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Engels: "O Papel da Violência na História"

Apliquemos agora a nossa teoria à história alemã de hoje e à sua prática da violência pelo sangue e pelo ferro. Daí veremos com clareza por que teve que ter sucesso, temporariamente, a política de sangue e ferro e por que tem ela que fracassar no final.

O Congresso de Viena, em 1815, tinha repartido e vendido a Europa ao desbarato de uma tal maneira que ficava clara perante o mundo inteiro a incapacidade total dos potentados e homens de Estado. A guerra geral dos povos contra Napoleão foi a reação do sentimento nacional espezinhado em todos os povos por Napoleão. Em agradecimento por isso, os príncipes e diplomatas do Congresso de Viena espezinharam ainda com mais desprezo esse sentimento nacional. A mais pequena dinastia valia mais do que o maior povo. A Alemanha e a Itália foram de novo fragmentadas em pequenos Estados, a Polônia foi dividida pela quarta vez, a Hungria permaneceu subjugada. E não se pode dizer, sequer, que acontecia uma injustiça aos povos, pois por que se deixaram eles ficar e por que saudaram no czar russo(1*) o seu libertador?

Mas isso não podia durar. Desde o fim da Idade Média, a história trabalha para a constituição da Europa a partir de grandes Estados nacionais. Só tais Estados são a normal organização política da burguesia dominante europeia e são, do mesmo modo, condição prévia indispensável para o estabelecimento da cooperação internacional harmoniosa dos povos, sem a qual não pode existir a dominação do proletariado. Para assegurar a paz internacional, têm primeiramente de ser afastadas todas as fricções nacionais evitáveis, tem cada povo de ser independente e senhor na sua própria casa. Com o desenvolvimento do comércio, da agricultura, da indústria e, assim, com o poder social da burguesia, elevou-se por toda a parte o sentimento nacional, as nações fragmentadas e oprimidas exigiram autoridade e autonomia.

A revolução de 1848 estava, por isso, orientada em toda a parte, exceto na França, tanto para a satisfação das reivindicações nacionais como das de liberdade. Mas, por detrás da burguesia, vitoriosa no seu primeiro arranque, erguia-se já por toda a parte a figura ameaçadora do proletariado, que, na realidade, tinha conquistado a vitória e empurrado a burguesia para os braços dos adversários acabados de vencer — a reação monárquica, burocrática, semifeudal e militar, à qual a revolução sucumbiu em 1849. Na Hungria, onde isto não foi o caso, entraram os russos e esmagaram a revolução. Não contente com isso, o czar russo(2*) foi a Varsóvia e erigiu-se ali em árbitro da Europa. Nomeou Christian de Glücksburg, sua criatura dócil, sucessor ao trono da Dinamarca. Humilhou a Prússia como ela ainda nunca fora humilhada, ao proibir-lhe mesmo os mais fracos apetites de exploração dos esforços alemães para a unidade, ao forçá-la a restaurar o Parlamento Federal [Bundestag] e a submeter-se à Áustria. Todo o resultado da revolução parecia ser, assim, à primeira vista, o de que a Áustria e a Prússia eram governadas segundo forma constitucional, mas no velho espírito, e que o czar russo dominava a Europa mais do que antes.

Mas, na realidade, a revolução tinha fortemente despertado a burguesia também nos países desmembrados, e designadamente a da Alemanha, da velha rotina hereditária. A burguesia tinha conseguido uma participação, embora modesta, no poder político; e cada sucesso político da burguesia é explorado num avanço industrial. O “ano louco”, que se tinha felizmente deixado para trás, mostrou à burguesia que se tinha de pôr termo agora, de uma vez por todas, à velha letargia e sonolência. Na sequência da chuva de ouro californiana e australiana e de outras circunstâncias, deu-se uma extensão das ligações do mercado mundial e um avanço dos negócios como nunca antes acontecera; tratava-se de agarrar [a oportunidade] e de assegurar para si a sua quota-parte. Os começos da grande indústria, que surgiram desde 1830 e nomeadamente desde 1840 no Reno, na Saxônia, na Silésia, em Berlim e em cidades isoladas do Sul, eram agora rapidamente aperfeiçoados e alargados, a indústria doméstica dos distritos rurais estendia-se cada vez mais, era acelerada a construção dos caminhos-de-ferro e, com tudo isso, o enorme crescimento da emigração criou uma navegação a vapor transatlântica, alemã, que não necessitava de qualquer subvenção. Mais do que nunca anteriormente, negociantes alemães estabeleceram-se em todas as praças comerciais ultramarinas, tornaram-se intermediários de uma parte cada vez maior do comércio mundial e começaram pouco a pouco a ser intermediários na venda de produtos industriais, não só ingleses mas também alemães.

