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Marx: "Escorpião e Félix"


CAPÍTULO X Como havíamos prometido no capítulo anterior, segue aqui a comprovação de que a mencionada soma de 25 táleres pertence pessoalmente ao bom Deus. Esses táleres não têm dono! São dotados de excelsos pensamentos, nenhum poder humano os possui; mas o glorioso poder que navega sobre as nuvens abarca o universo e, consequentemente, os mencionados 25 táleres; as vestes desse poder são tecidas com os fios do dia e da noite, do Sol e das estrelas, das gigantescas montanhas e das infindáveis planícies de areia, ressoam como as harmonias, como o estrondo de cascatas, e chegam lá onde a mão do homem não alcança, resvalando assim os mencionados 25 táleres, e... Não posso continuar, estou intimamente abalado, olho para o universo, para mim mesmo e para os 25 táleres cuja substância reside nestas três sentenças: o ponto de vista dessas moedas é o infinito, soam como a voz dos anjos, lembram o Juízo Final e o fisco... e Escorpião, estimulado pelas histórias do amigo Félix, arrebatado pela melodia inflamada e subjugado pelos sentimentos juvenis do companheiro, enamorou-se de Margarida, a cozinheira, supondo que ela fosse uma fada. Presumo a partir desse fato que as fadas têm barba, pois Madalena Margarida -não se trata da Madalena arrependida- ostentava barba e bigode, como um glorioso guerreiro. Tenros fios encaracolavam-se em seu formoso queixo e, qual escarpa sobre o mar solitário, contemplada de longe pelos homens, esses fios sobressaíam na chata panela do rosto, orgulhosos e conscientes de sua grandeza, e rompiam os ares, agitavam os deuses e comoviam os homens. Parecia que a deusa da fantasia havia sonhado uma beleza barbada e se enredara nos domínios encantados de um rosto jubado, mas, ao despertar, era a própria Margarida que sonhara, e eram ruins os seus sonhos: ela era a grande meretriz da Babilônia, o Apocalipse de João e a ira de Deus, que deixara um restolhal afiado brotar de sua pele vincada por linhas onduladas a fim de que a beleza não incitasse ao pecado e a virtude fosse preservada, como a rosa é preservada pelos espinhos, e para que o mundo compreendesse e não morresse de amores por ela. Capítulo XII "Um cavalo, um cavalo! Um reino por um cavalo!", dizia Ricardo 3º. "Um homem, um homem! Eu mesma por um homem!", dizia Margarida. Capítulo XVI "No princípio era o verbo e o verbo estava com Deus e o verbo era Deus e o verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória." Belos e inocentes pensamentos! A associação de ideias conduziu Margarida mais adiante; ela acreditava que o verbo habitava as coxas, assim como, na história de Shakespeare, Tersites imagina Ajax com as vísceras na cabeça e a razão na barriga; e então Margarida, e não Ajax, concebeu convictamente a ideia de que o verbo se fizera carne; ela viu nas coxas a expressão simbólica do verbo, v