Machel: "A luta armada começou em Manica e Sofala"


O desencadeamento da luta em Manica e Sofala certamente que resulta da determinação, da coragem, do patriotismo e da consciência da população, dos combatentes, dos quadros e responsáveis da Província. Mas o desencadeamento da luta também resulta do esforço, do combate de todos os Moçambicanos, em particular nas províncias já em luta armada. Quanto mais fogueiras existem na floresta, menos possibilidades tem o inimigo de apagar os novos fogos que nascem. Neste contexto, devemos saudar a consciência exemplar dos nossos camaradas na Província de Tete, que souberam assumir a nossa linha e assim transformaram-se em base de apoio para a expansão da luta para novas zonas. Fazendo-o, também consolidaram a situação em Tete. Mais feridas sangram no corpo da fera colonialista, mais débil se torna a sua força real, ainda que maior seja o seu rancor e raiva de desespero. A população de Manica e Sofala soube assumir a nossa disciplina, os nossos princípios estratégicos e táticos. Ainda que submetida ao trabalho forçado, à palmatória, ao imposto, embora levada para os campos da morte das companhias de açúcar, mesmo sofrendo a asfixia da poeira nas fábricas de cimento, apesar do chicote na construção das estradas, a população de Manica e Sofala com paciência esperou a palavra de ordem do partido, com disciplina aguardou que o esforço comum criasse as condições propícias ao desencadeamento da luta. Ao agir assim, a população de Manica e Sofala mostrou que soube transformar os seus sofrimentos em determinação revolucionária, demonstrou que possui a maturidade política necessária para levar à vitória a nossa guerra de libertação. A abertura da nova frente é uma grande derrota para o colonialismo português e o imperialismo. Manica e Sofala é um centro estratégico de desdobramento das tropas colonialistas; a recente transferência da sede do Alto Comando Militar inimigo de Nampula para a Beira, demonstra bem a importância militar da Província. Pelas riquezas agrícolas, minerais, pela sua atividade industrial, pela importância da sua rede de comunicações, Manica e Sofala goza dum lugar preponderante no dispositivo de exploração econômica colonial e imperialista do nosso país. Dezenas de companhias americanas, inglesas, francesas, alemãs, japonesas e portuguesas, auferem lucros fabulosos, explorando as riquezas e os trabalhadores nesta Província. É evidente, assim, que a abertura da luta em Manica e Sofala afecta profundamente a estrutura da exploração colonialista e imperialista. Os sonhos e promessas rápidas de vitória que tradicionalmente o Alto Comando colonialista vem prometendo às suas tropas desmoralizadas, sofreu um golpe fatal. Novas mentiras terão que ser inventadas por Kaúlza, para esconderem em vão a derrota final cada vez mais iminente. É certo também que o inimigo, ferido num dos seus pontos mais sensíveis e dolorosos, vai reagir mais brutalmente, mais ferozmente, mais criminosamente. Devemos estar conscientes de que as vagas de prisões e torturas, bombardeamentos e massacres, serão mais numerosos, mais intensos, mais sistemáticos. O que mais é, devido à situação estratégica da Província em relação ao resto da África Austral, devemos saber que em Manica e Sofala o imperialismo, os racistas sul-africanos,e rodesianos, farão tudo para esmagar a nossa luta. Fracassarão. Os crimes que cometem, a agressão contra o nosso Povo, é gasolina lançada na fogueira da guerra popular. Estamos seguros também que ao esforço da aliança imperialista e racista corresponderá um desenvolvimento consequente da solidariedade internacional, do campo das forças progressistas que nos apoiam. A nossa vitória de hoje é também de todos os povos, dos que combatem ao nosso lado, especialmente, em Angola e na Guiné-Bissau, dos que nos apoiam firmemente na África e no mundo, é uma vitória do campo socialista nosso aliado, é uma vitória ainda do próprio povo português em luta contra o fascismo e a guerra colonial. Ao desencadearmos a luta em Manica e Sofala, onde se encontra implantada uma fração importante da comunidade portuguesa do nosso país, queremos reafirmar que a nossa luta não é contra ela, que a nossa vitória só pode beneficiar os que vivem do trabalho honesto, os que sofrem da exploração colonial e fascista. O Povo moçambicano, fraternalmente, convida os soldados portugueses, a população portuguesa, a unirem-se ao esforço comum de libertação. Neste décimo ano da FRELIMO, no momento em que, terminadas as celebrações do 25 de Junho, nos preparávamos para celebrar o 25 de Setembro, a ação unida do Povo e dos combatentes da FRELIMO abriu uma nova frente. É um momento de grande alegria e orgulho para todo o Povo Moçambicano. Mas é também um momento em que comovidamente evocamos a memória dos camaradas que no campo de batalha, na ação clandestina, nas prisões colonialistas heroicamente se sacrificaram pela libertação da nossa terra e do nosso Povo, e tornaram possível, pelo seu sangue e sacrifício, mais esta grande vitória. Saibamos ser dignos desse sangue puro e generoso, intensifiquemos o combate, consolidemos a luta em Manica e Sofala e nas outras Províncias, estendamos a luta para novas frentes. A luta continua! Independência ou morte! Venceremos! Por Samora Machel Publicado em "A Voz da Revolução" n.° II, de Julho/Agosto de 1972.

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