Contudo, o sistema alemão de pequenos Estados [deutsche Kleinstaaterei], com as suas múltiplas legislações diversas do comércio e dos ofícios, em breve se tinha de tornar numa insuportável grilheta para esta indústria em poderoso incremento e para o comércio a ela ligado. De poucas em poucas milhas um outro direito cambial, outras condições no desempenho de um ofício, por toda a parte, mas por toda a parte mesmo, outras chicanas, armadilhas burocráticas e fiscais, tantas vezes ainda barreiras corporativas, contra as quais de nada valia nenhuma concessão! Além disso, as muitas e diversas legislações locais(3*) e as limitações de estada, que tornavam impossível aos capitalistas lançar as forças de trabalho disponíveis, em número suficiente, nos pontos onde minério, carvão, força hidráulica e outros recursos naturais impunham o estabelecimento de empreendimentos industriais! A capacidade de explorar sem entraves a força de trabalho da pátria era a primeira condição do desenvolvimento industrial; mas por toda a parte onde o fabricante patriota concentrava operários de todos os confins, a polícia e a assistência aos pobres opunham-se ao estabelecimento dos recém-chegados. Um direito de cidadania alemão e a plena liberdade de circulação para todos os cidadãos do Império, uma legislação unificada do comércio e dos ofícios, já não eram fantasias patrióticas de estudantes exaltados, eram agora condições necessárias da vida da indústria.

Além disso, em cada Estado e Estadozinho, outro dinheiro, outros pesos e medidas, bastantes vezes de dois e três gêneros no mesmo Estado. E de todos estes inumeráveis gêneros de moedas, medidas ou pesos, nem um só era reconhecido no mercado mundial. Que admiração, pois, se negociantes e fabricantes que estavam em relações com o mercado mundial ou tinham de concorrer com artigos importados ainda tivessem de fazer uso de todas as moedas, medidas e pesos do estrangeiro, o fio de algodão dobado em libras inglesas, os tecidos de seda fabricados ao metro, as contas para o estrangeiro postas em libras esterlinas, dólares, francos? E como se havia de conseguir grandes instituições de crédito nestes âmbitos monetários limitados, aqui com notas bancárias em Gulden(4*), além em táleres prussianos, ao lado em táleres-ouro, táleres “Neue Zweidrittel”(5*), marcos-banco, marcos correntes, vinte e dois Gulden, vinte e quatro Gulden, com intermináveis cálculos cambiais e flutuações cambiais?

E quando, finalmente, se conseguia vencer tudo isso, quanta força se não tinha gasto com todos estes atritos, quanto dinheiro e tempo se não perdiam! Começou-se a observar por fim, também na Alemanha, que hoje em dia tempo é dinheiro.

A jovem indústria alemã tinha de provar no mercado mundial que só pela exportação podia tornar-se grande. Para isso era preciso que ela gozasse, no estrangeiro, da proteção do direito internacional. O comerciante inglês, francês, americano, podia sempre permitir-se algo mais no estrangeiro do que em casa. A sua legação intervinha por ele e, em caso de necessidade, alguns navios de guerra também. Mas o alemão! No Levante podia pelo menos o austríaco, em certa medida, confiar na sua legação, mesmo que não o ajudasse muito. Mas onde um negociante prussiano, no estrangeiro, se queixasse ao legado [do seu país] sobre alguma injustiça, quase sempre lhe era dito:

“Isto acontece-lhe com toda a razão. Que tem V. a procurar aqui, por que não fica quietinho em casa?”

O cidadão de um pequeno Estado, por maioria de razão, estava por toda a parte completamente desprovido de direitos. Para onde quer que se fosse, os negociantes alemães ficavam sob proteção estrangeira, francesa, inglesa, americana, ou tinham de se naturalizar quanto antes na nova pátria(6*). E mesmo se os legados [do seu país] quisessem interessar-se por eles, de que serviria? Os legados alemães eram eles mesmos tratados no ultramar como os engraxadores.

