Riazanov: "Marx: filósofo e revolucionário"


O segundo congresso (da Liga dos Comunistas) celebrou-se em Londres, em fins de novembro de 1847 e, desta vez, Marx, o assistiu. Antes disso, Engels lhe havia escrito, de Paris, dizendo-lhe que esboçara um projeto de catecismo ou profissão de fé, mas que julgara mais conveniente chamá-lo de Manifesto Comunista. Marx, provavelmente, levou ao congresso as teses elaboradas por Engels. Ali, longe de tudo correr bem, houve acaloradas discussões. Os debates duraram vários dias e muito custou a Marx convencer a maioria da justeza do novo programa, que finalmente foi aceito em seus aspectos fundamentais. “Toda a história... é a história das lutas de classes” O congresso o encarregou, depois, da redação para a Liga dos Comunistas, não de uma profissão de fé, mas sim de um manifesto, como havia proposto Engels. Designado pelo congresso, na verdade Marx aproveitou, na composição do documento, do projeto preparado por Engels, mas coube apenas a ele a responsabilidade política do manifesto diante da Liga. Contém, certamente, ideias concebidas em comum por Marx e Engels, mas seu pensamento fundamental, como havia destacado o próprio Engels, pertencia exclusivamente a Marx: “A ideia fundamental do Manifesto, a saber: que a produção econômica e a estrutura social determinada fatalmente por ela constituem o fundamento da história política e intelectual de uma época histórica dada, por conseguinte, toda a história, desde a desagregação da comunidade rural primitiva, tem sido a história da luta de classes, vale dizer, da luta entre explorados e exploradores, entre as classes dominadas e as dominantes, nas distintas etapas da evolução social, que esta luta chegou agora a um grau em que a classe explorada e oprimida (o proletariado) não pode libertar-se da classe que a oprime e explora (a burguesia) sem libertar ao mesmo tempo e para sempre toda a sociedade da exploração, da opressão e da luta de classes. Esta ideia fundamental, digo, pertence única e exclusivamente a Marx.” O Manifesto deveria considerar não um país qualquer, isoladamente, mas o mundo burguês em seu conjunto, diante do qual pela primeira vez os comunistas declarariam abertamente seus propósitos. O primeiro capítulo é uma exposição brilhante da sociedade burguesa capitalista, da luta de classes que ela criou e que continua a desenvolver-se sobre a base desta sociedade. Vê-se ali como a burguesia se formou fatalmente no curso do antigo sistema feudal, como se transformaram gradualmente suas condições de existência, a conseqüência da troca nas relações econômicas, que papel revolucionário teve em sua luta contra o feudalismo, a que grau surpreendente chegou a desenvolver as forças produtivas da sociedade e, como creio, pela primeira vez na história, a possibilidade da emancipação material da humanidade. Segue uma síntese histórica do desenvolvimento do proletariado. Vê-se nela que o proletariado se desenvolve segundo leis fatais, de igual modo que a burguesia, cujo desenvolvimento segue, passo a passo, como a sombra o próprio corpo. “Os comunistas não constituem um partido separado e oposto” De um modo progressivo, o proletariado se constitui em classe especial e o Manifesto explica como e em que forma se desenvolve sua luta contra a burguesia até o momento em que cria sua própria organização de classe. Apoiando-se em Engels, ainda que em menor medida do que se acreditava, Marx expõe a tática dos comunistas com respeito a todos os outros partidos operários. E convém destacar aqui uma interessante particularidade: o Manifesto diz que os comunistas não são um partido especial, oposto aos outros partidos operários, mas sim que se distinguem unicamente por representar a vanguarda operária, que tem sobre o resto do proletariado a vantagem de compreender as condições, a marcha e as conseqüências gerais do movimento operário. O Manifesto analisa as inumeráveis correntes que então lutavam pela supremacia entre os socialistas e os comunistas. Ele as critica com violência e as rechaça categoricamente, excetuando os grandes utopistas Saint-Simón, Fourier e Owen, cujas doutrinas, sobretudo a dos últimos, haviam sido até certo ponto acertadas e consideradas por Marx e Engels. Mas, ainda que adotando as suas críticas ao regime burguês, o Manifesto se opõe ao socialismo pacífico, ao utópico e ao que desdenhava da luta política e do programa revolucionário do novo comunismo crítico proletário. Em sua conclusão, o Manifesto examina a tática dos comunistas durante a revolução, particularmente com respeito aos partidos burgueses. Para cada país, as regras dessa tática variam segundo as condições históricas. Onde a burguesia é a classe dominante, o ataque do proletariado se dirige completamente contra ela. Onde, todavia, a burguesia aspira o poder político, como a Alemanha, o Partido Comunista a apoia em sua luta revolucionária contra a monarquia e a nobreza, sem que jamais cesse de inculcar nos operários a consciência nítida da oposição dos interesses de classe da burguesia e os do proletariado.

O Manifesto contém todos os resultados do trabalho científico ao qual Marx e Engels - especialmente o primeiro – haviam se dedicado de 1845 a 1847. Durante este tempo, Engels havia estudado os materiais reunidos por ele sobre A situação da classe operária na Inglaterra . Enquanto isso, Marx trabalhava sobre a história das doutrinas políticas e econômicas. A concepção materialista da história, que lhes deu a possibilidade de analisar com tanta justeza as relações materiais, as condições materiais da produção e da distribuição, pelas quais se determinam todas as relações sociais, havia sido amadurecida por eles nestes anos, enquanto lutavam contra as distintas doutrinas idealistas. Antes do Manifesto , Marx havia exposto a nova doutrina na forma mais completa e brilhante, polemizando contra Proudhon. (...) Ao mesmo tempo em que reivindicava a supressão da propriedade privada, Proudhon era adversário do comunismo, posto que somente na conservação da propriedade privada do camponês ou do artesão via o meio para que estes pudessem prosperar e a situação do operário, segundo ele, não podia melhorar pela luta econômica e pelas greves e sim apenas pela tranformação do operário em proprietário. (...) Daí que aparecido o livro de Proudhon, Marx pôs-se a trabalhar e respondeu a Filosofia da miséria com uma obra intitulada Miséria da filosofia na qual refuta todas as idéias de Proudhon e opõe aos seus pontos de vista os do comunismo crítico. (...) Marx tinha ainda pela frente um imenso trabalho para transformar em um sistema monumental este esboço genial que é em essência a Miséria da filosofia no que diz respeito ao estudo dos principais problemas econômicos. Antes que conseguisse tal objetivo (...) tocou-lhe assistir à Revolução de 1848, predita e impacientemente esperada por ele e Engels, para a qual estavam se preparando e haviam elaborado as teses fundamentais expostas no Manifesto Comunista. Escrito por David Riazanov Da obra "Marx e Engels - Curso de Marxismo da Academia de Ciências de Moscou", publicado pelo selo Edições Nova Cultura

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