e da indústria, pois sob o governo czarista esse direito não era reconhecido pelas leis finlandesas e era aplicado por via violenta. A recusa do Governo Provisório de resolver a questão da autodeterminação da Finlândia conduziu a um conflito agudo com a Finlândia, que só foi resolvido depois da Grande Revolução Socialista de Outubro. Em 18 (31) de Dezembro de 1917 o governo soviético concedeu à Finlândia a completa independência.

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