Por aqui se vê como a ânsia por uma “pátria” unificada tinha um fundo muito material. Já não era o ímpeto nebuloso de corporações de estudantes [Burschenschafter] nas festas de Wartburg, “onde flamejavam coragem e força nas almas alemãs”(7*); onde, a uma melodia francesa, se “arrastava o jovem, com sopro de tempestade, à luta e à morte pela pátria”(8*) para restaurar a romântica magnificência imperial da Idade Média; e onde o tempestuoso jovem se tornava por completo, na velhice, um vulgar criado pietista e absolutista de príncipe. Também já não era o apelo à unidade, significativamente mais próximo da terra, por parte dos advogados e outros ideólogos burgueses da festa de Hambach, que acreditavam amar a liberdade e a unidade por elas mesmas e não reparavam que a helvetização da Alemanha numa república de cantõezinhos, à qual ia parar o ideal dos menos confusos de entre eles, era tão impossível como o império hohenstaufeniano daqueles estudantes. Não, era o desejo impetuoso do comerciante e do industrial práticos, a partir da necessidade imediata de negócios, de varrer toda a velharia de pequenos Estados transmitida historicamente e que barrava o caminho à livre expansão do comércio e indústria; de afastar toda a fricção superficial que o negociante alemão tinha primeiro de vencer no seu país se queria entrar no mercado mundial e a que eram poupados todos os seus concorrentes. A unidade alemã tinha-se tornado uma necessidade econômica. E a gente que a reclamava, agora, sabia o que queria. Tinha sido criada no comércio e para o comércio, entendia-se para comerciar e com ela podia-se tratar. Ela sabia que se tem de exigir muito alto, mas que se tem também de baixar liberalmente. Ela cantava “a pátria alemã”, incluindo a Estíria, o Tirol e “a Áustria rica de honras e vitórias”, e:

Von der Maas bis an die Memel,

von der Etsch bis an den Belt,

Deutschíand, Deutschland über alies,

über alies in der Welt(9*)

mas estava pronta a conceder, desta pátria que tinha de ser sempre maior(10*), um abatimento muito considerável — 25% a 30% — contra pagamento a pronto. O seu plano de unidade estava feito e era praticável de imediato.

A unidade alemã não era, porém, uma questão meramente alemã. Desde a guerra dos Trinta Anos já não havia um só assunto comum alemão que tivesse sido decidido sem a muito sensível ingerência do estrangeiro(11*). Frederico II tinha conquistado a Silésia em 1740 com a ajuda dos franceses. A França e a Rússia tinham literalmente ditado, em 1803, a reorganização do Sacro Império Romano, por meio da Reichsdeputationshauptschluss. Depois, Napoleão organizou a Alemanha segundo a sua conveniência. E finalmente, no Congresso de Viena(12*), ela foi de novo fragmentada, principalmente pela Rússia e, em segunda linha, pela Inglaterra e pela França, em trinta e seis Estados, com mais de duzentos farrapos de terra particulares, grandes e pequenos; e os dinastas alemães, tal qual como em 1802-1803 no Parlamento Imperial de Regensburg, haviam sinceramente ajudado a isso e tornado ainda pior a fragmentação. Além disto, foram entregues pedaços isolados da Alemanha a príncipes estrangeiros. Assim estava a Alemanha, não só impotente e desamparada, consumida em zangas internas, política, militar e mesmo industrialmente condenada à nulidade; mas, ainda mais grave, a França e a Rússia tinham adquirido, por uso repetido, um direito à fragmentação da Alemanha, assim como a França e a Áustria se arrogaram um direito de zelar por que a Itália permanecesse despedaçada. Foi este pretenso direito que o czar Nicolau tinha feito valer em 1850 quando, proibindo da maneira mais grosseira qualquer alteração da Constituição de própria iniciativa, forçou o restabelecimento do Parlamento Federal, essa expressão da impotência da Alemanha.

A unidade da Alemanha tinha pois de ser conquistada não só contra os príncipes e outros inimigos internos, mas também contra o estrangeiro. E como estavam, nessa altura, as coisas no estrangeiro?

