"Quem não fala do colonialismo deve calar-se também sobre o fascismo e o capitalismo"


Os dois expoentes máximos da "teoria crítica" não se limitavam a contrapor seu universalismo imperial à revolução anticolonial em pleno curso. Vejamos esta eloquente declaração dos anos 1960:

A alegria torna os homens melhores. É impossível que homens felizes, capazes de sentir prazer e que vislumbram muitas possibilidades para ser felizes particularmente maus [...]. Dizem que Kant e Goethe eram grandes entendedores de vinho, o que significa que, quando estavam sozinhos, decerto não eram atormentados pela inveja, ao contrário, tinham a possibilidade de sentir prazer, pois eram ricos em experiências. [1]

Sendo assim, não se podia esperar nada de bom dos "condenados da terra" caros a Frantz Fanon e ao movimento anticolonialista. Todavia o mesmo Horkheimer reconhecia que "os industriais aprovaram o programa de Hitler"[2]. Homens presumivelmente "felizes", talvez também eles "grandes entendedores de vinhos" (não menos do que Kant e Goethe), haviam se mostrado "particularmente maus", abrindo caminho para um programa caracterizado pela guerra, pelo expansionismo colonial e pelo aniquilamento. E, no entanto, o motivo em questão está presente também em Adorno. Também para ele a fonte do mal é o "ressentiment" (das classes e dos povos em condição de subalternidade), é o rancor que "ataca qualquer felicidade, até mesmo a própria", e em consequência do qual "a saciedade se tornou um insulto a priori, enquanto seu único aspecto negativo deveria consistir no fato de que há pessoas que não têm nada para comer". Aliás, este último é um problema que poderia ser resolvido "tecnicamente", isto é, não com a ação política dos deserdados, mas com a intervenção benéfica das classes dos países detentores de uma cultura superior (e de riqueza e poder) [3]. Em sua época, Nietzsche negara qualquer tipo de objetividade à questão social, atribuindo-a ao ressentiment dos malsucedidos; os dois expoentes da teoria crítica procedem de maneira análoga quando enfrentam a questão social vigente no cenário internacional. Não é de admirar, portanto, que o alvo principal da polêmica de Adorno seja a agitação revolucionária do Terceiro Mundo:

Indubitavelmente, hoje, o ideal fascista se funde sem maiores problemas com o nacionalismo dos chamados países subdesenvolvidos, que já não são mais definidos enquanto tais, mas como países em via de desenvolvimento. O acordo com aqueles que, na competição imperialista, se sentiam em desvantagem e também queriam participar do banquete manifestou-se já durante a guerra nos slogans sobre as plutocracias ocidentais e as nações proletárias. É difícil dizer-se, e em que medida, essa tendência já desembocou na corrente subterrânea, hostil à civilização e ao Ocidente, própria da tradição alemã, e se, também na Alemanha, está se delineando uma convergência entre nacionalismo fascista e comunista.[4]