Na França, tinha Luís Bonaparte utilizado a luta entre burguesia e classe operária para se guindar à presidência com a ajuda dos camponeses, e ao trono imperial com a ajuda do exército. Mas um novo imperador Napoleão feito pelo exército, dentro das fronteiras da França de 1815, era um absurdo natimorto. O império napoleônico renascido, isso queria dizer a extensão da França até ao Reno, a realização do sonho hereditário do chauvinismo francês. Mas, em primeiro lugar, Luís Bonaparte não tinha que ter o Reno; qualquer tentativa nessa direcção teria tido como consequência uma coligação europeia contra a França. Em contrapartida, oferecia-se uma ocasião para elevar a posição de potência da França e proporcionar novos louros ao exército, através de uma guerra dirigida, em acordo com quase toda a Europa, contra a Rússia, que utilizara o período revolucionário na Europa Ocidental para ocupar com toda a tranquilidade os principados do Danúbio e preparar uma nova guerra turca de conquista. A Inglaterra aliava-se com a França, a Áustria era favorável a ambas, só a heroica Prússia beijava o chicote russo, que ainda na véspera a açoitava, e permanecia em neutralidade russófila. Mas nem a Inglaterra nem a França queriam uma vitória séria sobre o adversário e assim a guerra terminou numa muito suave humilhação da Rússia e numa aliança russo-francesa contra a Áustria(13*).

A guerra da Crimeia fez da França a potência dirigente da Europa e do aventureiro Luís Napoleão o maior homem do dia, o que, seguramente, não quer dizer muito. Mas a guerra da Crimeia não levou à França qualquer aumento territorial e trouxe no seio uma nova guerra, na qual Luís Napoleão devia cumprir a sua verdadeira vocação de “dilatador do Império”(14*). Esta nova guerra já tinha sido urdida durante a primeira, ao ser permitido à Sardenha incluir-se na aliança das potências ocidentais como satélite da França imperial, e especialmente como seu posto avançado — contra a Áustria. A guerra foi posteriormente preparada na conclusão da paz, pelo acordo de Luís Napoleão com a Rússia, à qual nada era mais agradável do que um castigo da Áustria.

Luís Napoleão era agora o ídolo da burguesia europeia. Não só por causa da sua “salvação da sociedade” no 2 de Dezembro de 1851, onde certamente tinha aniquilado a dominação política da burguesia, mas para salvar a dominação social desta. Não só por ele ter mostrado como pode o sufrágio universal, em circunstâncias favoráveis, ser transformado num instrumento para a opressão das massas; não só porque sob a dominação dele a indústria e o comércio e, designadamente, a especulação e a intrujice da Bolsa prosperavam de maneira nunca vista — mas, antes de tudo, porque a burguesia reconhecia nele o primeiro “grande homem de Estado” que era carne da sua carne, sangue do seu sangue(15*). Era um arrivista, como qualquer verdadeiro burguês. “Passado por todas as águas”, conspirador carbonário na Itália, oficial de artilharia na Suíça, distinto vagabundo endividado, polícia especial na Inglaterra, mas sempre e por toda a parte pretendente, ele tinha-se preparado, por um passado aventureiro e por comprometimentos morais em todos países da Europa, para imperador dos franceses, dirigente dos destinos da Europa. Tal como o burguês tipo, o americano, se prepara para milionário por uma série de bancarrotas honradas e fraudulentas. Como imperador, não só colocou a política ao serviço do ganho capitalista e da intrujice da Bolsa, mas empreendeu a própria política totalmente segundo os princípios da Bolsa de valores e especulou com o “princípio das nacionalidades”. A fragmentação da Alemanha e da Itália tinha sido até então, para a política francesa um direito fundamental inalienável da França: Luís Napoleão dis-pôs-se logo a desfazer-se desse direito aos pedaços, a troco de pretensas compensações. Ele estava pronto a ajudar a Itália e a Alemanha a eliminar a sua fragmentação, no pressuposto de que a Alemanha e a Itália lhe pagariam cada passo para a unificação nacional com uma cedência de território. Assim, não só foi satisfeito o chauvinismo francês, não só o império foi gradualmente levado às suas fronteiras de 1801, como a França se colocou de novo enquanto potência especificamente esclarecida e libertadora dos povos, e Luís Napoleão como protetor das nacionalidades oprimidas. Então toda a burguesia esclarecida e entusiasta das nacionalidades (porque vivamente interessada na remoção de todos os obstáculos aos negócios no mercado mundial) rejubilou unanimemente com estas Luzes libertadoras do mundo.