Depois de deslegitimar o movimento anticolonialista e terceiro-mundista no plano psicológico como expressão de ressentiment, sempre lançando mão da polêmica de Nietzsche com o movimento socialista, a teoria crítica agora condena também no plano ético e político: a agitação não é promovida pelo desejo de justiça nas relações internacionais, mas pela aspiração a participar pessoalmente do banquete imperialista. Nesse quadro, não há espaço para a revolução anticolonialista; os adversários são apenas imperialistas satisfeitos, já tranquilos, e imperialistas potenciais, muito mais agressivos e perigosos. Mas a quais realidades políticas Adorno alude quando denuncia o caráter fundamentalmente fascista do "nacionalismo dos chamados países subdesenvolvidos" ou a "convergência entre nacionalismo fascista e comunista"? Estamos em 1959. Nesse momento, aqueles que cultivam "o ideal fascista" no sentido estrito do termo são apenas dois países: Portugal e Espanha. Nenhum dos dois fazia ou faz parte do Terceiro Mundo, eram ambos potências coloniais e ambos se sentiam, e eram, parte integrante do Ocidente: o primeiroera membro fundador da Otan; o segundo já estava empenhado numa aproximação paulatina dessa organização político-militar da qual viria a fazer parte em 1982. Como explicar então o discurso de Adorno? Três anos antes, Grã-Bretanha, França e Israel haviam implementado a expedição colonial contra o Egito de Nasser, que nacionalizara o Canal de Suez e que, com o apoio do "campo socialista", conclamara o mundo árabe a se revoltar contra o jugo colonial e semi-colonial. Nessa ocasião, Anthony Eden, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha (que até então controlava o Canal de Suez) e fiel intérprete do Império, apontava Nasser como "uma espécie de Mussolini islâmico" e como um "paranoico" com "a mesma estrutura mental de Hitler" [5]. A essa altura, na ideologia da guerra (colonial) e na falsa consciência (filocolonialista) de Adorno, a conta fecha à perfeição: o nacionalismo manifestado pelo Egito "subdesenvolvido", mas decidido a recuperar a soberania nacional e a integridade territorial, era de tipo fascista, e o apoio que recebia de Moscou e Pequim constituía a confirmação da "convergência entre nacionalismo fascista e comunista". O que mais impressiona nessas declarações é o fato de que estão inseridas num ensaio dedicado à "elaboração do passado" (Aufarbeitung der Vergangenheit): acertar as contas com o nazismo e com o horror da "solução final" significaria distanciar-se claramente da revolução anticolonial. É também a orientação de Horkheimer, ao qual - segundo um seu bem informado estudioso e admirador - dos nossos dias - se deveria reconhecer o mérito de ter identificado rapidamente "a essência desumana do anti-imperialismo" e a linha de continuidade (sob marca do "anti-imperialismo antiocidental") que iria do Terceiro Reich aos movimentos nacionais e revolucionários do Terceiro Mundo e ao terceiro-mundismo [6]. Horkheimer e Adorno partiam do pressuposto de que reconhecer as diferenças nacionais e exigir o respeito a elas seria sinônimo de "nacionalismo", de chauvinismo e talvez até de racismo, de forma que o discurso sobre a nação deveria ser inserido numa infausta tradição política que culminou no Terceiro Reich. Na realidade, o principal teórico nazista condena explicitamente o "entusiasmo pelo nacionalismo em si": uma vez generalizada, "a palavra de ordem do direito à autodeterminação dos povos" serve a "todos os elementos de raça inferior sobre a face da Terra para reivindicar para si a liberdade", como em sua época fizeram "os negros do Haiti e de São Domingo"[7]. Mais forte que nunca ressoa aqui o ódio às revolução nacionais dos povos coloniais. O caráter puramente bárbaro do nazismo reside, entre outros aspectos, na tentativa de construir um império colonial no coração da Europa, pretendendo, assim, negar o direito à autodeterminação e a uma existência nacional autônoma também àqueles povos que já haviam sido francamente reconhecidos pela comunidade internacional em seu todo. A linha de continuidade imaginosamente traçada por Adorno recalca o pathos exaltado do Ocidente - a ser defendido a todo custo da sublevação dos povos coloniais e de cor instigados pelos insanos agitadores judeus e bolcheviques -, que é o fio condutor do discurso de Hitler. Horkheimer é o autor de uma grande sentença: "Quem não quer falar do capitalismo deve calar-se também sobre o fascismo" [8]. É uma sentença que, contestando mais uma vez a "teoria crítica", deve ser reformulada: "Quem não quer falar do colonialismo deve calar-se também sobre o capitalismo e o fascismo". Como veremos melhor em seguida, o recalque do colonialismo também impossibilita uma autêntica elaboração do passado.

Da obra "O marxismo ocidental: como nasceu, como morreu, como pode renascer." Escrito por Domenico Losurdo Notas [1] Max Horkheimer, "Lo Stato autoritario" [1942], em La società di transizione (org. Werner Brede), Turim, Einaudi, 1979, p. 124. [2] Ibidem, p. 40. [3] Theodor W. Adorno, "Was bedeutet Aufarbeitung der Vergangenheit", em Eingriffe. Neun kritische Modelle (Frankfurt, Suhrkamp, 1964 [1959]), p. 136. [4] Ibidem, p. 137. [5] Ver o texto de "Conclusão" em Domenico Losurdo, Il linguaggio dell'Impero. [6] Stephan Grigat, "Befreite Gesellschaft und Israel". Zum Verhältnis von Kritischer Theorie und Zionismus", em Stephan Grigat (org.), Feindaufkärung und Reeducation (Friburgo, ça ira, 2015), p. 120. [7] Alfred Rosemberg, Der Mythus des 20, cit., p. 645. [8] Max Horkheimer, "Die Juden und Europa", Zeitschrift für Sozialforschung, n. 8, 1939, p. 115.

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