O começo foi feito na Itália(16*). Desde 1849, a Áustria dominava aí ilimitadamente e a Áustria era então o bode expiatório geral da Europa. A magreza dos resultados da guerra da Crimeia não foi imputada à indecisão das potências ocidentais, que só tinham querido uma guerra de aparência, mas à posição indecisa da Áustria, da qual ninguém fora mais culpado que as próprias potências ocidentais. Mas a Rússia ficara tão ofendida com o avanço dos austríacos sobre o Prut — agradecimento da ajuda russa na Hungria em 1849 (embora este avanço tenha precisamente salvo a Rússia), que via com alegria qualquer ataque contra a Áustria. A Prússia já não contava, já era tratada en canaille(17*) no congresso da paz, de Paris. E, assim, a guerra para a libertação da Itália “até ao Adriático” foi urdida com a colaboração da Rússia, foi empreendida na Primavera de 1859 e terminada já no Verão, no Míncio. A Áustria não foi expulsa da Itália, a Itália não ficou “livre até ao Adriático” e não foi unificada, a Sardenha recebera acréscimos; mas a França obtivera a Sabóia e Nice e tinha assim, do lado da Itália, as fronteiras de 1801.

Mas os italianos não estavam satisfeitos com isso. Na Itália era então a manufatura propriamente dita que predominava, a grande indústria andava ainda de cueiros. A classe operária ainda não estava, nem de longe, completamente expropriada e proletarizada; nas cidades, possuía ainda os seus meios próprios de produção, no campo o trabalho industrial era um ganho paralelo para pequenos camponeses possuidores de terras ou para rendeiros. Por conseguinte, a energia da burguesia ainda não estava quebrada pela oposição face a um moderno proletariado com consciência de classe. E como só havia fragmentação na Itália pela dominação estrangeira da Áustria, sob cuja proteção os príncipes levavam ao extremo o seu mau governo, a nobreza grande possuidora de terras e as massas populares das cidades estavam do lado da burguesia, enquanto campeã da independência nacional. Mas, em 1859, sacudira-se a dominação estrangeira, exceto na Veneza; a sua ingerência ulterior seria impossibilitada pela França e pela Rússia; já ninguém a receava. E a Itália possuía em Garibaldi um herói de caráter antigo, que podia fazer prodígios e os fez. Com mil voluntários [Freischärlern] derrubou todo o reino de Nápoles, unificou efetivamente a Itália, rasgou o tecido artificial da política bonapartista. A Itália estava livre e, em substância, estava unificada — não pelas intrigas de Luís Napoleão, mas pela revolução.

Desde a guerra italiana, a política externa do segundo Império francês já não era um segredo para ninguém. Os vencedores do grande Napoleão deviam ser castigados — mas Vun après Vautre(18*), um após outro. A Rússia e a Áustria tinha recebido a sua parte, a próxima da série era a Prússia. E a Prússia era mais desprezada que nunca; a sua política durante a guerra italiana tinha sido cobarde e lastimosa, tal qual como no tempo da paz de Basileia, em 1795. Com a “política das mãos livres”, chegou ela ao ponto de ficar inteiramente isolada na Europa, [ao ponto] de todos os seus vizinhos, grandes e pequenos, se regozijarem ante o espetáculo de como a Prússia foi batida, de as suas mãos só ficarem livres para isto: ceder à França a margem esquerda do Reno.

De facto, nos primeiros anos após 1859, era convicção por toda a parte propalada e mais do que em parte nenhuma no próprio Reno, que a margem esquerda do Reno caberia irremediavelmente à França. Não era precisamente o que se desejava, mas via-se chegar isso como uma fatalidade inevitável e — honra seja feita à verdade — também não se receava muito isso. Entre os camponeses e pequenos burgueses redespertavam as velhas recordações do tempo dos franceses, que realmente tinha trazido a liberdade; do lado da burguesia, estava já a aristocracia financeira, particularmente em Colónia, profundamente implicada nas intrujices do Crédit mobilier(19*) parisiense e noutras companhias de aldrabice bonapartistas, e clamava pela anexação(20*).

Todavia, a perda da margem esquerda do Reno era o enfraquecimento não só da Prússia, mas também da Alemanha. E a Alemanha estava mais cindida que nunca. A Áustria e a Prússia mais estranhas uma à outra que nunca por causa da neutralidade da Prússia na guerra italiana; a chusma de pequenos príncipes, meio receosa de Luís Napoleão e meio desejosa dele, olhando-o como ao protector de uma renovada Confederação do Reno — tal era a situação da Alemanha oficial. E isso num momento em que só as